segunda-feira, 1 de maio de 2023

do miolo de uma dor profunda
lágrimas jorram e inundam a terra
úmido escuro húmus
dor desgaste fissura

é preciso falar dela
de alto auto tom
nem mal nem bom
perspectivas iluminadas pela lâmpada da sala de exame 

enxame de vespas com veneno 
que nos derruba acidentalmente

não há o que fazer
além de fazer o inadiável

só há esse solo agora para cair 
antes que retornemos a ele

há beleza antes da dor profunda

sábado, 25 de março de 2023

planta suspensa

mesmo com tanta chuva caindo do céu
transbordando galerias

fazendo ver rios soterrados e ressentidos 
da ingratidão dos homens que ali bebiam

e ao mesmo tempo incontroláveis
a lograr seu rumo pressentido

mesmo com raios que tremem paredes e carnes
que abalam nossas estruturas 
e assustam o que seriam noites calmas

vento e tempestade
pulverizando gotas 

mesmo com toda umidade
aquelas plantas suspensas na varanda
aguardam nossa boa vontade

de molhá-las como se molha
uma faceta esquecida 
de nossa integridade


sábado, 21 de janeiro de 2023

velar ano novo

não confundir
abundância com desperdício 
ou futilidade

superando o trauma da escassez
sinto-me a vontade para rever que
abundância não é exagero

ao contrário

é contentamento 
e autorresponsabilidade

abundantemente me resguardo
no velar-me que alumia
o instante no qual transbordo

sábado, 31 de dezembro de 2022

por um triz

flor se abre enfiada na folha
rasga em desabrochar

abelhas trabalham 
na colmeia esculpida
na palha do babaçu
prestes a desabar

por um triz

sobrevivemos sem ferroadas 

pra aguardar o rasgo inteirar



sábado, 24 de dezembro de 2022

dê grau

três lances de escada desabaram
e de baixo olhávamos para o topo
pensando naquelas que por lá passaram

e no vôo que faríamos para subir
sem degrau, sem asa, sem motor

o movimento é de dor
dos músculos enrijecidos

mas o alcance é de outro sabor

no impulso escondido
o prazer do desconhecido

sexta-feira, 23 de dezembro de 2022

profecias infantis

tudo começa com a intenção
de dar uma flor colhida no jardim
e mais uma
e mais uma
até um balaio colorido se formar
servindo-nos de abrigo

quarta-feira, 30 de novembro de 2022

atrás do arbusto

corro no campo aberto
sorriso de criança ambienta o espaço

onça esturra
corro, paro

pausa pra repousar
porque demanda não para

estado alerta cansa, para

sorriso de criança paira no ar delgado

pausa no movimento 
escondido atrás do arbusto

segunda-feira, 16 de maio de 2022

Flor Diana

colheita de flores para um bolo de terra
parabéns pro bode, pro boi, pro brinquedo

objeto de transição 

há muito mais ingredientes
que transbordam o copo da matéria

rumo a outra direção

for do dia
Dia na
tua essência 

onde habita um perfume 
do brincar com o molhado chão 
e com as pétalas que seduzem insetos
para adentrar no estigma irreversível 
do desabrochar


quarta-feira, 11 de maio de 2022

isolar

há uma solidão tão escura
na parada
corpo retorcido 
na árvore mutilada
frio na espinha
na espreita 
na virada

não vem me dizer
que é viagem 
da minha cabeça

só eu sei a percepção
de quem se encontra isolada

quarta-feira, 16 de março de 2022

frenesi

o vazio nos olhos de quem tudo tem

cheios e transbordantes os de quem soube criar

ao longo de anos
a velhice veio em rugas profundas
não para parar o corpo redefinido
reforça o que deixou pro mundo
rumo ao ancestralizar

a dança, a voz e os instrumentos
que me entregam a carta com a descoberta
vinda em sonhos

contados aos anciãos pela manhã

o vigor não mora nos olhos dos mortos ainda em vida

aloja-se nos músculos que mesmo cansados
ainda se jogam no frenesi


terça-feira, 8 de março de 2022

travo trevo

o poder das associações
perigosas e salutares

travo uma batalha
para ser feliz 
e livre

por um instante apenas

flutuante som do perigo que chega

o hibisco que se abre mais tarde
em dias de chuva

a guerra e a paz acontecem 
agora mesmo

folhas caem da planta retirada 
sobre outra planta

é preciso salvá-la

é preciso nos salvar

alquimias envolvem o som do vento 
e a paisagem
e a brasa que resta
queima tanto quanto fogo

