sexta-feira, 18 de novembro de 2016

observância

ao passo que eu sacava o meu passo
como sendo o de maior interesse
tu olhaste os olhos do menino
para onde irradiava sua atenção prima
uma história era contada
por descendentes urbanos de um devir perdido
em nós, eu diria, antes mesmo da tua travessia
até os parentescos dilacerados com os sentidos
muito pouco sobrou do que queremos
a liberdade
cantos e apitos
luz difratada
de uma morte anunciada
a cada vez que tentaram me modular
mais profundo ainda é o corte
quando me vi
cumprindo o papel de algoz de mim

terça-feira, 11 de outubro de 2016

pássaros da aurora

onde brilha a luz com toda intensidade
flutua nossos corpos
findáveis nossos ossos
e peles
e carnes
todos os órgãos
aguardam algo eterno
sonoro prana silencioso
para trazer o som
para expandir o movimento
dos dedos
da voz
da caixa torácica
onde repousa nosso dia
e festeja nossas noites
impuras e arredias
em puras sintonias
como esta
agora
sejam bem vindos
pássaros da aurora
o Sol nos respinga

o som nos respinga


quarta-feira, 29 de junho de 2016

raiar São Pedro

golpe forte na expressão
golpe forte com a costa da mão
pandeiro e pandeirão
o que emana do homem que sobe
cada degrau de seu ser
pra pedir uma benção
emana a força e a dor
torna-se grande de joelhos
faz crescer uma grande onda
que balança o barco aparentemente estático

enquanto por outra porta
os índios guerreiros e todo seu batalhão
adentram na capela sorrateiros
arrastando-se e empunhando suas lanças
arrastando-nos pra dentro de uma tribo
transportando pra igreja de São Pedro
o chão do terreiro

sotaques se misturam no raiar do dia
a Casa das Minas celebra seu assentamento
a voz do pai se apresenta no filho
o corpo do índio morto resiste na entidade
o pelo pintado da onça morta
movimenta-se no tecido sintético das alegorias

quem não segura o que vem de lá
sofre a contradição por se sentir invadido

o carinho no olhar
abre qualquer batalhão
pra passar o sentido de tudo

não é pela via da brutalidade
menos ainda da invasão
o lugar do outro é sagrado
suas penas acariciam nosso pescoço
e nosso passar

não há imagem que sobrevive mais
que aquela inscrita no corpo



Cazumba Mirim
festa de São Pedro, São Luís, 2016


quinta-feira, 23 de junho de 2016

goteiras

vento frio lá de longe
vem chegando um tempo escuro
corremos para fechar janelas
tirar roupas do varal
mover aquilo que intencionávamos livrar do mofo alastrado
fechamos tudo, com ou sem aval do tempo
nos fechamos
e mesmo tendo trancado
o porvir despencou sobre os telhados
infiltrou pelas paredes
transpassou o forro
gotejou sobre nossos objetos de apreço

corremos agora para dar conta das goteiras
que nos surpreende sempre em um novo lugar
dentro de nós
escorre gotas carregando a sujeira do telhado
diluindo o excremento de morcegos e pombos que moram lá
e mesmo sem vê-los
aspiramos suas imundas presenças

dentro de nós há um mofo intruso
onde está aquilo que abandonamos


sábado, 30 de abril de 2016

a cara do medo

eu vi a morte no teu rosto
nela
reconheci muitas imagens
fotos, quadros, afrescos, frames
nela
reconheci a cara da medo
sobreposta na face usurpada



peligro
 2016


domingo, 31 de janeiro de 2016

pesos e medidas

relembrar e desaparecer
chão molhado
reencontro a pegada da presa
eu mesma
reencontro o rastro na lembrança
mesmo já sendo apagado
músculos enrijecidos pelo choque
reencontro sonhos esquecidos
exames de situações
mecanismos de instintos
reconstituições de frações de segundos
de milímetros limítrofes do desastre
a ética não deixa esquecer
o exame
o direcionamento
a situação está sempre em aberto
a uma nova grafia
a uma nova medida
a uma nova poesia
casulo de dores ou alívios
casulos vazios
voo translúcido do erro
perspectiva
rastejo lagarta
antes do voo
antes de ser esmagada
pela circunstância
chão seco
ar chuva
para lavar
tormentas

