segunda-feira, 30 de novembro de 2020

flor do urucum

revisito onde eu sou

onde me escuto e nada digo

uma brisa aqui passou

nos momentos em que dava conta de compromissos


vi e não vi a planta crescer

a planta virar casa

a planta suas mensagens


eu vi também nesta tarde

a planta que não plantei que nasceu na varanda

a flor do urucum e os besouros que nela pousam


uma vida inteira reinou aqui enquanto vivia outros rumos


alguma coisa daquilo que você diz sobre você

toca a membrana fina da minha memória


não sou indiferente

penso no que foi dito ontem

agora

relembro o que havíamos descrito

e comparo com o que temos 

agora esta tudo à vista


sábado, 12 de setembro de 2020

Astrônomo de jardim

astrônomo de jardim
olha a estrela esmaecer no céu matutino
desafiando o Sol com ternura e desatino
contempla o planeta da beleza guiando destinos

quer ver até que horas pode ver
no claro firmamento equatorial
Sol que torra peles e retinas
experimento sensorial
para quem se ilumina

faz-se criança outra vez para crescer
nos detalhes vê Deus que se aproxima
minúsculos seres dos três reinos escrutina

e a estrela observa sorrindo
por trás dos ares da claridade infinita



descendente

desce do céu uma linha ascendente

das células genitoras que se encontram de repente

multiplicam-se formando um corpo sem precedentes

no morno abismo se aposenta o ser


sangue 

que vai e vem no espaço visceral

não há explique o mistério do singular

não há mimeses que o represente


a alma chega e se assenta na flor nascente

tapete de flores servem para seus pés pisarem

sua boca para o fruto flor provar


todas as experiências ao alcance da matéria que aprende

que pisa na terra para recordar

enquanto crê em oráculos sorridentes


o futuro a ti pertence


*

enquanto socorre para atender o morto

esquece que sempre será espírito vidente

 

então

socorre a lembrança da criança

que ocupa somente seu presente

quinta-feira, 3 de setembro de 2020

redondezas

redondezas 
e não
arredores

quem gira ao redor da fonte
e não bebe a água?

há quem morre de sede

quem definha 
quem se automutila
quem se sabota

eu já vivi tudo isso e posso dizer 
a mim mesma
o que clareia a pupila 
e o que a embota



sexta-feira, 1 de maio de 2020

chuva pra matar sede

chuva
gotas abundantes nos buracos abertos
inundam as poças do desespero
hidratam muito além da pele
a prece de quem pede

água para matar a sede
do doente suplicante
do sufoco desses dias de atropelo terrestre
do humano, de sua reação, a peste

chuva lava a atmosfera mais limpa
ação na não ação
é locomoção para o alento

adentro
no reflexo das gotas que caem

segunda-feira, 20 de abril de 2020

Regida por Vênus

sorriso leve e cativante
calma manhã surgindo
na madrugada, águas inundam
férteis lençóis freáticos
límpidos como brilhantes
mágicos encantos da terra e da lua

tua presença futura
renova a terra em colapso
com beleza tudo se restaura
todas as dores das mortes
das descendências interrompidas

está consolidada em beleza tua vida
tua sorte está escrita
concentração
serena mente

ressurgimento pós poente
da dor profunda
surge a criança sorridente

a esperança segura
que seremos restauradas pela beleza
que as pragas passarão
que as feridas cicatrizarão
que a penúria dará lugar
para águas férteis e puras

quarta-feira, 29 de janeiro de 2020

estrela ascendente

passa tão rápido
uma estrela ascendente
na mente
na nossa história
fica gravado na memória
cada gesto teu crescente

teus sonzinhos noturnos
que escuto mesmo levemente
teus primos reflexos
teu sorriso sem dente
teu relaxamento
teu olhar que abre pro mundo
reconhece aos poucos
o que antes era turvo

