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quinta-feira, 5 de junho de 2025

pixelada paisagem

nas telas
quais imagens imaginar

quais

desejo
 
sem que se perceba
engano

antes de ser vista por muitas imagens

antecipação

quem olha primeiro dentro do mato
leva vantagem

devora quem tem estômago
devorado é quem se abandona

nas rubras têmporas do tempo
pixelada paisagem


sábado, 6 de julho de 2024

respeitar os sinais

senti-me completamente sem chão
quando não me lembrei dos sonhos das noites anteriores
ainda que me perseguissem 
com vago sabor de mensagens 
escritas com letras que não existem
por punhos não alfabetizados

mesmo sem pretensão de decifrar 
aguardo suas advertências 
advindas dos rincões da alma
fazendo-se perceber por tiras de expectativas
que balançam ao vento da calma
nas fronhas, na cama
nas conversas emotivas do amanhecer

converso com quem escreve a trama
e lhe digo: te aguardo chegar esta noite 


terça-feira, 2 de janeiro de 2024

veredas

não há estranhamento que resista 
ao longo caminho percorrido
tantas vezes escorrido
no vem e vai das veredas
esburacadas e com curvas íngremes
que nos levam até nosso querer

o que parecia tão longe
vem ficando bem pertinho
a volta que é sempre mais curta
ainda que feita devagarinho

já vimos aquela palmeira sorrindo
antes de vir 
ver 
de novo
nosso inconsútil regresso ao ninho

segunda-feira, 5 de junho de 2023

lua avista

lua redonda sobe 
enquadrada pela janela sem grade

antes de sumir pela brecha
conta histórias de todos os povos descalços
que a fitaram de um modo puro
sem intermediários
sem mídias nem destinatários

transferência de ondas luminosas 
de mensagens oraculares
testemunha ocular de todas as eras

é a lua quem nos vê


segunda-feira, 23 de agosto de 2021

tônicas lunares

tônicas resgatadas
na fragrância da lua das águas cheias

misturamos tudo numa só narrativa
quando há meandros dotados de mistérios próprios

dos sons que jamais ouviremos in loco
pois estão muito longe
na digressão de mergulhos oceânicos
e de ventos altos soberanos

que chegam nesses dias 
balançando palmeiras e bambus
varrendo telhados

são as estórias contadas por eles
que ouvimos das sacadas de nossas varandas internas
que ressecam e purificam nossos globos oculares
que convocam aqueles que dormem cedo
para sonhar
e restaurar alguma integridade


quinta-feira, 11 de fevereiro de 2021

presságios

todos os presságios estão destinados
a nos entregar de bandeja 
nossa liberdade

o que passa diante de nós
cresce rápido e decresce igualmente
vã nossa indisciplina pueril
revelada em cada gesto demasiado
sutil, sem dúvidas, dissimulado

ao sabor das horas há vícios ocultos e manifestos
há também
as mudanças instaladas nos códigos das células

relutei por tanto tempo ver
as marcas tão de perto
das mãos, da face, dos dentes, da mente

daí vi a mulher que jardinava entre vasos brancos
a vista daquele lugar panorâmico

é tão preciosa a experiência 
que é preciso salvá-la a cada segundo


sábado, 12 de setembro de 2020

Astrônomo de jardim

astrônomo de jardim
olha a estrela esmaecer no céu matutino
desafiando o Sol com ternura e desatino
contempla o planeta da beleza guiando destinos

quer ver até que horas pode ver
no claro firmamento equatorial
Sol que torra peles e retinas
experimento sensorial
para quem se ilumina

faz-se criança outra vez para crescer
nos detalhes vê Deus que se aproxima
minúsculos seres dos três reinos escrutina

e a estrela observa sorrindo
por trás dos ares da claridade infinita



quinta-feira, 3 de setembro de 2020

redondezas

redondezas 
e não
arredores

quem gira ao redor da fonte
e não bebe a água?

há quem morre de sede

quem definha 
quem se automutila
quem se sabota

eu já vivi tudo isso e posso dizer 
a mim mesma
o que clareia a pupila 
e o que a embota



quarta-feira, 13 de novembro de 2019

EQM

poderíamos morrer mil vezes
se junts estivéssemos
nas notas das canções
nos gestos, nas ações
e se temos medo da morte, ainda
é que não aprendemos as lições

estas já temos, a catástrofe não foi dada
a realidade nos chama a praticar
e o medo acompanha a fraqueza

ainda há um apelo, clemência
inocência
fazemo-nos crianças outra vez
porque não há outro modo de pedir
aquilo que de nós independe