quinta-feira, 19 de novembro de 2015

desmodulação


não me module
ética
não é dar exemplo


não queira me modular
mude
e me deixe mudar


corte a modulação
pela raiz
o corte
sempre dói
mas cicatriza

quinta-feira, 5 de novembro de 2015

mares, rios e cactos

os males dos tempos
convertem-se em alegrias
rápidas e fugazes

os mares dos tempos
convertem-se em tristezas profundas
rápidas imagens fugazes

os rios de lama
os rios de gente
desaparecidas espécies
contaminados humanos
nas lavouras cruéis
rápidos resgates
profundos afogamentos
praias de corpos inchados
putrefatos lamentos

não temos tempo para lamentar o suficiente
nossa potência soterrada por nós mesmos
pelo o que queremos
quero cessar de querer mais

*

matamos cactos com água excessiva
de sede plantas marítimas
de plástico aves ingênuas
arritmias, incompetências, calafrios
sequer admitimos
desaprendemos o cultivo
urgente é nosso desvio
rumo ao muito pouco

segunda-feira, 19 de outubro de 2015

coletânea de sons - praia dos coqueiros - pqt

o som do motor
do barco
lá longe
o avião
cachorros e pássaros
bem perto
o som da maré
em resposta ao motor do barco
suspende subterrâneos sons
respostas ao vento
gaivotas descem
do vento ao peixe
de vento em popa
do vento nas folhas
das castanheiras
na praia dos coqueiros
uma castanha
caiu


quinta-feira, 1 de outubro de 2015

chave

jogo fora a chave
do cômodo
não mais habitado

pequena com detalhe vermelho
o que restou
da vida ao lado do vivo
cômodo sem vida
chave no lixo
fantasmas
placa vende-se
entrar lá outra vez
não consigo

jogo um plano fora
sem remorsos


perigeu lunar diurno

deixo-me afetar pelo eclipse não visto
deixo-me só
esquecido
atrás de nuvens
sombra e chuva
acordar com ventania agonia rebeldia
arte detona arte
grito detona suspiro
vamos aprendendo a silenciar
quando mais falamos de nós
mais sentimos o eclipse da nuvem muda
memes gifs samples redundam e afogam o som mudo
ouvimos a cidade na trilha urbana
percebemos de longe a fila de formigas
preces silenciosas seguidas da chegada no aposento
inocente sorriso desconhecido
cumplicidade de minutos
mesmo estado mental
sem precisar comungar do mesmo
quando aterrizei não estava mais lá
gnomo perigeu lunar à luz do dia
se foi na trilha do desconhecido
verborragia desnecessária complementa
a palavra nenhuma
sem palavras para tanto
é preciso concluir o poema

terça-feira, 22 de setembro de 2015

telepartilha

telepatia
chego qd c digita linhas p mim
telepartilha
vejo os três pontinhos
leio sozinho
um afago resumido

imago trama

manobras suaves das imagens
jogar com elas
como lugar possível da experiência
talvez o único
enfrentamento possível às forças cruéis

não é possível que seja o que sobra a nós
sobre nós
não é possível que não faça nenhum efeito
não é possível mas é possível
na imagem

sábado, 5 de setembro de 2015

ainda

ainda somos pelo o que passamos
ainda podemos voltar na casa vazia
pra despedida dos animais e das plantas

eram a nossa companhia de todos os dias
quando dormíamos
faziam vigília

e ainda fazem
mesmo sem ninguém por lá

não suportamos ver o abandono
reconhecer apenas detalhes
que não interessaram a ninguém
ficaram como lâminas pra nossa sensibilidade frágil

animais e plantas não se importam tanto
mas compreendem que fomos
e que talvez não voltemos mais

ainda que tenhamos lembranças
estômagos embrulham sorrisos perdidos
miados quando abríamos a porta pela manhã
gritos inaudíveis nos cômodos em desuso

quinta-feira, 4 de junho de 2015

AzulPedraMar

cobrir pedras
saio pela orla
deixando marcas expressivas na memória

lenço
saia
marcando um território
construído em lugar nenhum
construir um além lugar
AzulPedraMar



onde está a sereia?
vestir uma pedra
para trazê-la de vota
para instaurar o movimento
da imagem imemorial



de que cor era a baía?
acho que nunca foi azul
talvez esverdeada ou quase marrom
talvez avermelhada de rio

mas o mar é azul
e assim desejam os turistas veranistas
e seu imaginário



cor imprime na água
a marca do que nunca seria
será?




