o que é isso
no seu da sua boca?
um osso
minha estrutura
óssea
epifania
o que é isso que eu não percebo
até eu perceber
a chuva que chega
na dor do joelho
quinta-feira, 26 de janeiro de 2012
domingo, 22 de janeiro de 2012
quando me sinto fora do espaço
quando passo pela lapa
olhando de longe a arrumação
uma ou outra confusão
me sinto olhando de cima da árvore
jogando gravetos e granadas
me sinto de fora
portando dinamites
presentes para pessoas
figurinos e figurinhas
carnes expostas
carnecartaz
leio o valor de longe
de dentro de uma câmera escura
estou portando dinamites!
quando passo pela lapa
olhando de longe a arrumação
uma ou outra confusão
me sinto olhando de cima da árvore
jogando gravetos e granadas
me sinto de fora
portando dinamites
presentes para pessoas
figurinos e figurinhas
carnes expostas
carnecartaz
leio o valor de longe
de dentro de uma câmera escura
estou portando dinamites!
Paquetá
na passagem, a chuva
bicicleta voltas
curvas turvas
casas escuras
de cem anos ou mais
habitadas ou co-habitadas ou re-habitadas
tralhas no jardim de veraneio
primeira chuva do ano lava tudo
virando lama respingada
podendo escorregar ou mesmo cair
a baía de guanabara
no seu interior saturado
uma água marrom
uma areia preta
uma espuma safa
plataformas de petróleo
na vista deslumbrada
como seria há tantos anos
lá é o cemitério de pássaros
bicicleta voltas
curvas turvas
casas escuras
de cem anos ou mais
habitadas ou co-habitadas ou re-habitadas
tralhas no jardim de veraneio
primeira chuva do ano lava tudo
virando lama respingada
podendo escorregar ou mesmo cair
a baía de guanabara
no seu interior saturado
uma água marrom
uma areia preta
uma espuma safa
plataformas de petróleo
na vista deslumbrada
como seria há tantos anos
lá é o cemitério de pássaros
Ilha de Paquetá
2012
segunda-feira, 2 de janeiro de 2012
sábado, 24 de dezembro de 2011
sexta-feira, 23 de dezembro de 2011
domingo, 18 de dezembro de 2011
não é meu não é meu não é meu não é meu não é meu não é meu não é meu não é meu não é meu não é meu não é meu não é meu não é meu não é meu não é meu não é meu não é meu não é meu não é meu não é meu não é meu não é meu não é meu não é meu não é meu não é meu não é meu não é meu não é meu não é meu não é meu não é meu não é meu não é meu não é meu não é meu não é meu não é meu não é meu não é meu não é meu não é meu não é meu não é meu não é meu não é meu não é meu não é meu não é meu não é meu não é meu não é meu não é meu não é meu não é meu não é meu não é meu não é meu não é meu não é meu não é meu não é meu não é meu não é meu não é meu não é meu não é meu
notas de dezembro
orientamo-nos aos arquivos
tristes pelo o que não fomos
este ano está acabando
e não deu tempo de usar
nosso próprio arquivo
infinito, bons e maus vizinhos
abacaxi mel, banho de cheiro
reza pra garganta e pro pescoço
frouxos pelo que achamos
que deveríamos ser
neste ano não temos mais dias
suficientes para realizar nada
só confraternizações
perdemos sete dias
e nove noites
com seus intervalos de memória
ativados em lapsos melancólicos
que dá vontade de rir
dá vontade de fugir
mas não há quilombo
nem exílio, nem deserto, nem mar
assim são os dias quando o fogo chega
nos sonhos
incendiando festas
com suas pessoas
no circo foram mortos, feridos e mutilados
no trânsito, um homem ainda se mexe
de sangue rodeado
sobrevive, por quanto tempo
eis a época da natividade
da realidade reduzida à linguagem
tristes pelo o que não fomos
este ano está acabando
e não deu tempo de usar
nosso próprio arquivo
infinito, bons e maus vizinhos
abacaxi mel, banho de cheiro
reza pra garganta e pro pescoço
frouxos pelo que achamos
que deveríamos ser
neste ano não temos mais dias
suficientes para realizar nada
só confraternizações
perdemos sete dias
e nove noites
