quarta-feira, 19 de maio de 2021
preventório
sexta-feira, 30 de abril de 2021
fim de mês
a tela já foi preenchida
terça-feira, 27 de abril de 2021
durmo cedo acordo cedo
rezo pelos mortos antes de dormir
pelos vivos
acordo cedo
a recarga de energia e fabulação
sonho com detalhes desta configuração
mas desperto sem saber o porquê
pois é assim que fazemos conosco
inconscientes dos símbolos
o céu amanheceu lilás
e eu vi só pelo canto da janela
podendo ter adentrado nele inteirinho
sexta-feira, 9 de abril de 2021
poesia e sorte
uma vontade de criar e concluir
noite não resta para tanto dia
que me consome
sei que não está fácil pra ti
nem pra ele nem pra ela
mesmo que alguém se iluda que estamos separados
desfrutando inconsequentemente
o encontro no cassino
no miolo da roleta
há tanto e tanto de nós
naquele canto abandonado
mas não há como dispor
nossas memórias
do medo
da morte
óleos besuntam nossa pele ainda viva
com aromas de poesia e sorte
domingo, 28 de fevereiro de 2021
desce palmeira
destrói estruturas internas e externas
racha vigas sólidas
faz vazar água pelas tubulações
esguicha nossos medos e atribulações
sábado, 13 de fevereiro de 2021
cine cilada
No meio de uma praça, de uma pequena cidade, surgiu uma nave holograma. Dela anunciavam que um cinema chegava ali e que tds eram convidads a conhecer. Parecia ser algo gratuito. As pessoas, então, à noite, caminhavam até uma rua onde havia uma casa que parecia ter sido adaptada para funcionar a projeção. Nela, havia uma antessala e a sala propriamente, com uma enorme tela que ocupava toda a parede do fundo. A imagem era multicolorida, não havia narrativa, apenas uns vultos que oscilavam em todas as direções. Eu via da antessala que as pessoas que entravam para assistir o "filme" pareciam hipnotizadas e se dirigiam até tocarem na tela, e quando isso acontecia, elas eram sugadas para dentro. Entendi que aquelas cores em movimento eram pessoas capturadas. Que eram espectros imagens. Eu fiquei assustada e da antessala voltei em direção à porta. Então os seguranças me disseram que eu não podia sair. Retruquei e entrei numa briga com aqueles homens gigantes, recorrendo a todas as artimanhas para vencer.
Acordei.
Sonho do dia 12/13 de fevereiro de 2021
quinta-feira, 11 de fevereiro de 2021
presságios
a nos entregar de bandeja
nossa liberdade
o que passa diante de nós
cresce rápido e decresce igualmente
vã nossa indisciplina pueril
revelada em cada gesto demasiado
sutil, sem dúvidas, dissimulado
ao sabor das horas há vícios ocultos e manifestos
há também
as mudanças instaladas nos códigos das células
relutei por tanto tempo ver
as marcas tão de perto
das mãos, da face, dos dentes, da mente
daí vi a mulher que jardinava entre vasos brancos
a vista daquele lugar panorâmico
é tão preciosa a experiência
que é preciso salvá-la a cada segundo
quarta-feira, 10 de fevereiro de 2021
fastio
contigo de olhos abertos
quimeras em narrativas
fatigas ao fim do dia
contas histórias como gostarias de ouvi-las
não estás só, sabes
expectar não é observar
sábado, 6 de fevereiro de 2021
sexta-feira, 29 de janeiro de 2021
condução
estou reconhecendo uma paisagem antiga
às vezes sem brilho
se reacender em cores livres e vivas
ainda que eu ainda sofra
reconheço este instante como o marco
do bom e do sublime
encontro com a vida
segunda-feira, 18 de janeiro de 2021
Lameirão
na praia não se passa mais
sem que se molhe por inteiro
para capturar a imagem perfeita
homens se movimentam com água na cintura
antes que suba mais
mas a noite se avizinha sorrateira
e nela seres misteriosos se camuflam na paisagem
mãe-da-lua no tronco madeira
alguma ameaça mordaz e invisível ainda paira no ar
pessoas morrem na praia, no seco
e a montanha de absurdos se avoluma no horizonte
queríamos um pouco de calma
úmida e profunda respiração
enquanto o aroma da incerteza
atravessa continentes rumo ao Lameirão
domingo, 10 de janeiro de 2021