solve et coagula

esgoto desgosto
azul dejeto
do homem
mulher ventre água
poluída humanidade
descabida sem idade
para voltar
o que já foi um dia
alquímica fórmula ainda não decifrada




segunda-feira, 13 de abril de 2015

falar com borboletas

quero também falar com borboletas
sê-las
sons
ar

broto abrir iridescência
quero sê-las
larva casulo crescente
broto flor iridescência

o que me ensinas
mais do que imaginas

falar com borboletas
contar segredos
escutar silêncios elementais

broto
sempre em movimento
a imagem do ser


terça-feira, 31 de março de 2015

suculenta

como fruta madura 
que se desprende do pé
não adianta forçar
e vale a pena esperar por ela

observar o momento da entrega

doce é o seu néctar
suavemente se desconecta
do galho da espera

suculenta

quarta-feira, 4 de março de 2015

O monge

rastro  luz, 2014, Cusco


na beira da montanha
o monge molhou-se
com a água do jardim

e saiu correndo
extravasando a energia que havia nele
e mesmo em mim

sua roupa roxa
pintando o caminho
dizia que nada está parado
e que o mistério nodal
dos escritos perdidos no tempo
é o repouso e o movimento

sábado, 3 de janeiro de 2015

sobre mapas e flores

o mapa de planos
o mapa em planos
sem tempo pra estratégia
a tática

em honra da presença
a ausência dramática
do decalque amarelo
da flor esquecida no caderno
tão potente como os vestígios
dos loucos dessacralizados

no meu mapa
ao centro
o esquecimento

o acaso ornando os sopros
em todas as direções
dos anjos de cabelos encaracolados

quinta-feira, 18 de dezembro de 2014

ser imperceptível

desenvolva poderes normais
de ficar invisível
sentado no banco da praça pública

desenvolvo poderes supranormais
de ser o invisível

ser visto é um perigo
desenvolto o poder anormal
de querer não ser visto
nem lembrado nem ouvido nem compreendido

o poder do apagamento dos sentidos
do ser
do sonido
imperceptível


terça-feira, 9 de dezembro de 2014

foice silêncio

a dificuldade em calar-se
jaz um atraso para si próprio

o dia se foi na voz que se foi
foice empenada
nada amolada
para cortar o não dito

o silêncio merece ser escrito
e o corte cego dói bem mais



sexta-feira, 28 de novembro de 2014

concentra

paradinha
vendo o tempo passar

gotas de orvalho da madruga
cisco de areia de ampulheta
parado empenho no olho a coçar
incômodo sucede indiferença

nesse verso retomo o gesto de versar

rir da chama do candeeiro

os homens proativos resmungam
a chama bruxuleia risadas
o tempo serpanteia
teu sorriso me conforta


acerto erro

para quem não gosta de rasuras
errar o dia
escrever sobre outro
é uma catástrofe

corretivo por cima
página adulterada
é preciso dormir
para estar acordada

acordo com o destino
jamais nos vemos



intercílio

flores ascendentes ao por do Sol
rumo a uma estrada curta ao longo da noite
anum voa na luz amarela
rumo ao pé de algodão

poderia ter queimado
o fogo foi muito alto e rápido
fogo de palha

anum branco, alma de gato
voa vendo as palmeirinhas
trêmulo frescor

criamos e vivemos bolhas
de ser

volto para casa
com as mãos vazias

a luz do dia
à luz do dia



terça-feira, 4 de novembro de 2014

sábado, 30 de agosto de 2014

Acariciando um cacto

desliso as pontas dos dedos
e com pequenas garras se prende a mim
com um desejo sem apego

não há aspereza
cacto tempo nos conforta com sua beleza
com sua franqueza
mesmo com a fraqueza dos nossos dedos
ávidos por rápidas soluções

segunda-feira, 18 de agosto de 2014

acúmulo

limpando caixas de entrada
caixas de saída
malas repletas de acúmulos da vida
e a renovação rompendo o mofo

não é fácil
apagar o que acumulamos
deletar o que nós mesmos buscamos
realocar vestígios