talvez

luminosa esperança da criança
que espera sua hora pra nascer
quando puder respirar o prana
aqui fora, já somos outrs




quinta-feira, 23 de junho de 2016

goteiras

vento frio lá de longe
vem chegando um tempo escuro
corremos para fechar janelas
tirar roupas do varal
mover aquilo que intencionávamos livrar do mofo alastrado
fechamos tudo, com ou sem aval do tempo
nos fechamos
e mesmo tendo trancado
o porvir despencou sobre os telhados
infiltrou pelas paredes
transpassou o forro
gotejou sobre nossos objetos de apreço

corremos agora para dar conta das goteiras
que nos surpreende sempre em um novo lugar
dentro de nós
escorre gotas carregando a sujeira do telhado
diluindo o excremento de morcegos e pombos que moram lá
e mesmo sem vê-los
aspiramos suas imundas presenças

dentro de nós há um mofo intruso
onde está aquilo que abandonamos


sábado, 30 de abril de 2016

a cara do medo

eu vi a morte no teu rosto
nela
reconheci muitas imagens
fotos, quadros, afrescos, frames
nela
reconheci a cara da medo
sobreposta na face usurpada



peligro
 2016


terça-feira, 22 de setembro de 2015

imago trama

manobras suaves das imagens
jogar com elas
como lugar possível da experiência
talvez o único
enfrentamento possível às forças cruéis

não é possível que seja o que sobra a nós
sobre nós
não é possível que não faça nenhum efeito
não é possível mas é possível
na imagem

sábado, 5 de setembro de 2015

ainda

ainda somos pelo o que passamos
ainda podemos voltar na casa vazia
pra despedida dos animais e das plantas

eram a nossa companhia de todos os dias
quando dormíamos
faziam vigília

e ainda fazem
mesmo sem ninguém por lá

não suportamos ver o abandono
reconhecer apenas detalhes
que não interessaram a ninguém
ficaram como lâminas pra nossa sensibilidade frágil

animais e plantas não se importam tanto
mas compreendem que fomos
e que talvez não voltemos mais

ainda que tenhamos lembranças
estômagos embrulham sorrisos perdidos
miados quando abríamos a porta pela manhã
gritos inaudíveis nos cômodos em desuso

quinta-feira, 4 de junho de 2015

AzulPedraMar

cobrir pedras
saio pela orla
deixando marcas expressivas na memória

lenço
saia
marcando um território
construído em lugar nenhum
construir um além lugar
AzulPedraMar

∞

onde está a sereia?
vestir uma pedra
para trazê-la de vota
para instaurar o movimento
da imagem imemorial

∞

de que cor era a baía?
acho que nunca foi azul
talvez esverdeada ou quase marrom
talvez avermelhada de rio

mas o mar é azul
e assim desejam os turistas veranistas
e seu imaginário

∞

cor imprime na água
a marca do que nunca seria
será?

∞


solve et coagula

esgoto desgosto
azul dejeto
do homem
mulher ventre água
poluída humanidade
descabida sem idade
para voltar
o que já foi um dia
alquímica fórmula ainda não decifrada

∞



segunda-feira, 13 de abril de 2015

falar com borboletas

quero também falar com borboletas
sê-las
sons
ar

broto abrir iridescência
quero sê-las
larva casulo crescente
broto flor iridescência

o que me ensinas
mais do que imaginas

falar com borboletas
contar segredos
escutar silêncios elementais

broto
sempre em movimento
a imagem do ser


quarta-feira, 4 de março de 2015

O monge

rastro  luz, 2014, Cusco


na beira da montanha
o monge molhou-se
com a água do jardim

e saiu correndo
extravasando a energia que havia nele
e mesmo em mim

sua roupa roxa
pintando o caminho
dizia que nada está parado
e que o mistério nodal
dos escritos perdidos no tempo
é o repouso e o movimento

terça-feira, 4 de novembro de 2014

segunda-feira, 19 de maio de 2014

azul pedra mar

lápis-lazúli
azul índigo
azul pedra mar

banho de mar
banho de sal grosso

rachadura azul
geometria do caos
movimento das marés



domingo, 18 de maio de 2014

pier

severa nuvem afogada na água turva da baía
sincera água da baía afogada na dimensão mais íngreme

mergulho

poderia eu ter caído na água turva
pra mergulhar na nuvem refletida
se assim fizesse estaria perdida
não haveria pescador nem turista para me salvar

a vizinha dizia que colheria flores para mim
que ficaria bonito na composição do quadro
mas agradeci cordialmente
disse não às flores amarelas do jardim

disse não porque me interessava o azul
que nunca foi nem será
pois não é