com seus intervalos de memória
ativados em lapsos melancólicos
que dá vontade de rir
dá vontade de fugir
mas não há quilombo
nem exílio, nem deserto, nem mar
assim são os dias quando o fogo chega
nos sonhos
incendiando festas
com suas pessoas
no circo foram mortos, feridos e mutilados
no trânsito, um homem ainda se mexe
de sangue rodeado
sobrevive, por quanto tempo
eis a época da natividade
da realidade reduzida à linguagem
quinta-feira, 15 de dezembro de 2011
domingo, 11 de dezembro de 2011
chegando e indo
o mestre morre
ficam os discípulos
indo e chegando
cada um com seu cadinho
ora perdidos, ora atentos
às vezes descontentes
com o caminho
com o destino
nem se lembram mais do mestre
como era a sua face
mas vão seguindo
autodidatas
às vezes de araque
uns transparentes
outros translúcidos
uns pela frente
outros pelo fundo
nada se esgota
mais na frente tem outra
árvore
| não cantamos tudo hoje
deixa o resto pra amanhã
se quebrar tudo hoje
amanhã nada quebra |
o mestre morre
ficam os discípulos
indo e chegando
cada um com seu cadinho
ora perdidos, ora atentos
às vezes descontentes
com o caminho
com o destino
nem se lembram mais do mestre
como era a sua face
mas vão seguindo
autodidatas
às vezes de araque
uns transparentes
outros translúcidos
uns pela frente
outros pelo fundo
nada se esgota
mais na frente tem outra
árvore
| não cantamos tudo hoje
deixa o resto pra amanhã
se quebrar tudo hoje
amanhã nada quebra |
sábado, 26 de novembro de 2011
caolho
só o que eu vejo agora
posso ver
tenho olhos
pequenos e grandes ao mesmo tempo
só posso fazer com o que eu tenho
em mãos
olhos esmagando
o futuro
por vir
aqui ou lá acolá oxalá
tenho olhos
e vejo o que eu posso dizer
constatei e vi
verei
posso ver
tenho olhos
pequenos e grandes ao mesmo tempo
só posso fazer com o que eu tenho
em mãos
olhos esmagando
o futuro
por vir
aqui ou lá acolá oxalá
tenho olhos
e vejo o que eu posso dizer
constatei e vi
verei
rua fria, paço, rua, passo
cidades distantes uma das outras
cidades imaginárias
maestras de vidas
conjunto de obras
e desovas pelas cidades
intempéries e fome
luzes de natal
soberbas do consumo humano
burro, fútil
hidrelétrica para alimentar
ruas célebres de fartura
onde morrem poucos ou muitos mendigos
rugas do rosto tão triste do vendedor
que te esmola
que diz ter vindo de bem longe
longe é o seu lugar
esmolas, vários pedintes
seus moradores e seus proprietários
como fogo
pede água
está tudo aberto
como um assobio que vem do vizinho
uma cidade vai se abrir
debaixo do mar
no topo da montanha
o assobio venta sozinho
cidades imaginárias
maestras de vidas
conjunto de obras
e desovas pelas cidades
intempéries e fome
luzes de natal
soberbas do consumo humano
burro, fútil
hidrelétrica para alimentar
ruas célebres de fartura
onde morrem poucos ou muitos mendigos
rugas do rosto tão triste do vendedor
que te esmola
que diz ter vindo de bem longe
longe é o seu lugar
esmolas, vários pedintes
seus moradores e seus proprietários
como fogo
pede água
está tudo aberto
como um assobio que vem do vizinho
uma cidade vai se abrir
debaixo do mar
no topo da montanha
o assobio venta sozinho
sábado, 12 de novembro de 2011
um beija-flor morre
depois de resgatado
morre e vira madeira
na mão da menina
morre e vira souvenir
no meio da praça
na mão da menina
aflição da erva daninha
(o que remete a esta nota de falecimento)
depois de resgatado
morre e vira madeira
na mão da menina
morre e vira souvenir
no meio da praça
na mão da menina
aflição da erva daninha
(o que remete a esta nota de falecimento)
sexta-feira, 4 de novembro de 2011
Faisão, anum branco
pássaros que andam
desfilam em chamas
primos das salamandras
faíscas do Sol
andam e desfilam
fileiras inteiras
nunca desbotam
refletem e seguem
subindo no mato
que não podemos entrar
seria um portal?
uma cúpula secreta?