mas é preciso
como um corte que degola em sacrifício

segunda-feira, 19 de maio de 2014

azul pedra mar

lápis-lazúli
azul índigo
azul pedra mar

banho de mar
banho de sal grosso

rachadura azul
geometria do caos
movimento das marés



domingo, 18 de maio de 2014

pier

severa nuvem afogada na água turva da baía
sincera água da baía afogada na dimensão mais íngreme

mergulho

poderia eu ter caído na água turva
pra mergulhar na nuvem refletida
se assim fizesse estaria perdida
não haveria pescador nem turista para me salvar

a vizinha dizia que colheria flores para mim
que ficaria bonito na composição do quadro
mas agradeci cordialmente
disse não às flores amarelas do jardim

disse não porque me interessava o azul
que nunca foi nem será
pois não é

terça-feira, 13 de maio de 2014

não sou eu

não sou eu que decido
a minha barquinha
que no mar me guia

eu seguro o leme
mas a barca me leva
leve a música anacrônica
a memória



diante do céu me dizendo acordada
a luz penetrando a montanha mudando
a cada segundo
o imutável

fiz até uma tentativa
mas não era mais possível alimentar a mentira

pelo nosso bem
pelo bem




terça-feira, 6 de maio de 2014

praça xv

os skatistas ocupam o largo
antes de derrubarem de vez a perimetral
antes da vinda da família real
antes da barca chegar
ao som da banda de rock com mil delays
malha que ocupa a atmosfera noturna
antes das máquinas da destruição derrubarem de dia
dizendo limpar a paisagem vista
tá quase chegando em frente as barcas
o recado da intransigência
com a boa aceitação eleitoral

quinta-feira, 1 de maio de 2014

um tempo que se foi no poderia ser

engorgitado a escolha
tão orgânica é a resposta
que diz: és tola



mas uma vez optei pelo morto
embrulha as tripas
e corta o sopro



me senti sozinha
procurando o que fazer
no intervalo da esquina



viagens

fiz minha mala e ainda sonho
tô sonhando agora mesmo com o que eu sou deveria havia seria sou sido
um sonho levando malas
malas são sonhos com roupas limpas e sujas
guardadas dentro de sacos para não contaminar
mas também a música que inspira a poesia que chega
lembrando

é possível é possível impossível possível não importa

leões e atmosferas noturnas
daqui e de lá e daí e de onde você está
onde eu estou também tanto faz para a conversa que temos agora

levo espelhos na bagagem
e penas no coração
fazendo cócegas e colorindo a alma

cores e a atmosfera noturna
o céu azul mais limpo
estampando bandeiras e comendo as cartas
com o fogo atmosférico do instante arrebatador

quero você mas mais ainda me quero aqui agora mesmo comigo mesmo eu mesmo

eu suporto estar só nessa viagem
pode vir marchas fúnebres ou vermes na tigela
tenho um lenço branco na mala
que tudo limpa com amor de um bordado de mãe no canto esquerdo
toda cidade pequena lembra a cidade onde tua mãe nasceu

sou eu um monólogo dessa estrada
sou a cordilheira que vejo da janela do meio de transporte mais interno
a fonte do mistério vem do alto das cordilheiras





terça-feira, 29 de abril de 2014

cuidado

tigres, leões, leopardos
mesmo que sem dentes
possuem grandes patas
grandes garras que fazem
um bom estrago

não confie neles completamente
são animais de grande porte

não confie neles completamente
são humanos mãos de morte

pobres animais indefesos
dopados para serem fotografados

pobres humanos sem sossego
a tudo querem dominar

mas não controlam seus próprios sonhos

sábado, 12 de abril de 2014

quarta-feira, 9 de abril de 2014

vestidos

escolheu a fazenda
no vai e vem
na rua grande

o tamanho do meu corpo
sabe de cor

flores, pássaros
meu corte
gravado na cabeça

seu corpo, sua prova
de destreza e vitória

quando fores
ou eu não caber mais
os vestidos relíquias
contarão sua história

quando flores e pássaros
botões e rendas e cores
retalhos
eu ficarei

domingo, 6 de abril de 2014

vida assegurada

a morbidez do seguro de vida
a vida assegurada
por um banco

vida corrida
bancos com tapumes
o petróleo é nosso
gari eu te amo
crise em fukushima
do eike
fogo na lata de lixo
lixo no aterro
presos políticos em bangu
tropas de guerra
ditos pacificadores
tsunami chegando
evangélicos histéricos
céticos iludidos