aquela comunicação do olho que aprende

diante da pureza me curvo
o espírito tornando-se gente

quarta-feira, 15 de janeiro de 2020

praia a noite

o mar cospe seus pesados excrementos
da gente
caminhões inteiros

ondas enormes
mares agitados
muita gente dentro deles

surfamos até a beira de uma cidade
desconhecida gente praieira
consigo nadar nessas ondas
mas é um desafio sem barco

dá medo
é sedutora a praia a noite

mas parto
rumo a nosso tempo presente
o do colapso
do antropoceno


terça-feira, 14 de janeiro de 2020

mistura

dizem: não misture tempos
do relógio e do vento
da chuva e do calendário

misturo
e de lá cato os versos esculpidos pelo acaso

misturo as rotações deslocadas dos astros
localizando-os no fio desenrolado

o tempo da poesia
do tempo à eternidade
a eterna poesia

recebo o imprevisto
a cada dejà vu
cauda de cometas
acordes de amigos
sonhos inacabados

o que controlo é bem pouco

segunda-feira, 6 de janeiro de 2020

nutriz

quando se aninha no peito para mamar
a criança abarca o mundo inteiro

globo terreste
inteireza

sustenta a beleza nutriz
sem fardo
apenas a leveza
da compaixão e do cuidado

quando segura o seio
segura de si
amplia sua força
no mundo que abarca

quarta-feira, 13 de novembro de 2019

EQM

poderíamos morrer mil vezes
se junts estivéssemos
nas notas das canções
nos gestos, nas ações
e se temos medo da morte, ainda
é que não aprendemos as lições

estas já temos, a catástrofe não foi dada
a realidade nos chama a praticar
e o medo acompanha a fraqueza

ainda há um apelo, clemência
inocência
fazemo-nos crianças outra vez
porque não há outro modo de pedir
aquilo que de nós independe

talvez

luminosa esperança da criança
que espera sua hora pra nascer
quando puder respirar o prana
aqui fora, já somos outrs




sexta-feira, 1 de março de 2019

a propósito

minhas escolhas
as tuas, na vida
nos nossos propósitos
a propósito
nos distanciamos
pois as frequências estão tão mudadas

eu te vejo, te reconheço
me reconheço outra vez
em ti
de ti
recebi grandes conselhos

talvez tenhamos que ter
mais tempo para nós mesmas

sábado, 22 de setembro de 2018

movivento

do silêncio se chega à música do ser
movimento
movivento nas palmeiras
primavera aqui é sopro que derruba folha e flor
é luz solar que racha pés e cajus
é relembrar no vento a chuva que se foi
é teu sentido figurado que dispersa um embrião vegetal

não esqueça de molhar teu chão, tua criança
logo no raiar do dia seja húmus
e na madrugada receba os úmidos canais da terra
pois viemos de longe, trazidas pelo movivento
e aqui chegamos, de água sedentos
semoventes

mudário

fugindo da crueldade dos homens
da truculência patriarcal, pátria, patrimônio
refugiei-me em terras pequenas
secas pela estiagem
maltratada por cortes desequilibrados
para regenerá-la
e me regenerar junto com ela
para gerar
para mudar
de planta a planta
de vaso em vaso
do vaso ao chão
muda, parada, silêncio

arranquei ervas daninhas

ando matando progressivamente
um macho insano e estéril
abrindo o útero da terra
penetrando sangues e sementes
muda
aguardando pacientemente a chuva chegar
para lavar todo resquício insolente do dominador

só
lentamente
a água encharca o córrego pluvial
mas com ele vem a sujeira do mundo lá fora