chega um, chegam dois, chega o grupo
um atrás do outro e eu os sigo
até onde eu não posso mais
não são humanos
certamente não são bichos
talvez espíritos
fagulhas em penas
andar com eles, andar como um deles
cantos que eu não lembro
uns chamando os outros
convocando para uma mágica
fértil e transparente
luz que entra nas penas
incendeia seus órgãos internos
queima as pupilas de quem vê
o segredo deles
andar para quem sabe voar
faisão, anum branco
desfilam em chamas
primos das salamandras
faíscas do Sol
andam e desfilam
fileiras inteiras
nunca desbotam
refletem e seguem
subindo no mato
que não podemos entrar
seria um portal?
uma cúpula secreta?
chega um, chegam dois, chega o grupo
um atrás do outro e eu os sigo
até onde eu não posso mais
não são humanos
certamente não são bichos
talvez espíritos
fagulhas em penas
andar com eles, andar como um deles
cantos que eu não lembro
uns chamando os outros
convocando para uma mágica
fértil e transparente
luz que entra nas penas
incendeia seus órgãos internos
queima as pupilas de quem vê
o segredo deles
andar para quem sabe voar
faisão, anum branco
quarta-feira, 2 de novembro de 2011
domingo, 23 de outubro de 2011
sexta-feira, 21 de outubro de 2011
ars concionandi
faça o que tenha de ser feito
faça de um certo jeito seu
do seu, com seu corpo
nu
faça logo antes que esqueça
o que é, a sua imagem
eleita
errando
errante
erre
faça de um certo jeito seu
do seu, com seu corpo
nu
faça logo antes que esqueça
o que é, a sua imagem
eleita
errando
errante
erre
segunda-feira, 17 de outubro de 2011
domingo, 16 de outubro de 2011
*
ondina, tsunamis
corpo encolhido
curva da onda
que sai da lua
em uma prancha
e chega a terra
da praia com cubos de carne
vindos do alto mar
que puxa pra dentro
e faz surgir um monstro
que se forma nos recifes
sugam os banhistas para seu ventre
e estes dançam com luzes disco
**
um cachorro no buraco
cavado
uma cama
um buraco
anatômico
Atlântico
***
calçadas beira mar
com ratos e baratas
igrejas e quadras
areia e pés lavados
zumbis atentos
um murinho empenado
e um carimbo no braço escrito
pago
ondina, tsunamis
corpo encolhido
curva da onda
que sai da lua
em uma prancha
e chega a terra
da praia com cubos de carne
vindos do alto mar
que puxa pra dentro
e faz surgir um monstro
que se forma nos recifes
sugam os banhistas para seu ventre
e estes dançam com luzes disco
**
um cachorro no buraco
cavado
uma cama
um buraco
anatômico
Atlântico
***
calçadas beira mar
com ratos e baratas
igrejas e quadras
areia e pés lavados
zumbis atentos
um murinho empenado
e um carimbo no braço escrito
pago
segunda-feira, 3 de outubro de 2011
poesia
quem quer se mostrar
quem vai ficar na sua
nesta situação passante
lorota conversa admita
o que se é talvez nunca foi
não é não é não é não
convença agora mesmo
se guarde na gaveta do tempo
do que é nunca foi será
jamais jamais jamais
quem vai ficar na sua
nesta situação passante
lorota conversa admita
o que se é talvez nunca foi
não é não é não é não
convença agora mesmo
se guarde na gaveta do tempo
do que é nunca foi será
jamais jamais jamais
quarta-feira, 28 de setembro de 2011
erês
pegamos sementes, galhos, mudas de plantas
do jardim, do quintal, do canteiro
pegamos para plantar do nosso lado
para vermos de perto crescer
para lembrarmos do momento
da peraltice jovem
para ela ficar conosco
para sempre jovem
a tez da gargalhada
saindo do esconderijo
de quem brinca
"o segredo de São Cosme
só quem sabe é Damião"
do jardim, do quintal, do canteiro
pegamos para plantar do nosso lado
para vermos de perto crescer
para lembrarmos do momento
da peraltice jovem
para ela ficar conosco
para sempre jovem
a tez da gargalhada
saindo do esconderijo
de quem brinca
"o segredo de São Cosme
só quem sabe é Damião"
segunda-feira, 26 de setembro de 2011
terça-feira, 20 de setembro de 2011
frágil
de tanto andar
em cima de ovos
virei uma casca
frígida e fosca
minha mão
algo de osteoporose
frágil
a beleza da seda
feita de insetos
insignificantes
em cima de ovos
virei uma casca
frígida e fosca
minha mão
algo de osteoporose
frágil
a beleza da seda
feita de insetos
insignificantes
nota de falecimento
boca aberta
vôo fuga
corpo mole
corpo duro
cadê você?