sexta-feira, 4 de março de 2022

sequestro

vou contar pra mim mesma
uma história pra eu dormir

buscando a justificativa das minhas escolhas
vou para longe 
e lá não posso me refugiar

por um instante apenas
silencio
esperando ter de volta
meu tempo perdido

já era
agora sou mãe

quarta-feira, 23 de fevereiro de 2022

d(o)a(r)

cuidar é doar
tempo, espaço, presença

tudo foi ocupado
inteira e intensamente
por essa parte de mim 

outro ser

rachando irreversivelmente
a solidez do meu eu

há horas que não gostaria
de ter que me preocupar
de me entregar
à realidade que eu mesma escolhi
depois de muito pensar

mas pensar não é sentir
e a realidade não é plano

procuro uma brecha pra ser
além do ser vir
e logo escuto um choro infantil
que irrompe como um vulcão adormecido 

se vem de dentro ou de fora
ainda preciso descobrir

cuidar é doar, é doer, é sorrir

ambivalência
abnegação 
ação


quarta-feira, 2 de fevereiro de 2022

fora de rota

cabeça presa nos detalhes 
que não saíram 
como se queria

acidentes de percurso
nas mudanças de rota
manchas, oxidações, quebrados

na matéria se perde tempo
no pensar

deixe estar
pra ser ali

há beleza nas alterações

contentamento é o que é preciso

seja qual for a circunstância
decepção, pra quê...

domingo, 30 de janeiro de 2022

casa espiritual

na sala da casa
rodeada de flores
plantas, pássaros e luz

solar

muitas rotações implicadas 
nesse agora
aqui cheguei e o que isso significa

silêncio
a casa é espiritual
tudo acontece do jeito que é

assim é



sábado, 29 de janeiro de 2022

arte de viver

arte de viver
escrito na porta
lembrança da missão
de ser bonita
inteira
entrega
viva
morta
transição
semeada horta
nem sempre brota
vitória
derrota
transformação

tamarineiro

nos abrigamos na tua sombra
da chuva e do Sol

íman de crianças
que buscam pelas frutas no chão

degladiam com gravetos
nobre adversários invisíveis

das frutas podres
brotam pequenas árvores
desenrolando a semente
em pequeno galho
onde anuns poderão pousar

quinta-feira, 27 de janeiro de 2022

poeminha pra Diana

um calorzinho chegando na cama
subindo entre nós

dadá ninho
aconchego e carinho
mamãe fonte
dá água e soninho

doce é sentir
o nascer do dia contigo
a chuvinha caindo
e você relembrando
suas memórias verdinhas
de neném garotinha

"eu lembro, foi de manhã"
você diz

quero sempre lembrar
da preciosidade desses dias

terça-feira, 25 de janeiro de 2022

pra extrair o brilho da terra

águas turvas
pelo minério
nos confins da terra aberta 

de lá não sairia
sem as mãos da ganância

não há paraíso pro turismo 
num mundo onde tudo é transação

um novo recanto paradisíaco será aberto
pra ser também explorado
um novo buraco será aberto 
pra extrair o brilho da terra

re fazer

refazer o que já fora feito
o corte na parede é análogo ao da alma
o chão quebrado é o mesmo solo da existência

uma aspiração de certeza 
é um delírio de potência 

o arco e a flecha foram armados
mas não se sabe mirar
mas não se tem a ergonomia
do corpo que concentra pra ver

refazer o que já fora feito
é uma chance pra mirar

e não se desapontar

di lemas

o cheiro da decomposição
exala pela casa
de vez em quando
ele aparece e some

a mancha da romã
ficou sobre a pedra clara
nova e já marcada pela ocupação

nas vestes antigas
lá também está
nosso desejo de emancipação

é desprendimento
o morto pode ser belo
na iridescência das asas do beija-flor
que dissecou no telhado