*

misture terra debaixo das folhas
cinza das palhas queimadas
adubo de palmeira babaçu
terra daqueles vasos

dentro deles já existem plantas
esperando ser regadas

não esqueça de molhar teu chão, tua criança

(janeiro de 2018)


quarta-feira, 4 de outubro de 2017

simples

ostensiva ostentação, escute

ser simples
é o passaporte
para o chão

não alimentamos imaginários de luxo
não regamos nenhuma regalia
enquanto antes for
ficaremos próximos da terra
e da terrania
das mulheres e homens nanicos
das mais importantes
insignificantes
sementes
do vento nas palmeiras
e do Sol na cara

simples simplicidade
a imagem de si
pralém das coisas

sábado, 2 de setembro de 2017

sob sobre a terra

sob a terra minerais
riqueza atribuída
sobre a terra bichos, índios, ribeirinhos, plantas, águas
renegados como riqueza
ouro, níquel, tântalo
pobres ricos pântanos
não há fronteiras na floresta
nada existe além do cosmo
tudo se toca, se contamina

não há pureza que sobreviva
nem nos olhos do curumim
morto ainda vivo no seu fim de mundo


quarta-feira, 23 de agosto de 2017

não-casa

esta casa já não é minha
ela nunca foi de fato
nada é, meu
nem sequer meu quarto
meu aposento
é meu ser
o ser que aqui repousa e
acorda para fora
o dentro resguardado

segunda-feira, 21 de agosto de 2017

oposição

atualizados por dispositivos móveis
sabemos da hora do eclipse
sem marcos aborígenes
sem observação de outras espécies
nada perguntamos aos cachorros
aos pássaros aos loucos

sabemos dele ingenuamente
saímos nas portas sem prudência
olhamos para o Sol mordido no canto direito
por poucos segundos vimos

sem silêncio não há sentir

algo de mim tostou ao ver o Sol partido
eu parti
quebrei um pedacinho no canto direito

terça-feira, 28 de março de 2017

novo outono

já sei como vai ser
vai passar muito rápido
muito do que pronunciar
vai ser desviado
mas muito também
se tornará concreto

base, cimento, alicerce
para outras tantas palavras e gestos
espero, sem esperar por nada
não sei de nada não, eu
cansei de especular
desfruto meu lugar
de semente, de devir
no dia
a poesia chegará
para louvar o sereno do instante

∞

outono chegou
maturação
ver ão
se foi
em nós
a pele fotografada pelo Sol


quarta-feira, 23 de novembro de 2016

sexta-feira, 18 de novembro de 2016

observância

ao passo que eu sacava o meu passo
como sendo o de maior interesse
tu olhaste os olhos do menino
para onde irradiava sua atenção prima
uma história era contada
por descendentes urbanos de um devir perdido
em nós, eu diria, antes mesmo da tua travessia
até os parentescos dilacerados com os sentidos
muito pouco sobrou do que queremos
a liberdade
cantos e apitos
luz difratada
de uma morte anunciada
a cada vez que tentaram me modular
mais profundo ainda é o corte
quando me vi
cumprindo o papel de algoz de mim

terça-feira, 11 de outubro de 2016

pássaros da aurora

onde brilha a luz com toda intensidade
flutua nossos corpos
findáveis nossos ossos
e peles
e carnes
todos os órgãos
aguardam algo eterno
sonoro prana silencioso
para trazer o som
para expandir o movimento
dos dedos
da voz
da caixa torácica
onde repousa nosso dia
e festeja nossas noites
impuras e arredias
em puras sintonias
como esta
agora
sejam bem vindos
pássaros da aurora
o Sol nos respinga

o som nos respinga


quarta-feira, 29 de junho de 2016

raiar São Pedro

golpe forte na expressão
golpe forte com a costa da mão
pandeiro e pandeirão
o que emana do homem que sobe
cada degrau de seu ser
pra pedir uma benção
emana a força e a dor
torna-se grande de joelhos
faz crescer uma grande onda
que balança o barco aparentemente estático

enquanto por outra porta
os índios guerreiros e todo seu batalhão
adentram na capela sorrateiros
arrastando-se e empunhando suas lanças
arrastando-nos pra dentro de uma tribo
transportando pra igreja de São Pedro
o chão do terreiro

sotaques se misturam no raiar do dia
a Casa das Minas celebra seu assentamento
a voz do pai se apresenta no filho
o corpo do índio morto resiste na entidade
o pelo pintado da onça morta
movimenta-se no tecido sintético das alegorias