que estava aqui
logo agora?
cadê você
que está na minha mão?
ter a morte
em mãos
uma dura ação
sem tempo
pro luto
ai.
vôo fuga
corpo mole
corpo duro
cadê você?
que estava aqui
logo agora?
cadê você
que está na minha mão?
ter a morte
em mãos
uma dura ação
sem tempo
pro luto
ai.
domingo, 18 de setembro de 2011
hermenêutica do artista
tanto tempo para pouca coisa
tempo coisa automatizada
tanto tempo que nada
de nada pra nada tempo
o especialista sentado em seu ofício
domina o seu
tempo
o generalista tem braços longos
pontas de dedos mágicas
segura ovos de pássaros
e filhotes perdidos
não há pausa quando tudo é
saber fazer
quando acaba
tempo coisa automatizada
tanto tempo que nada
de nada pra nada tempo
o especialista sentado em seu ofício
domina o seu
tempo
o generalista tem braços longos
pontas de dedos mágicas
segura ovos de pássaros
e filhotes perdidos
não há pausa quando tudo é
saber fazer
quando acaba
quarta-feira, 14 de setembro de 2011
domingo, 11 de setembro de 2011
búfalos cachorros
por algum lugar vamos passando
entre as cercas de arame farpado
vereda rasgando em fiapos
nossa estampa pintada à máquina
folhas de bananeira dos dois lados
juntam-se em um teto verde translúcido
neste teto por onde o meio dia chega
meio dia hora do claro
carro de boi de cachorro de búfalo
passa por ali na percussão da carroça
um boi um búfalo um cachorro afetuoso
um animal com pressa não destrói toda a horta
a folha da bananeira tem um verde de revolta
por algum lugar vamos passando
entre as cercas de arame farpado
vereda rasgando em fiapos
nossa estampa pintada à máquina
folhas de bananeira dos dois lados
juntam-se em um teto verde translúcido
neste teto por onde o meio dia chega
meio dia hora do claro
carro de boi de cachorro de búfalo
passa por ali na percussão da carroça
um boi um búfalo um cachorro afetuoso
um animal com pressa não destrói toda a horta
a folha da bananeira tem um verde de revolta
domingo, 4 de setembro de 2011
Mercúrio
peixe nadando em suas costelas
pantáculo de mercúrio bem próximo ao Sol
bem próximos, porém dois astros
corpos, rotações que se encostam
quando meu pé bate no seu
alguns se espantam, outros riem
das suas considerações
sobre bichos, planetas, movimentos
há um bicho que não se esconde em você
companheiro e atento aos ciclos
a outros bichos, arca de Noé
assim você recupera sem estraçalhar
pantáculo de mercúrio bem próximo ao Sol
bem próximos, porém dois astros
corpos, rotações que se encostam
quando meu pé bate no seu
alguns se espantam, outros riem
das suas considerações
sobre bichos, planetas, movimentos
há um bicho que não se esconde em você
companheiro e atento aos ciclos
a outros bichos, arca de Noé
assim você recupera sem estraçalhar
sexta-feira, 2 de setembro de 2011
Canal Maracanã
O rio, hoje canal, Maracanã, no Rio de Janeiro.
As fotos fazem parte de um ensaio-mapeamento deste fluxo até o Canal do Mangue. Tudo começou com uma foto do Marc Ferrez, que me levou escrever uma poesia. Agora vou seguindo a água-esgoto com fotos, sem reclamar do mau cheiro no percurso, mas imaginando que tudo poderia ser um caminho bem agradável como aquele do começo do século passado. A sombra das árvores que restam confortam, de alguma forma.