relembrar lembranças
se não sabemos decifrá-las
telas
de tanto buscar respostas nas telas
praquilo que está somente em mim
lubrifico com o colírio da suspensão do tempo
*
colírio nos olhos
sexta-feira, 18 de dezembro de 2020
sonhos de desconexão
além de mim
um sussurro explora cada membro e órgão
vejo-te quebrando cada reflexo
do espelho que botei na nossa frente
para protelar a reflexão
do que havia no avesso das telas
e então eu amanheci com planos de desconexão
adentrei desejos passados pelas veias pulsantes do agora
na demora dos anseios
chutando a servidão
pisei em casas desconhecidas enquanto construo a minha
com poeira sem porão
cercada de plantas abertas da percepção
algum sussurro surge do mato escuro
são rostos muito diferentes dos nossos
escondo-me, vejo de longe
adentro mato adentro
em um sonho plano puro
as passagens secretas de nossa casa
quarta-feira, 2 de dezembro de 2020
geração
nem sonhos recorrentes
nem o corpo, nem I Ching
cada vez que revejo
imagino que é tão rápido, fulgaz
se sentir não é o bastante
mas já é tanto
que me tira o fôlego
me perco, me acho
no sonho conheço pouco dos caminhos
que eu mesmo faço
as sombras projetadas na casa
contam histórias, narram objetos
falam dos músculos que voltam ao lugar
das palavras novas do vocabulário
dos estigmas e dos enigmas
percebo que já faz um tempo que sou assim
e reencontro porque me formei desse jeito
oráculo
que desafio foi lançado junto aquelas moedas
risadas na rua
sons vindos de todos os lados
observo calma e quando menos espero
vejo tudo começar
segunda-feira, 30 de novembro de 2020
flor do urucum
revisito onde eu sou
onde me escuto e nada digo
uma brisa aqui passou
nos momentos em que dava conta de compromissos
vi e não vi a planta crescer
a planta virar casa
a planta suas mensagens
eu vi também nesta tarde
a planta que não plantei que nasceu na varanda
a flor do urucum e os besouros que nela pousam
uma vida inteira reinou aqui enquanto vivia outros rumos
alguma coisa daquilo que você diz sobre você
toca a membrana fina da minha memória
não sou indiferente
penso no que foi dito ontem
agora
relembro o que havíamos descrito
e comparo com o que temos
agora esta tudo à vista
sábado, 12 de setembro de 2020
Astrônomo de jardim
olha a estrela esmaecer no céu matutino
desafiando o Sol com ternura e desatino
contempla o planeta da beleza guiando destinos
quer ver até que horas pode ver
no claro firmamento equatorial
Sol que torra peles e retinas
experimento sensorial
para quem se ilumina
faz-se criança outra vez para crescer
nos detalhes vê Deus que se aproxima
minúsculos seres dos três reinos escrutina
e a estrela observa sorrindo
por trás dos ares da claridade infinita
descendente
desce do céu uma linha ascendente
das células genitoras que se encontram de repente
multiplicam-se formando um corpo sem precedentes
no morno abismo se aposenta o ser
sangue
que vai e vem no espaço visceral
não há explique o mistério do singular
não há mimeses que o represente
a alma chega e se assenta na flor nascente
tapete de flores servem para seus pés pisarem
sua boca para o fruto flor provar
todas as experiências ao alcance da matéria que aprende
que pisa na terra para recordar
enquanto crê em oráculos sorridentes
o futuro a ti pertence
*
enquanto socorre para atender o morto
esquece que sempre será espírito vidente
então
socorre a lembrança da criança
que ocupa somente seu presente
quinta-feira, 3 de setembro de 2020
redondezas
e não
arredores
sexta-feira, 1 de maio de 2020
chuva pra matar sede
gotas abundantes nos buracos abertos
inundam as poças do desespero
hidratam muito além da pele
a prece de quem pede
água para matar a sede
do doente suplicante
do sufoco desses dias de atropelo terrestre
do humano, de sua reação, a peste
chuva lava a atmosfera mais limpa
ação na não ação
é locomoção para o alento
adentro
no reflexo das gotas que caem
segunda-feira, 20 de abril de 2020