quem não segura o que vem de lá
sofre a contradição por se sentir invadido

o carinho no olhar
abre qualquer batalhão
pra passar o sentido de tudo

não é pela via da brutalidade
menos ainda da invasão
o lugar do outro é sagrado
suas penas acariciam nosso pescoço
e nosso passar

não há imagem que sobrevive mais
que aquela inscrita no corpo



Cazumba Mirim
festa de São Pedro, São Luís, 2016


quinta-feira, 23 de junho de 2016

goteiras

vento frio lá de longe
vem chegando um tempo escuro
corremos para fechar janelas
tirar roupas do varal
mover aquilo que intencionávamos livrar do mofo alastrado
fechamos tudo, com ou sem aval do tempo
nos fechamos
e mesmo tendo trancado
o porvir despencou sobre os telhados
infiltrou pelas paredes
transpassou o forro
gotejou sobre nossos objetos de apreço

corremos agora para dar conta das goteiras
que nos surpreende sempre em um novo lugar
dentro de nós
escorre gotas carregando a sujeira do telhado
diluindo o excremento de morcegos e pombos que moram lá
e mesmo sem vê-los
aspiramos suas imundas presenças

dentro de nós há um mofo intruso
onde está aquilo que abandonamos


sábado, 30 de abril de 2016

a cara do medo

eu vi a morte no teu rosto
nela
reconheci muitas imagens
fotos, quadros, afrescos, frames
nela
reconheci a cara da medo
sobreposta na face usurpada



peligro
 2016


domingo, 31 de janeiro de 2016

pesos e medidas

relembrar e desaparecer
chão molhado
reencontro a pegada da presa
eu mesma
reencontro o rastro na lembrança
mesmo já sendo apagado
músculos enrijecidos pelo choque
reencontro sonhos esquecidos
exames de situações
mecanismos de instintos
reconstituições de frações de segundos
de milímetros limítrofes do desastre
a ética não deixa esquecer
o exame
o direcionamento
a situação está sempre em aberto
a uma nova grafia
a uma nova medida
a uma nova poesia
casulo de dores ou alívios
casulos vazios
voo translúcido do erro
perspectiva
rastejo lagarta
antes do voo
antes de ser esmagada
pela circunstância
chão seco
ar chuva
para lavar
tormentas

quinta-feira, 19 de novembro de 2015

desmodulação


não me module
ética
não é dar exemplo

∞
não queira me modular
mude
e me deixe mudar

∞

corte a modulação
pela raiz
o corte
sempre dói
mas cicatriza

quinta-feira, 5 de novembro de 2015

mares, rios e cactos

os males dos tempos
convertem-se em alegrias
rápidas e fugazes

os mares dos tempos
convertem-se em tristezas profundas
rápidas imagens fugazes

os rios de lama
os rios de gente
desaparecidas espécies
contaminados humanos
nas lavouras cruéis
rápidos resgates
profundos afogamentos
praias de corpos inchados
putrefatos lamentos

não temos tempo para lamentar o suficiente
nossa potência soterrada por nós mesmos
pelo o que queremos
quero cessar de querer mais

*

matamos cactos com água excessiva
de sede plantas marítimas
de plástico aves ingênuas
arritmias, incompetências, calafrios
sequer admitimos
desaprendemos o cultivo
urgente é nosso desvio
rumo ao muito pouco

segunda-feira, 19 de outubro de 2015

coletânea de sons - praia dos coqueiros - pqt

o som do motor
do barco
lá longe
o avião
cachorros e pássaros
bem perto
o som da maré
em resposta ao motor do barco
suspende subterrâneos sons
respostas ao vento
gaivotas descem
do vento ao peixe
de vento em popa
do vento nas folhas
das castanheiras
na praia dos coqueiros
uma castanha
caiu


quinta-feira, 1 de outubro de 2015

chave

jogo fora a chave
do cômodo
não mais habitado

pequena com detalhe vermelho
o que restou
da vida ao lado do vivo
cômodo sem vida
chave no lixo
fantasmas
placa vende-se
entrar lá outra vez
não consigo