a morbidez da vida assegurada
pelos homens
ditos pacificadores

dominical

as notas do piano do vizinho
acenderam em mim notas de uma nostalgia antecipada

sei que vou embora daqui
e que tudo é um tanto apego
e que o sol intenso neste domingo
dificulta abrir os olhos
e nos permite sombras profundas

ao mesmo tempo
lembro dela com o toque suave de sua pele
para sempre infantil
eu a amo e apesar de tanto sol
tudo me vem um tanto triste
mesmo sem doer


quinta-feira, 6 de março de 2014

banhistas verão paquetá

no lixo lavado na Baía de Guanabara
copos de guaravita
recipientes de limpeza
de detergente e de sabão

os banhistas chegaram cedo
agora fedem na estação

cancros e algarismos do tempo

o último algarismo do ano último
que por força do hábito insiste
em aparecer
resiste
o passado novo


todos guardamos na pele
a memória do câncer 
que só saberemos depois 
de passadas algumas décadas

cancros provocados 
por itens de beleza
por remédios
pelos sorrisos não dados

saberemos quando velhos
ou antes disso
no tarde demais

era cedo demais
ela era tão linda
com seu vestido e batom vermelhos


banzo

é possível estar lá e cá
não, alguns dizem
apenas um espaço é possível
de uma só vez

outros dizem, sim
por que não?
se o espaço sou eu
eu carrego o espaço comigo

e isso eu digo, é o banzo
é estar lá e cá
sem nenhum conflito ou
ser o próprio conflito

no aqui a lembrança é insular
e no lá também é
por uma fina passagem
estreito dos mosquitos
passagem entre praias
entre gritos entre mitos
rastros coloniais
do que sonhamos ter sido
franceses ou tamoios
vivido não vivido
o vento equatorial
assanhando em seu zumbido
o sol paralelo à testa
meus miolos franzidos
o raio do som do vizinho
do carro mala aberta
da rua grande alerta
perfurando os ouvidos

banzo é lembrar de tudo isso
sabendo que ainda é
carregando tudo isso

banzo é ser território
longe dele recriá-lo
é ser lembrança
com o tempero que for
a cor que for
quente ou fria

é tentar ser aqui
o que talvez nunca tenhamos sido lá
banzo é um repertencimento
uma reavaliação uma retaliação
que só a distância incita
apenas ela complica
nossos pontos cardeais
que só existem
porque só existe mudança


presente ausente
presente 
lembrança









Azulejos em Paquetá

2012

quarta-feira, 5 de março de 2014

escrita corpórea

tá tudo escrito no meu corpo
minha história e meus erros
minhas quedas no joelho, na canela, no braço, na boca

cai de boca no chão
chorei e perguntei
por que eu?

criança, eu

marcas da borracha do tempo
sem perspectivas
com alternativas
uma história cicatrizada
que insiste em lembrar
quando o esquecimento é limpeza

borrada com marcas celulares me pergunto
quem eu?

células se renovam
nosso corpo que é muitos durante a vida
e talvez apenas em sobrevida
me veja
sem história
com vida

cri ar

é um grito
mas mais que isso
é um sopro
é ar
que ressoa
e chega a quem escuta
ou vê
a obra invisível
nunca escrita
jamais lida


resposta

eu esperei a resposta
vir de Deus
vir do mundo

eu esperei
e a resposta veio

muda
velada
adulterada
criptografada
hackeada

pelo desejo de saber

"pobre coitado"

"pobre coitado"
assim dizemos com pena
mesmo sendo ele
quem mais suporta

sua força
aguenta
deforma
fede
zomba

resiste
nu
preso no porte

antes que o dito forte
consiga retirar de vez sua vida


o toque

a intuição vem dizer
o que deveria fazer

a doença vem dizer
o que não deveria ter feito

ambas dão o toque
com sutileza ou efeito

lembrando que
quando achamos que controlamos
o imprevisível nos detém
mordisca nossas entranhas
pelo necrotério do turismo
a paisagem vira cifra
a beleza lixo
os pobres mortos
os mortos esquecidos
nos monumentos estilizados

tenho fome de espaçar da mordaça

sim, mucunã

mato perguntas negativas
com um sim

sim
sim
sim

mucunã
abre em mim
triângulo pandeiro violão

semente amuleto
da serra do sertão