ela bate na tua porta
e diz
estou aí
aqui
viva
quinta-feira, 30 de janeiro de 2014
sábado, 25 de janeiro de 2014
rolezinhos etc e tal
"vai procurar emprego!",
"eu ganho bem pra caralho",
"shopping não é lugar de manifestação não, é perigoso pra todo mundo, isso pode de repente virar uma bagunça generalizada",
"só quer bagunça, só quer aparecer",
“existe um plano, sim! Pode botar aí. Existe um plano de ocupação comunista, totalitarista no país! Será que ninguém quer ver isso?”
"eu ganho bem pra caralho",
"shopping não é lugar de manifestação não, é perigoso pra todo mundo, isso pode de repente virar uma bagunça generalizada",
"só quer bagunça, só quer aparecer",
“existe um plano, sim! Pode botar aí. Existe um plano de ocupação comunista, totalitarista no país! Será que ninguém quer ver isso?”
terça-feira, 21 de janeiro de 2014
eu atrabalho
você não tem tempo para mim
apenas pro trabalho
eu não dou trabalho
não trabalho
não sou trabalho
eu atrabalho
eu sou o tempo desviado da flecha
que atinge tua testa qualquer hora dessas
na hora que você vê que eu não existo
na hora que eu desisto
de mostrar algum eu
desnecessário
eu atrabalho
apenas pro trabalho
eu não dou trabalho
não trabalho
não sou trabalho
eu atrabalho
eu sou o tempo desviado da flecha
que atinge tua testa qualquer hora dessas
na hora que você vê que eu não existo
na hora que eu desisto
de mostrar algum eu
desnecessário
eu atrabalho
domingo, 19 de janeiro de 2014
devir
um passarinho cantou no galho
pertinho de onde construiremos nossa casa
que já está conosco aqui
neste chão
próximos a portais
nos quais adentramos
para conhecer nossa morada
pertinho de onde construiremos nossa casa
que já está conosco aqui
neste chão
próximos a portais
nos quais adentramos
para conhecer nossa morada
segunda-feira, 6 de janeiro de 2014
ataques
- novamente pra cima deles, é ônibus, é polícia, é bombeiro, é tudinho, tá ligado?
- mãe, não vai pegar ônibus nem hoje nem amanhã.
vai rolar uma chacina em São Luís hoje.
- o Maranhão está melhor e bem estruturado.
- mãe, não vai pegar ônibus nem hoje nem amanhã.
vai rolar uma chacina em São Luís hoje.
- o Maranhão está melhor e bem estruturado.
domingo, 5 de janeiro de 2014
viagem ao Acre
o que eu pensava ser a lua
era o sol se pondo no céu já escuro
na beira da praia de rio um acreano
era o sol se pondo no céu já escuro
na beira da praia de rio um acreano
sábado, 4 de janeiro de 2014
espaço velho ex passo novo
numa duna de areia molhada
choveu e ninguém viu nada
nela, uma cabana de teto de palha
nela, um urubu adianta o olhar sobre nós
vimos o lixo no mar do ano novo
ele viu nossa carne morta viva
água escura no mar que era claro
só vimos porque desejamos mergulhar
se não, o contrário, rosto virado
e é claro
o mar é o mesmo daquele que é turvo
do mangue do norte ou das correntes frias
do putrefato condomínio zona sul
de um lugar dito civilizado
ontem a noite
pedalando entre cidades do mundo velho
constatei e vi
por lá tudo já desmoronou
cidades memórias por onde nos perdemos
por onde já perdemos
e se queremos ser como elas
digo que já já conseguiremos
no tempo mal medido da ultrapassagem
o caminhão do agora atropela o que seremos
calor escorre pela nossa virilha
sabemos que fodemos o espaço
estamos rindo de desespero
comprando décimos presentes terceiros
quentes ofertas parceladas no frescor do ar condicionado
e é quente o sangue que escorre do preso decapitado
vira fogo vira bala
vira nosso medo da barbárie
que não queremos acreditar
que já vivemos
já que vivemos
é quente e pega fogo
choveu e ninguém viu nada
nela, uma cabana de teto de palha
nela, um urubu adianta o olhar sobre nós
vimos o lixo no mar do ano novo
ele viu nossa carne morta viva
água escura no mar que era claro
só vimos porque desejamos mergulhar
se não, o contrário, rosto virado
e é claro
o mar é o mesmo daquele que é turvo
do mangue do norte ou das correntes frias
do putrefato condomínio zona sul
de um lugar dito civilizado
ontem a noite
pedalando entre cidades do mundo velho
constatei e vi
por lá tudo já desmoronou
cidades memórias por onde nos perdemos
por onde já perdemos
e se queremos ser como elas
digo que já já conseguiremos
no tempo mal medido da ultrapassagem
o caminhão do agora atropela o que seremos
calor escorre pela nossa virilha