Regida por Vênus
calma manhã surgindo
na madrugada, águas inundam
férteis lençóis freáticos
límpidos como brilhantes
mágicos encantos da terra e da lua
tua presença futura
renova a terra em colapso
com beleza tudo se restaura
todas as dores das mortes
das descendências interrompidas
está consolidada em beleza tua vida
tua sorte está escrita
concentração
serena mente
ressurgimento pós poente
da dor profunda
surge a criança sorridente
a esperança segura
que seremos restauradas pela beleza
que as pragas passarão
que as feridas cicatrizarão
que a penúria dará lugar
para águas férteis e puras
quarta-feira, 29 de janeiro de 2020
estrela ascendente
uma estrela ascendente
na mente
na nossa história
fica gravado na memória
cada gesto teu crescente
teus sonzinhos noturnos
que escuto mesmo levemente
teus primos reflexos
teu sorriso sem dente
teu relaxamento
teu olhar que abre pro mundo
reconhece aos poucos
o que antes era turvo
aquela comunicação do olho que aprende
diante da pureza me curvo
o espírito tornando-se gente
quarta-feira, 15 de janeiro de 2020
praia a noite
da gente
caminhões inteiros
ondas enormes
mares agitados
muita gente dentro deles
surfamos até a beira de uma cidade
desconhecida gente praieira
consigo nadar nessas ondas
mas é um desafio sem barco
dá medo
é sedutora a praia a noite
mas parto
rumo a nosso tempo presente
o do colapso
do antropoceno
terça-feira, 14 de janeiro de 2020
mistura
do relógio e do vento
da chuva e do calendário
misturo
e de lá cato os versos esculpidos pelo acaso
misturo as rotações deslocadas dos astros
localizando-os no fio desenrolado
o tempo da poesia
do tempo à eternidade
a eterna poesia
recebo o imprevisto
a cada dejà vu
cauda de cometas
acordes de amigos
sonhos inacabados
o que controlo é bem pouco
segunda-feira, 6 de janeiro de 2020
nutriz
a criança abarca o mundo inteiro
globo terreste
inteireza
sustenta a beleza nutriz
sem fardo
apenas a leveza
da compaixão e do cuidado
quando segura o seio
segura de si
amplia sua força
no mundo que abarca
quarta-feira, 13 de novembro de 2019
EQM
se junts estivéssemos
nas notas das canções
nos gestos, nas ações
e se temos medo da morte, ainda
é que não aprendemos as lições
estas já temos, a catástrofe não foi dada
a realidade nos chama a praticar
e o medo acompanha a fraqueza
ainda há um apelo, clemência
inocência
fazemo-nos crianças outra vez
porque não há outro modo de pedir
aquilo que de nós independe
talvez
luminosa esperança da criança
que espera sua hora pra nascer
quando puder respirar o prana
aqui fora, já somos outrs
sexta-feira, 1 de março de 2019
a propósito
as tuas, na vida
nos nossos propósitos
a propósito
nos distanciamos
pois as frequências estão tão mudadas
eu te vejo, te reconheço
me reconheço outra vez
em ti
de ti
recebi grandes conselhos
talvez tenhamos que ter
mais tempo para nós mesmas
sábado, 22 de setembro de 2018
movivento
semoventes
mudário
da truculência patriarcal, pátria, patrimônio
refugiei-me em terras pequenas
secas pela estiagem
maltratada por cortes desequilibrados
para regenerá-la
e me regenerar junto com ela
para gerar
para mudar
de planta a planta
de vaso em vaso
do vaso ao chão
muda, parada, silêncio
arranquei ervas daninhas
ando matando progressivamente
um macho insano e estéril
abrindo o útero da terra
penetrando sangues e sementes
muda
aguardando pacientemente a chuva chegar
para lavar todo resquício insolente do dominador
só
lentamente
a água encharca o córrego pluvial
mas com ele vem a sujeira do mundo lá fora
*
misture terra debaixo das folhas
cinza das palhas queimadas
adubo de palmeira babaçu
terra daqueles vasos
dentro deles já existem plantas
esperando ser regadas
não esqueça de molhar teu chão, tua criança
(janeiro de 2018)
quarta-feira, 4 de outubro de 2017
simples
ser simples
é o passaporte
para o chão
não alimentamos imaginários de luxo
não regamos nenhuma regalia
enquanto antes for
ficaremos próximos da terra