jogo um plano fora
sem remorsos


perigeu lunar diurno

deixo-me afetar pelo eclipse não visto
deixo-me só
esquecido
atrás de nuvens
sombra e chuva
acordar com ventania agonia rebeldia
arte detona arte
grito detona suspiro
vamos aprendendo a silenciar
quando mais falamos de nós
mais sentimos o eclipse da nuvem muda
memes gifs samples redundam e afogam o som mudo
ouvimos a cidade na trilha urbana
percebemos de longe a fila de formigas
preces silenciosas seguidas da chegada no aposento
inocente sorriso desconhecido
cumplicidade de minutos
mesmo estado mental
sem precisar comungar do mesmo
quando aterrizei não estava mais lá
gnomo perigeu lunar à luz do dia
se foi na trilha do desconhecido
verborragia desnecessária complementa
a palavra nenhuma
sem palavras para tanto
é preciso concluir o poema

terça-feira, 22 de setembro de 2015

telepartilha

telepatia
chego qd c digita linhas p mim
telepartilha
vejo os três pontinhos
leio sozinho
um afago resumido

imago trama

manobras suaves das imagens
jogar com elas
como lugar possível da experiência
talvez o único
enfrentamento possível às forças cruéis

não é possível que seja o que sobra a nós
sobre nós
não é possível que não faça nenhum efeito
não é possível mas é possível
na imagem

sábado, 5 de setembro de 2015

ainda

ainda somos pelo o que passamos
ainda podemos voltar na casa vazia
pra despedida dos animais e das plantas

eram a nossa companhia de todos os dias
quando dormíamos
faziam vigília

e ainda fazem
mesmo sem ninguém por lá

não suportamos ver o abandono
reconhecer apenas detalhes
que não interessaram a ninguém
ficaram como lâminas pra nossa sensibilidade frágil

animais e plantas não se importam tanto
mas compreendem que fomos
e que talvez não voltemos mais

ainda que tenhamos lembranças
estômagos embrulham sorrisos perdidos
miados quando abríamos a porta pela manhã
gritos inaudíveis nos cômodos em desuso

quinta-feira, 4 de junho de 2015

AzulPedraMar

cobrir pedras
saio pela orla
deixando marcas expressivas na memória

lenço
saia
marcando um território
construído em lugar nenhum
construir um além lugar
AzulPedraMar

∞

onde está a sereia?
vestir uma pedra
para trazê-la de vota
para instaurar o movimento
da imagem imemorial

∞

de que cor era a baía?
acho que nunca foi azul
talvez esverdeada ou quase marrom
talvez avermelhada de rio

mas o mar é azul
e assim desejam os turistas veranistas
e seu imaginário

∞

cor imprime na água
a marca do que nunca seria
será?

∞


solve et coagula

esgoto desgosto
azul dejeto
do homem
mulher ventre água
poluída humanidade
descabida sem idade
para voltar
o que já foi um dia
alquímica fórmula ainda não decifrada

∞



segunda-feira, 13 de abril de 2015

falar com borboletas

quero também falar com borboletas
sê-las
sons
ar

broto abrir iridescência
quero sê-las
larva casulo crescente
broto flor iridescência

o que me ensinas
mais do que imaginas

falar com borboletas
contar segredos
escutar silêncios elementais

broto
sempre em movimento
a imagem do ser


terça-feira, 31 de março de 2015

suculenta

como fruta madura 
que se desprende do pé
não adianta forçar
e vale a pena esperar por ela

observar o momento da entrega

doce é o seu néctar
suavemente se desconecta
do galho da espera

suculenta

quarta-feira, 4 de março de 2015

O monge

rastro  luz, 2014, Cusco


na beira da montanha
o monge molhou-se
com a água do jardim

e saiu correndo
extravasando a energia que havia nele
e mesmo em mim

sua roupa roxa
pintando o caminho
dizia que nada está parado
e que o mistério nodal
dos escritos perdidos no tempo
é o repouso e o movimento

