quinta-feira, 6 de março de 2014

banhistas verão paquetá

no lixo lavado na Baía de Guanabara
copos de guaravita
recipientes de limpeza
de detergente e de sabão

os banhistas chegaram cedo
agora fedem na estação

cancros e algarismos do tempo

o último algarismo do ano último
que por força do hábito insiste
em aparecer
resiste
o passado novo


todos guardamos na pele
a memória do câncer 
que só saberemos depois 
de passadas algumas décadas

cancros provocados 
por itens de beleza
por remédios
pelos sorrisos não dados

saberemos quando velhos
ou antes disso
no tarde demais

era cedo demais
ela era tão linda
com seu vestido e batom vermelhos


banzo

é possível estar lá e cá
não, alguns dizem
apenas um espaço é possível
de uma só vez

outros dizem, sim
por que não?
se o espaço sou eu
eu carrego o espaço comigo

e isso eu digo, é o banzo
é estar lá e cá
sem nenhum conflito ou
ser o próprio conflito

no aqui a lembrança é insular
e no lá também é
por uma fina passagem
estreito dos mosquitos
passagem entre praias
entre gritos entre mitos
rastros coloniais
do que sonhamos ter sido
franceses ou tamoios
vivido não vivido
o vento equatorial
assanhando em seu zumbido
o sol paralelo à testa
meus miolos franzidos
o raio do som do vizinho
do carro mala aberta
da rua grande alerta
perfurando os ouvidos

banzo é lembrar de tudo isso
sabendo que ainda é
carregando tudo isso

banzo é ser território
longe dele recriá-lo
é ser lembrança
com o tempero que for
a cor que for
quente ou fria

é tentar ser aqui
o que talvez nunca tenhamos sido lá
banzo é um repertencimento
uma reavaliação uma retaliação
que só a distância incita
apenas ela complica
nossos pontos cardeais
que só existem
porque só existe mudança


presente ausente
presente 
lembrança









Azulejos em Paquetá

2012

quarta-feira, 5 de março de 2014

escrita corpórea

tá tudo escrito no meu corpo
minha história e meus erros
minhas quedas no joelho, na canela, no braço, na boca

cai de boca no chão
chorei e perguntei
por que eu?

criança, eu

marcas da borracha do tempo
sem perspectivas
com alternativas
uma história cicatrizada
que insiste em lembrar
quando o esquecimento é limpeza

borrada com marcas celulares me pergunto
quem eu?

células se renovam
nosso corpo que é muitos durante a vida
e talvez apenas em sobrevida
me veja
sem história
com vida

cri ar

é um grito
mas mais que isso
é um sopro
é ar
que ressoa
e chega a quem escuta
ou vê
a obra invisível
nunca escrita
jamais lida


resposta

eu esperei a resposta
vir de Deus
vir do mundo

eu esperei
e a resposta veio

muda
velada
adulterada
criptografada
hackeada

pelo desejo de saber

"pobre coitado"

"pobre coitado"
assim dizemos com pena
mesmo sendo ele
quem mais suporta

sua força
aguenta
deforma
fede
zomba

resiste
nu
preso no porte

antes que o dito forte
consiga retirar de vez sua vida


o toque

a intuição vem dizer
o que deveria fazer

a doença vem dizer
o que não deveria ter feito

ambas dão o toque
com sutileza ou efeito

lembrando que
quando achamos que controlamos
o imprevisível nos detém
mordisca nossas entranhas
pelo necrotério do turismo
a paisagem vira cifra
a beleza lixo
os pobres mortos
os mortos esquecidos
nos monumentos estilizados

tenho fome de espaçar da mordaça

sim, mucunã

mato perguntas negativas
com um sim

sim
sim
sim

mucunã
abre em mim
triângulo pandeiro violão

semente amuleto
da serra do sertão

borboletear

muitas coisas voando na cabeça
ziguezagueando feito borboleta
escrevendo em desenho uma interrogação

duas ou mais

nos ares do presente
metamorfose

concluir e não cumprir

para que pouse outros amigos alados

imago


um poço

uma cidade pode mudar de lugar
mas não se pode mudar um poço

o poço é a sua água
o coaxar dos seus sapos
o furo negro que alcança profundezas

abismo, redondo, estreito, escuro, fértil

o poço tem água viva
e os homens vem beber dizendo
- estou no meu lugar


abissal
incolor inodora insípida
a solidão

nuvens

há uma curva na paisagem
tão bela , por que não?

medo de errar
de ser inoportuno
rasga o tempo do agora
com suas possibilidades remotas
ou vistas pelo desejo alerta

é uma bela curva na paisagem do agora

só temos agora para escrever
para fazer essa foto
de uma luz com sua sombra
projetando cintilância

nada sobra pra nuvem da memória



é a serra que faz cócegas na nuvem  
dedinho tic tic tic
uma criança nuvem
na lembrança da criança
seu dedo brincalhão
fazendo cócegas nas vontades
sinceras ou não
vistas em vão

escalar nuvens cada vez mais altas
astrais
onde paira a lua cheia



Lua Cheia 
 Fevereiro de 2014

novo ciclo

novo ciclo
insisto em circular
nos escritos


uma ideia leva a outra
vemos aqui a superfície de inscrição

é favorável ter onde ir

uma ideia lava a outra