e da terrania
das mulheres e homens nanicos
das mais importantes
insignificantes
sementes
do vento nas palmeiras
e do Sol na cara
simples simplicidade
a imagem de si
pralém das coisas
sábado, 2 de setembro de 2017
sob sobre a terra
riqueza atribuída
sobre a terra bichos, índios, ribeirinhos, plantas, águas
renegados como riqueza
ouro, níquel, tântalo
pobres ricos pântanos
não há fronteiras na floresta
nada existe além do cosmo
tudo se toca, se contamina
nem nos olhos do curumim
morto ainda vivo no seu fim de mundo
quarta-feira, 23 de agosto de 2017
não-casa
ela nunca foi de fato
nada é, meu
nem sequer meu quarto
meu aposento
é meu ser
o ser que aqui repousa e
acorda para fora
o dentro resguardado
segunda-feira, 21 de agosto de 2017
oposição
sabemos da hora do eclipse
sem marcos aborígenes
sem observação de outras espécies
nada perguntamos aos cachorros
aos pássaros aos loucos
sabemos dele ingenuamente
saímos nas portas sem prudência
olhamos para o Sol mordido no canto direito
por poucos segundos vimos
sem silêncio não há sentir
algo de mim tostou ao ver o Sol partido
eu parti
quebrei um pedacinho no canto direito
terça-feira, 28 de março de 2017
novo outono
vai passar muito rápido
muito do que pronunciar
vai ser desviado
mas muito também
se tornará concreto
base, cimento, alicerce
para outras tantas palavras e gestos
espero, sem esperar por nada
não sei de nada não, eu
cansei de especular
desfruto meu lugar
de semente, de devir
no dia
a poesia chegará
para louvar o sereno do instante
∞
outono chegou
maturação
ver ão
se foi
em nós
a pele fotografada pelo Sol
quarta-feira, 23 de novembro de 2016
sexta-feira, 18 de novembro de 2016
observância
como sendo o de maior interesse
tu olhaste os olhos do menino
para onde irradiava sua atenção prima
uma história era contada
por descendentes urbanos de um devir perdido
em nós, eu diria, antes mesmo da tua travessia
até os parentescos dilacerados com os sentidos
muito pouco sobrou do que queremos
a liberdade
cantos e apitos
luz difratada
de uma morte anunciada
a cada vez que tentaram me modular
mais profundo ainda é o corte
quando me vi
cumprindo o papel de algoz de mim
terça-feira, 11 de outubro de 2016
pássaros da aurora
flutua nossos corpos
findáveis nossos ossos
e peles
e carnes
todos os órgãos
aguardam algo eterno
sonoro prana silencioso
para trazer o som
para expandir o movimento
dos dedos
da voz
da caixa torácica
onde repousa nosso dia
e festeja nossas noites
impuras e arredias
em puras sintonias
como esta
agora
sejam bem vindos
pássaros da aurora
o Sol nos respinga
o som nos respinga
quarta-feira, 29 de junho de 2016
raiar São Pedro
golpe forte com a costa da mão
pandeiro e pandeirão
o que emana do homem que sobe
cada degrau de seu ser
pra pedir uma benção
emana a força e a dor
torna-se grande de joelhos
faz crescer uma grande onda
que balança o barco aparentemente estático
enquanto por outra porta
os índios guerreiros e todo seu batalhão
adentram na capela sorrateiros
arrastando-se e empunhando suas lanças
arrastando-nos pra dentro de uma tribo
transportando pra igreja de São Pedro
o chão do terreiro
sotaques se misturam no raiar do dia
a Casa das Minas celebra seu assentamento
a voz do pai se apresenta no filho
o corpo do índio morto resiste na entidade
o pelo pintado da onça morta
movimenta-se no tecido sintético das alegorias
quem não segura o que vem de lá
sofre a contradição por se sentir invadido
o carinho no olhar
abre qualquer batalhão
pra passar o sentido de tudo
não é pela via da brutalidade
menos ainda da invasão
o lugar do outro é sagrado
suas penas acariciam nosso pescoço
e nosso passar
não há imagem que sobrevive mais
que aquela inscrita no corpo
quinta-feira, 23 de junho de 2016
goteiras
vem chegando um tempo escuro
corremos para fechar janelas
tirar roupas do varal
mover aquilo que intencionávamos livrar do mofo alastrado
fechamos tudo, com ou sem aval do tempo