16/01/22



quinta-feira, 20 de janeiro de 2022

renascimento

renasci com as folhas que caíram
sobrou uma para contar história
da árvore que fui antes de mim
de vir a ser crepúsculo e memória

da mesma seiva que é folha nova 
e galho aparentemente seco que
ainda guarda o avistar da boa nova

do topo da copa 
folhas se soltam

com minha unha
rasgo daqui de baixo 
a pele do tronco
pra saber se ainda
eu verde 
a fotossíntese


sexta-feira, 14 de janeiro de 2022

segunda-feira, 10 de janeiro de 2022

faz de conta

faz de conta
faz
sem contar            resultados
não mensurar
não dizer
entrega ao

sábado, 8 de janeiro de 2022

almas lavadas

na minha varanda tem
banho de cheiro
escalda pés
toque, cor, escuta, calor

porque preferi convocar 
os aromas da irmandade
a sucumbir em narrativas frias, insípidas e inodoras
do mundo sem rituais de afeto e cuidado

porque me revesti dos melhores envoltórios
compostos pela tessitura 
de fragmentos radiantes
trazidos nas mãos e nas almas lavadas
de benditos seres


quinta-feira, 6 de janeiro de 2022

entrega dos trabalhos

o sopro dos sobreviventes
deve ser resguardado

negacionistas e conspiracionistas
a serviço da morte
junto à ingerência proposital
e ao ódio disseminado
querem suplantar o que nos resta
de poesia e saúde

recolho mais uma vez 
a pedido do comum

pois desejamos juntar os cacos societários
para nos salvar

um dia
dentro da casa nos guardamos
na certeza de que o tufão iria passar

e que entregaremos
nossos trabalhos
com a calmaria da criança que dorme

quarta-feira, 5 de janeiro de 2022

cor da virada

nos cantos da casa
varro o sal grosso derretido
misturado às asas das formigas 
que vieram dançar na virada

junto com a chuva que virou o tempo
nossos ânimos e expectativas
que trouxe um raio, estrondo
para apagar as festas mais animadas

formigas de asas vieram seduzidas pela luz
para morrerem junto ao sal
que limpa os cantos onde se acomodam nossos medos
para de lá brotar a esperança
avistada na cor da virada

terça-feira, 4 de janeiro de 2022

ab negação

o que foi que perdemos
que caiu no chão sem que víssemos
nesse período que abdicamos de nós

quinta-feira, 16 de dezembro de 2021

coreografia

ativação de tantos recantos esquecidos
de prazer
só temos consciência
quando nos entregamos às possibilidades

que nos furtamos

me vi dançando no eixo colorido da conquista

foi tão breve
mas deixou uma coreografia desenhada no chão onde piso

danço

agora busco por esses passos
que criei no momento oportuno
de ser quem sou
em transformação

sexta-feira, 10 de dezembro de 2021

peito aberto

abrir o peito
músculos enrijecidos nas omoplatas
ombros caídos

ao contrário do que se pensa
couraça não é armadura

coragem é peito aberto
pelo qual se pode elevar-se

suspensão

não é possível
que tds mestres 
estejam equivocades 
ao mesmo tempo

domingo, 14 de novembro de 2021

Fata Morgana

desaparecer na mágica de cobrir-se com um pano

cadê?

ver está emaranhado ao crer
os fios transpassados pela memória

ninguém está vendo porque não quer

uma nuvem cobre o Sol e a Lua
miragem no horizonte no mar
acordos tácitos em tratados estreitos
refração da luz

ninguém vê mesmo querendo
porque o mistério só se abre quando bem quer

reflexão da luz
feitiços não são farsas

Fata Morgana

tecido translúcido cobre tua cabeça


difusão da luz

a magia de desaparecer 
cobrindo seus olhos com as próprias mãos

domingo, 7 de novembro de 2021

segunda-feira, 1 de novembro de 2021

penumbra

o que ninguém verá
escondido esconderijo
rígida percepção - de mim - 
sãos abrigos

maleável observação 
do sangue coagulado
dos flácidos mamilos
dos arroxeados na pele
que desaparecem dias depois 
de me autoagredir sem perceber