Na sombra da quinta imagem, eu, Bruno Barata e o argentino Pablo que desceu do ônibus só para trocar uma ideia conosco.
segunda-feira, 29 de agosto de 2011
não existe diferença
alguma ou nenhuma
diferença entre esses dias
e os próximos que virão
só uma temperatura que se eleva
algo que chegou
e talvez vou esquecer
se não aprender outra vez
verão, a temperatura
antes a primavera
pela janela do ônibus
avisto os primeiros
abricós de macaco
que florescem no rio
alguma ou nenhuma
diferença entre esses dias
e os próximos que virão
só uma temperatura que se eleva
algo que chegou
e talvez vou esquecer
se não aprender outra vez
verão, a temperatura
antes a primavera
pela janela do ônibus
avisto os primeiros
abricós de macaco
que florescem no rio
sexta-feira, 26 de agosto de 2011
segura segura não deixa a peteca cair
não deixa a moeda cair
não deixa a lágrima cair
o riso sair em algum outro momento
inesperado o ataque e o conflito
diz se é assim mesmo que se disse
se a promessa sai
arremessada no mundo
o plano, o mapa, o canal
está lá escorrendo pela cidade
nublada de vez
soterrada talvez
formigas passeando achando que tá morta
de qual cidade estou falando
esta do trompete e do trombone
uma corneta sátira de quem ri
não deixa a moeda cair
não deixa a lágrima cair
o riso sair em algum outro momento
inesperado o ataque e o conflito
diz se é assim mesmo que se disse
se a promessa sai
arremessada no mundo
o plano, o mapa, o canal
está lá escorrendo pela cidade
nublada de vez
soterrada talvez
formigas passeando achando que tá morta
de qual cidade estou falando
esta do trompete e do trombone
uma corneta sátira de quem ri
sexta-feira, 19 de agosto de 2011
Walter Benjamin
Três imagens
A fotografia (feita por Gisèle Freund), que queria passar intencionalmente pela pose todo o peso do corpo que não se sustenta, precisando da própria mão para apoiá-lo; o semelhante anjo de Dürer; e uma ilustração do corcundinha, personagem da literatura infantil alemã que passa a sensação de azar e intriga, e pelo qual Benjamin sentia-se (metaforicamente) perseguido.
A fotografia (feita por Gisèle Freund), que queria passar intencionalmente pela pose todo o peso do corpo que não se sustenta, precisando da própria mão para apoiá-lo; o semelhante anjo de Dürer; e uma ilustração do corcundinha, personagem da literatura infantil alemã que passa a sensação de azar e intriga, e pelo qual Benjamin sentia-se (metaforicamente) perseguido.
domingo, 14 de agosto de 2011
poemas do dia dos Pais
você que saiu para fazer cobranças
na Fortuna do Maranhão
saiba que eu estou te olhando
sentada no teu lado
me cutuque
*
Jeová
meu
pai
**
lugares tela paisagem
janela da camionete
abre o morcego, fecha o morcego
insetos batem no pára-brisa
nós escutamos Roberto Carlos e orações
eu falava das minhas lições de história
você contava a História da vida
sua, nossa, de todos os nossos
cemitérios na estrada
na direção do nascer e pôr do sol
pequenas montanhas, babaçuais
queria que dormíssemos ali um dia
inteiro de vida
queria ter agora em mãos
nosso álbum de retratos
com você ao nosso lado
***
sou o que sou o que
era menina
indo te buscar no seu telefonema
de um telefone que nem era nosso
eu ia te chamar, sonava
para a gente ir jantar em casa
foi minha mãe que mandou
e eu que fui porque quis
te encontrar
na Fortuna do Maranhão
saiba que eu estou te olhando
sentada no teu lado
me cutuque
*
Jeová
meu
pai
**
lugares tela paisagem
janela da camionete
abre o morcego, fecha o morcego
insetos batem no pára-brisa
nós escutamos Roberto Carlos e orações
eu falava das minhas lições de história
você contava a História da vida
sua, nossa, de todos os nossos
cemitérios na estrada
na direção do nascer e pôr do sol
pequenas montanhas, babaçuais
queria que dormíssemos ali um dia
inteiro de vida
queria ter agora em mãos
nosso álbum de retratos
com você ao nosso lado
Maranhão, 2010
***
sou o que sou o que
era menina
indo te buscar no seu telefonema
de um telefone que nem era nosso
eu ia te chamar, sonava
para a gente ir jantar em casa
foi minha mãe que mandou
e eu que fui porque quis
te encontrar