sábado, 3 de janeiro de 2015

sobre mapas e flores

o mapa de planos
o mapa em planos
sem tempo pra estratégia
a tática

em honra da presença
a ausência dramática
do decalque amarelo
da flor esquecida no caderno
tão potente como os vestígios
dos loucos dessacralizados

no meu mapa
ao centro
o esquecimento

o acaso ornando os sopros
em todas as direções
dos anjos de cabelos encaracolados

quinta-feira, 18 de dezembro de 2014

ser imperceptível

desenvolva poderes normais
de ficar invisível
sentado no banco da praça pública

desenvolvo poderes supranormais
de ser o invisível

ser visto é um perigo
desenvolto o poder anormal
de querer não ser visto
nem lembrado nem ouvido nem compreendido

o poder do apagamento dos sentidos
do ser
do sonido
imperceptível


terça-feira, 9 de dezembro de 2014

foice silêncio

a dificuldade em calar-se
jaz um atraso para si próprio

o dia se foi na voz que se foi
foice empenada
nada amolada
para cortar o não dito

o silêncio merece ser escrito
e o corte cego dói bem mais



sexta-feira, 28 de novembro de 2014

concentra

paradinha
vendo o tempo passar

gotas de orvalho da madruga
cisco de areia de ampulheta
parado empenho no olho a coçar
incômodo sucede indiferença

nesse verso retomo o gesto de versar

rir da chama do candeeiro

os homens proativos resmungam
a chama bruxuleia risadas
o tempo serpanteia
teu sorriso me conforta


acerto erro

para quem não gosta de rasuras
errar o dia
escrever sobre outro
é uma catástrofe

corretivo por cima
página adulterada
é preciso dormir
para estar acordada

acordo com o destino
jamais nos vemos



intercílio

flores ascendentes ao por do Sol
rumo a uma estrada curta ao longo da noite
anum voa na luz amarela
rumo ao pé de algodão

poderia ter queimado
o fogo foi muito alto e rápido
fogo de palha

anum branco, alma de gato
voa vendo as palmeirinhas
trêmulo frescor

criamos e vivemos bolhas
de ser

volto para casa
com as mãos vazias

a luz do dia
à luz do dia



terça-feira, 4 de novembro de 2014

sábado, 30 de agosto de 2014

Acariciando um cacto

desliso as pontas dos dedos
e com pequenas garras se prende a mim
com um desejo sem apego

não há aspereza
cacto tempo nos conforta com sua beleza
com sua franqueza
mesmo com a fraqueza dos nossos dedos
ávidos por rápidas soluções

segunda-feira, 18 de agosto de 2014

acúmulo

limpando caixas de entrada
caixas de saída
malas repletas de acúmulos da vida
e a renovação rompendo o mofo

não é fácil
apagar o que acumulamos
deletar o que nós mesmos buscamos
realocar vestígios

mas é preciso
como um corte que degola em sacrifício

segunda-feira, 19 de maio de 2014

azul pedra mar

lápis-lazúli
azul índigo
azul pedra mar

banho de mar
banho de sal grosso

rachadura azul
geometria do caos
movimento das marés



domingo, 18 de maio de 2014

pier

severa nuvem afogada na água turva da baía
sincera água da baía afogada na dimensão mais íngreme

mergulho

poderia eu ter caído na água turva
pra mergulhar na nuvem refletida
se assim fizesse estaria perdida
não haveria pescador nem turista para me salvar

a vizinha dizia que colheria flores para mim
que ficaria bonito na composição do quadro
mas agradeci cordialmente
disse não às flores amarelas do jardim

disse não porque me interessava o azul
que nunca foi nem será
pois não é

terça-feira, 13 de maio de 2014

não sou eu

não sou eu que decido
a minha barquinha
que no mar me guia

eu seguro o leme
mas a barca me leva
leve a música anacrônica
a memória


∞

diante do céu me dizendo acordada
a luz penetrando a montanha mudando
a cada segundo
o imutável

fiz até uma tentativa
mas não era mais possível alimentar a mentira

pelo nosso bem
pelo bem