a escolha pela penumbra
clareia o quarto do fundo da alma


segunda-feira, 11 de outubro de 2021

em paz, só

entre o que vivo 
tem como eu vejo
toca no que eu sinto
pivotam desejos
clareiam instintos
obscurecem segredos

não ditos contam histórias
para que eu possa dormir
em paz, só
só irei rever as perspectivas que deixei
para deixar vir raios dourados entre dedos

domingo, 10 de outubro de 2021

pa rir par to

hoje já vejo com outros olhos
a fantasia ilusória do meu desejo
das projeções

as imagens que deixei trancafiadas
só agora pude acessar

sem medo
não posso dizer
porque fui eu mesma quem as revestiu de uma amálgama de luto e dor  

mas somente elas 
me pertenciam verdadeiramente

o imprevisível foi a única possibilidade

a imperecível recordação
mantém-se transformada
no núcleo incessante da busca
pelo sentido do acontecimento
pa rir par to

terça-feira, 31 de agosto de 2021

obra de veraneio

pegamos a estrada de manhã
atravessamos a distância levando na mala o necessário
palavras ditas nos ouvidos 
músicas entoadas ao som do percurso
pretensões práticas para a chegada
escapismos visuais no decurso
conversas existenciais em conjunto

ora só
chegamos ao jardim da nossa obra de veraneio
como pássaros, nos territorializamos
e ali estamos em toda bem-aventurança

não iremos nos dissuadir
por um dia criado para dizer que é o que diz
não investiremos nenhum segundo nessa pauta ilusória
quem quiser que fique com esse imaginário

ao contrário
sentaremos no jardim para decifrar mensagens
as mais herméticas, as mais superficiais 
escritas nas folhas e nas luzes
enquanto habitamos aos poucos
as bordas do novo existir

segunda-feira, 23 de agosto de 2021

tônicas lunares

tônicas resgatadas
na fragrância da lua das águas cheias

misturamos tudo numa só narrativa
quando há meandros dotados de mistérios próprios

dos sons que jamais ouviremos in loco
pois estão muito longe
na digressão de mergulhos oceânicos
e de ventos altos soberanos

que chegam nesses dias 
balançando palmeiras e bambus
varrendo telhados

são as estórias contadas por eles
que ouvimos das sacadas de nossas varandas internas
que ressecam e purificam nossos globos oculares
que convocam aqueles que dormem cedo
para sonhar
e restaurar alguma integridade


domingo, 25 de julho de 2021

o tal dia fora do tempo

o tal dia fora do tempo
o tao
antigos conhecimentos hoje animados pelo virtual

sei não, cair na real
é tão sensível 
quanto dele se ausentar

não há cavernas de sombras
só um campo aberto com muita luz na cara
que dificulta enxergar

segunda-feira, 12 de julho de 2021

rachadura aberta

é inegável
que regar um solo árido 
não adianta muita coisa

é preciso primeiro virar a terra
para que a água que chega não se perca à toa

e não evapore logo
na rachadura aberta

terça-feira, 15 de junho de 2021

cirurgia espiritual

nos teus braços me entreguei
ao sono de tantas noites
chorei quando não dormias
quando te embalava à toa

eu sei bem que o tempo em trânsito
me atropela quando percebo
que está passando 
que estás crescendo
e que já não mais aguento tanto peso
na minha cicatriz

há nervos machucados
sensível pele em remendo
não há gelo que baste
agendo uma cirurgia espiritual
enquanto me despeço de uma fase

o mundo ao reverso me cobra noites bem dormidas
nelas, tua respiração é suave
mas eu a escuto em qualquer oscilação
e sei também que a minha já escutaste
mais a fundo
no profundo vaso da formação

há um caminho para aquelas
que buscaram coragem na hesitação
e que de lá surgiu
a origem do carma
do darma
do mundo

quarta-feira, 19 de maio de 2021

preventório

há um lugar onde me isolei
onde retorno nos sonhos de ares enfermos
miasma
onde o tempo é nublado
e há uma umidade instalando-se nas frestas desamparadas

no fim da rua sem fim
preventório para as crianças da ilha
onde levei minha criança 

nesta madrugada

direi a ela quem eu me tornei




sexta-feira, 30 de abril de 2021

fim de mês

fim do mês
a tela já foi preenchida
pelo desenho de outrora
pela tinta vermelha dos corpos