quarta-feira, 3 de agosto de 2011
olhando para os fatos
vejo neles algumas cores imperceptíveis
manifestas na expressão de um ato inaudível
naquele monte de folhas
a terra fria e úmida esconde quem se foi
o rio que passou naquele lugar
guardião de tempos concomitantes
aqui ou aí
estou só
às vezes expandindo em alguma interação
outras observando pela clausura da câmera escura
as plantas já cresceram
mas estão sendo cuidadas
os filhos também
e estão sendo soltos
aos poucos
o mato entremeia o que presta
e o que não presta
a sesta antecipa a noite
e acorda a tarde
a volta traz só lembranças
a volta traz
só
lembranças
até mais tarde
vejo neles algumas cores imperceptíveis
manifestas na expressão de um ato inaudível
naquele monte de folhas
a terra fria e úmida esconde quem se foi
o rio que passou naquele lugar
guardião de tempos concomitantes
aqui ou aí
estou só
às vezes expandindo em alguma interação
outras observando pela clausura da câmera escura
as plantas já cresceram
mas estão sendo cuidadas
os filhos também
e estão sendo soltos
aos poucos
o mato entremeia o que presta
e o que não presta
a sesta antecipa a noite
e acorda a tarde
a volta traz só lembranças
a volta traz
só
lembranças
até mais tarde
segunda-feira, 18 de julho de 2011
um lote de afetos embalados a vácuo
mas vácuo não existe nem no espaço
esquecimento faz parte
espaço, sua medida, a experiência
a paciência já se foi
desde as aulas de caligrafia
desde as missas e suas homilias
lorotas e previsões políticas
e veja bem, um cristo escandaliza na sala
fora dos parâmetros do exótico
orixás e caboclos parecem mais em voga
camisetas, chaveiros e nomes de escola
assim é o encantamento calado
responder pra quê
o seu chamado
se só estou
escutando o eco que percorre há anos
em órbitas interpelantes
cantos de sereia
assovio de jibóia
lógicas saíram de moda
encante-se
deitado no conforto
mas vácuo não existe nem no espaço
esquecimento faz parte
espaço, sua medida, a experiência
a paciência já se foi
desde as aulas de caligrafia
desde as missas e suas homilias
lorotas e previsões políticas
e veja bem, um cristo escandaliza na sala
fora dos parâmetros do exótico
orixás e caboclos parecem mais em voga
camisetas, chaveiros e nomes de escola
assim é o encantamento calado
responder pra quê
o seu chamado
se só estou
escutando o eco que percorre há anos
em órbitas interpelantes
cantos de sereia
assovio de jibóia
lógicas saíram de moda
encante-se
deitado no conforto
domingo, 10 de julho de 2011
se não tem, faça
frio no rio
de janeiro
de julho
de dois mil e onze
anos depois
novelos caídos marcando o espaço
frio de ombros doídos
de se encolher em cansaço
nenhum exagero
algo de horas poucas
e num súbito intervalo de três horas
o calor do quarto grau abaixo do Equador
devora as expressões
de mamando a caducando
outras ruas, outras rugas
espaço por onde se passa
se não tem, faça
presságio
de janeiro
de julho
de dois mil e onze
anos depois
novelos caídos marcando o espaço
frio de ombros doídos
de se encolher em cansaço
nenhum exagero
algo de horas poucas
e num súbito intervalo de três horas
o calor do quarto grau abaixo do Equador
devora as expressões
de mamando a caducando
outras ruas, outras rugas
espaço por onde se passa
se não tem, faça
presságio
quinta-feira, 7 de julho de 2011
excelência
sentindo umas vontades estranhas
pintar os olhos de preto e sair na guerra do mundo
pintar o preto dos olhos e sair com um soco ecoando
olhos pretos, pálpebra preta, roxa, levamos socos nas ruas
ocas de inércia perdida de alguém, em potência
perdida alguém, eu sou eu, não sou
vendo me vendo, não me vendo, não me vendo
pego meu barco, eu parto no meio do mundo
no meio do mar, do cais da praia que sonho toda noite
no fundo da onda vem chegando lá de longe
nosso veraneio acabou nessa cabana de madeira
com maribondos nos cantos, me farto a comê-los
quero ver quem manda aqui
pintar os olhos de preto e sair na guerra do mundo
pintar o preto dos olhos e sair com um soco ecoando
olhos pretos, pálpebra preta, roxa, levamos socos nas ruas
ocas de inércia perdida de alguém, em potência
perdida alguém, eu sou eu, não sou