nos fechamos
e mesmo tendo trancado
o porvir despencou sobre os telhados
infiltrou pelas paredes
transpassou o forro
gotejou sobre nossos objetos de apreço
corremos agora para dar conta das goteiras
que nos surpreende sempre em um novo lugar
dentro de nós
escorre gotas carregando a sujeira do telhado
diluindo o excremento de morcegos e pombos que moram lá
e mesmo sem vê-los
aspiramos suas imundas presenças
dentro de nós há um mofo intruso
onde está aquilo que abandonamos
sábado, 30 de abril de 2016
a cara do medo
nela
reconheci muitas imagens
fotos, quadros, afrescos, frames
nela
reconheci a cara da medo
sobreposta na face usurpada
domingo, 31 de janeiro de 2016
pesos e medidas
chão molhado
reencontro a pegada da presa
eu mesma
reencontro o rastro na lembrança
mesmo já sendo apagado
músculos enrijecidos pelo choque
reencontro sonhos esquecidos
exames de situações
mecanismos de instintos
reconstituições de frações de segundos
de milímetros limítrofes do desastre
a ética não deixa esquecer
o exame
o direcionamento
a situação está sempre em aberto
a uma nova grafia
a uma nova medida
a uma nova poesia
casulo de dores ou alívios
casulos vazios
voo translúcido do erro
perspectiva
rastejo lagarta
antes do voo
antes de ser esmagada
pela circunstância
chão seco
ar chuva
para lavar
tormentas
quinta-feira, 19 de novembro de 2015
desmodulação
não me module
ética
não é dar exemplo
mude
e me deixe mudar
pela raiz
o corte
sempre dói
mas cicatriza
quinta-feira, 5 de novembro de 2015
mares, rios e cactos
convertem-se em alegrias
rápidas e fugazes
os mares dos tempos
convertem-se em tristezas profundas
rápidas imagens fugazes
os rios de lama
os rios de gente
desaparecidas espécies
contaminados humanos
nas lavouras cruéis
rápidos resgates
profundos afogamentos
praias de corpos inchados
putrefatos lamentos
não temos tempo para lamentar o suficiente
nossa potência soterrada por nós mesmos
pelo o que queremos
quero cessar de querer mais
*
matamos cactos com água excessiva
de sede plantas marítimas
de plástico aves ingênuas
arritmias, incompetências, calafrios
sequer admitimos
desaprendemos o cultivo
urgente é nosso desvio
rumo ao muito pouco
segunda-feira, 19 de outubro de 2015
coletânea de sons - praia dos coqueiros - pqt
do barco
lá longe
o avião
cachorros e pássaros
bem perto
o som da maré
em resposta ao motor do barco
suspende subterrâneos sons
respostas ao vento
gaivotas descem
do vento ao peixe
de vento em popa
do vento nas folhas
das castanheiras
na praia dos coqueiros
uma castanha
caiu
quinta-feira, 1 de outubro de 2015
chave
do cômodo
não mais habitado
pequena com detalhe vermelho
o que restou
da vida ao lado do vivo
cômodo sem vida
chave no lixo
fantasmas
placa vende-se
entrar lá outra vez
não consigo
jogo um plano fora
sem remorsos
perigeu lunar diurno
deixo-me só
esquecido
atrás de nuvens
sombra e chuva
acordar com ventania agonia rebeldia
arte detona arte
grito detona suspiro
vamos aprendendo a silenciar
quando mais falamos de nós
mais sentimos o eclipse da nuvem muda
memes gifs samples redundam e afogam o som mudo
ouvimos a cidade na trilha urbana
percebemos de longe a fila de formigas
preces silenciosas seguidas da chegada no aposento
inocente sorriso desconhecido
cumplicidade de minutos
mesmo estado mental
sem precisar comungar do mesmo
quando aterrizei não estava mais lá
gnomo perigeu lunar à luz do dia
se foi na trilha do desconhecido
verborragia desnecessária complementa
a palavra nenhuma
sem palavras para tanto
é preciso concluir o poema
terça-feira, 22 de setembro de 2015
telepartilha
chego qd c digita linhas p mim
telepartilha
vejo os três pontinhos
leio sozinho
um afago resumido
imago trama
jogar com elas
como lugar possível da experiência
talvez o único
enfrentamento possível às forças cruéis
não é possível que seja o que sobra a nós
sobre nós
não é possível que não faça nenhum efeito
não é possível mas é possível
na imagem