o que estou entregando de mim
para os abutres
de bom grado

o que estou entregando de mim
doação

há distância
fiquei
da estética da existência
enquanto nascia outra vez
quão perto fiquei
ao estreitar largas lacunas

túmulos, poço, poças
refletindo céus
lagunas frescas e quentes
do inverno chuvoso sem chuvas

espero que supere logo aquela poda
que tudo isso valha a pena

fim de mês, olho para trás

terça-feira, 27 de abril de 2021

durmo cedo acordo cedo

durmo cedo acordo cedo
rezo pelos mortos antes de dormir
pelos vivos
acordo cedo 
depois de me entregar ao sono

como a terapia possível
a recarga de energia e fabulação

sonho com detalhes desta configuração
mas desperto sem saber o porquê
pois é assim que fazemos conosco
em tempos de clichês
inconscientes dos símbolos

o céu amanheceu lilás
e eu vi só pelo canto da janela
podendo ter adentrado nele inteirinho

sexta-feira, 9 de abril de 2021

poesia e sorte

volto mais uma vez à busca do brilho nos olhos
depois de dias a fio empenhada em ouvir
uma vontade de criar e concluir
noite não resta para tanto dia
que me consome 
até a última gota do meu leite

sei que não está fácil pra ti
nem pra ele nem pra ela
mesmo que alguém se iluda que estamos separados
desfrutando inconsequentemente
o encontro no cassino
no miolo da roleta 

há tanto e tanto de nós
naquele canto abandonado
mas não há como dispor
nossas memórias 
do medo 
da morte

óleos besuntam nossa pele ainda viva
com aromas de poesia e sorte


domingo, 28 de fevereiro de 2021

desce palmeira

a palmeira que o tempo derruba
destrói estruturas internas e externas
racha vigas sólidas
faz vazar água pelas tubulações
esguicha nossos medos e atribulações

o raio que cai na palmeira
vem do além trazendo mensagens
da turbulência da chuva que do céu tomba
e de seus rastros na terra alagada
dos símbolos de um tempo que retira de nós
o sono tranquilo na rede à tarde sombreada

desce palmeira
grossa, pesada, monumento vegetal
sutil aviso (de quê?)
chocante susto (por quê?)
destrói nosso abrigo


sábado, 13 de fevereiro de 2021

cine cilada

No meio de uma praça, de uma pequena cidade, surgiu uma nave holograma. Dela anunciavam que um cinema chegava ali e que tds eram convidads a conhecer. Parecia ser algo gratuito. As pessoas, então, à noite, caminhavam até uma rua onde havia uma casa que parecia ter sido adaptada para funcionar a projeção. Nela, havia uma antessala e a sala propriamente, com uma enorme tela que ocupava toda a parede do fundo. A imagem era multicolorida, não havia narrativa, apenas uns vultos que oscilavam em todas as direções. Eu via da antessala que as pessoas que entravam para assistir o "filme" pareciam hipnotizadas e se dirigiam até tocarem na tela, e quando isso acontecia, elas eram sugadas para dentro. Entendi que aquelas cores em movimento eram pessoas capturadas. Que eram espectros imagens. Eu fiquei assustada e da antessala voltei em direção à porta. Então os seguranças me disseram que eu não podia sair. Retruquei e entrei numa briga com aqueles homens gigantes, recorrendo a todas as artimanhas para vencer.

Acordei.

Sonho do dia 12/13 de fevereiro de 2021

quinta-feira, 11 de fevereiro de 2021

presságios

todos os presságios estão destinados
a nos entregar de bandeja 
nossa liberdade

o que passa diante de nós
cresce rápido e decresce igualmente
vã nossa indisciplina pueril
revelada em cada gesto demasiado
sutil, sem dúvidas, dissimulado

ao sabor das horas há vícios ocultos e manifestos
há também
as mudanças instaladas nos códigos das células

relutei por tanto tempo ver
as marcas tão de perto
das mãos, da face, dos dentes, da mente

daí vi a mulher que jardinava entre vasos brancos
a vista daquele lugar panorâmico

é tão preciosa a experiência 
que é preciso salvá-la a cada segundo