vendo me vendo, não me vendo, não me vendo
pego meu barco, eu parto no meio do mundo
no meio do mar, do cais da praia que sonho toda noite
no fundo da onda vem chegando lá de longe
nosso veraneio acabou nessa cabana de madeira
com maribondos nos cantos, me farto a comê-los
quero ver quem manda aqui
segunda-feira, 27 de junho de 2011
num acidente de carro
morreu um sonho na segunda
Adão, seu nome é
solo cultivável
e a terra é uma mulher receptiva
um útero fértil, mas não
o sangue desceu, passou pelas engrenagens
do carro obsoleto
corpo morreu, alguém, neste momento
acho que senti aqui
a morte de um plano
fechado no espaço
a morte é sempre um embaraço
morremos em fins de tarde
nas segundas-feiras
nos fins de férias
na emanação de passados
a morte é o verdadeiro tabu
como somos bobos
morreu um sonho na segunda
Adão, seu nome é
solo cultivável
e a terra é uma mulher receptiva
um útero fértil, mas não
o sangue desceu, passou pelas engrenagens
do carro obsoleto
corpo morreu, alguém, neste momento
acho que senti aqui
a morte de um plano
fechado no espaço
a morte é sempre um embaraço
morremos em fins de tarde
nas segundas-feiras
nos fins de férias
na emanação de passados
a morte é o verdadeiro tabu
como somos bobos
domingo, 19 de junho de 2011
No iso da noite
você tem espinhos de tucum na barba
eu na ponta dos dedos
fecho os olhos e vejo
mil pontas
eriçadas no iso da noite
nas asas de algum mito
neguinho já chega aloprando
daí ele deixa os dedos inchados
e a mente futucada
remosa
ninguém escapa da sua ponta
quem fala leva
espinho na língua
poucos fazem como tu
tucum
eu na ponta dos dedos
fecho os olhos e vejo
mil pontas
eriçadas no iso da noite
nas asas de algum mito
neguinho já chega aloprando
daí ele deixa os dedos inchados
e a mente futucada
remosa
ninguém escapa da sua ponta
quem fala leva
espinho na língua
poucos fazem como tu
tucum
mensagem antiga
saíram pela porta, andando pro domingo
com pouca bagagem, nada nas costas
eu os vi partindo de longe, estático
raízes nascendo dos pés, por necessidade
o centro
é um caminho
já foi dia santo, hoje é domingo
já conversamos de tudo
você é bem diferente de mim
eu bem diferente de todos, iguais
trocadilho velho, regravado
em pedras imateriais, zerodimensão
ela nem me reconheceu,
é assim mesmo
somos para nós
com pouca bagagem, nada nas costas
eu os vi partindo de longe, estático
raízes nascendo dos pés, por necessidade
o centro
é um caminho
já foi dia santo, hoje é domingo
já conversamos de tudo
você é bem diferente de mim
eu bem diferente de todos, iguais
trocadilho velho, regravado
em pedras imateriais, zerodimensão
ela nem me reconheceu,
é assim mesmo
somos para nós
quarta-feira, 15 de junho de 2011
O negativo da Lua
dia chega ao fim com alguns nãos
o eclipse no céu
não arrebatou tanta gente assim
na praça
fim de dia, as pessoas voam
quase entrechocando-se
às vezes até acontece
e se não fosse seu torpedo
seu dedo apontando
nem eu mesmo teria olho
mas bem que achei estranho
aquela nuvem forçosa
mancha gasosa e mansa
aqueles passos ligeiros
na calçada ecoando
eu parei
era uma sombra projetada
na cara da lua
na minha cara
recebo os nãos em fins de tarde
ligo o foda-se destilado
nessa noite bofeteada
nãos aos planos corridos
por vacilos e enganos
nãos celebram a glória
do que teria sido
nãos seguram as mãos
dos que os pronunciam
nãos, assim, que me tocam
alguns, outros nãos
o eclipse no céu
não arrebatou tanta gente assim
na praça
fim de dia, as pessoas voam
quase entrechocando-se
às vezes até acontece
e se não fosse seu torpedo
seu dedo apontando
nem eu mesmo teria olho
mas bem que achei estranho
aquela nuvem forçosa
mancha gasosa e mansa
aqueles passos ligeiros
na calçada ecoando
eu parei
era uma sombra projetada
na cara da lua
na minha cara
recebo os nãos em fins de tarde
ligo o foda-se destilado
nessa noite bofeteada
nãos aos planos corridos
por vacilos e enganos
nãos celebram a glória
do que teria sido
nãos seguram as mãos
dos que os pronunciam
nãos, assim, que me tocam
alguns, outros nãos
sexta-feira, 10 de junho de 2011
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