sabemos que fodemos o espaço
estamos rindo de desespero
comprando décimos presentes terceiros
quentes ofertas parceladas no frescor do ar condicionado
e é quente o sangue que escorre do preso decapitado
vira fogo vira bala
vira nosso medo da barbárie
que não queremos acreditar
que já vivemos
já que vivemos
é quente e pega fogo
∞
poderia ter sido outro, mas é esse o poema ano novo
sábado, 21 de dezembro de 2013
prece
senhor, livrai-me do fundamentalismo
senhora, livrai-me da modulação
senhores e senhoras, afirmo
livre
senhora, livrai-me da modulação
senhores e senhoras, afirmo
livre
domingo, 8 de dezembro de 2013
cabisbaixo
abismo do ser que afunda em si e respira da água de si próprio
linfa que enche pulmões, caixões, vivos e mortos
fantasmas ets etc
disfarçados em brinquedos da China
lacrados que chegam na maré na praia
embutidos que chegam ao estômago
nossa incapacidade de ser capaz de ser
as mangas grandes, verdes
são arremessadas violentamente contra o chão
pela tempestade
o cheiro azedo chegou na memória
com sal e pimenta do reino
nossa incapacidade de ser capaz de ser
as mangas grandes, verdes
são arremessadas violentamente contra o chão
pela tempestade
o cheiro azedo chegou na memória
com sal e pimenta do reino
domingo, 24 de novembro de 2013
passo nublado
hoje o dia está nublado
e por isso mesmo vou dançar
no cinza da sua frustração
da minha comoção ou revolta
reviravolta sempre aqui num passo só
que cai e levanta e que sai pelas portas
tá tudo aí
fogo do sol e fogo da usina
uma desnecessária placa de localização
nesse jamais localizável
vou dançar porque só me resta
fazer uma música de corpo
da decepção de cada um
do que consegui avistar
e por isso mesmo vou dançar
no cinza da sua frustração
da minha comoção ou revolta
reviravolta sempre aqui num passo só
que cai e levanta e que sai pelas portas
tá tudo aí
fogo do sol e fogo da usina
uma desnecessária placa de localização
nesse jamais localizável
vou dançar porque só me resta
fazer uma música de corpo
da decepção de cada um
do que consegui avistar
terça-feira, 12 de novembro de 2013
quarta-feira, 6 de novembro de 2013
imagem
comportada como uma imagem
cai e quebrei
vaso chinês
manchei minha roupa
com água sanitária
pra nunca mais ser a mesma
cai e quebrei
vaso chinês
manchei minha roupa
com água sanitária
pra nunca mais ser a mesma
domingo, 27 de outubro de 2013
lambendo ferida
é preciso lamber a própria ferida
curar o apego da vida
num só golpe compassado
e compassivo
lamber como lambe o cachorro
não apenas a sua ferida
mas a do outro que sangra
curar o apego da vida
num só golpe compassado
e compassivo
lamber como lambe o cachorro
não apenas a sua ferida
mas a do outro que sangra
manguinhas
o vendaval da noite
derrubou as manguinhas
antes de tornarem-se frutas
grandes e comestíveis
as folhas secas também caíram
outras equilibraram-se entre as folhas verdes
acordei muitas vezes de um sono exaltado
ao som do vento e das mangas arremessadas
por ele escolhidas para tocar o chão
o amor de quem está ao lado
mais valioso que qualquer ilusão
o vento desprende e arremessa
o que não se atém com firmeza
digo, pois, que o vendaval
traz consigo a mensagem
da beleza
da solidão
da tormenta
da louvação
da tristeza
da gratidão
a tudo que cai
assim recebe o chão
e do chão
não passa
raio
estrondou
e eu estava dormindo
acordei correndo
com a perna bamba
com o coração palpitando
com o impacto alojado no umbigo
acordei com o raio que caiu
na casa do vizinho
e que locomoveu minhas placas sísmicas
e eu estava dormindo
acordei correndo
com a perna bamba
com o coração palpitando
com o impacto alojado no umbigo
acordei com o raio que caiu
na casa do vizinho
e que locomoveu minhas placas sísmicas
segunda-feira, 14 de outubro de 2013
escuto a mor
escuto nossa história
do que já foi já é
nossa estória a se criar
acordes no dicionário
e os que escapam quando pode
nosso amanhecer e nosso norte
a se pôr
nossa morte
a mor
te
surge
nu
princípio
cru
da sorte
do que já foi já é
nossa estória a se criar
acordes no dicionário
e os que escapam quando pode
nosso amanhecer e nosso norte
a se pôr
nossa morte
a mor
te
surge
nu
princípio
cru
da sorte
terça-feira, 24 de setembro de 2013
vulnerável
precisava mesmo dessa situação
pra experimentar
total vulnerabilidade
cair o chão
precisava mesmo
transbordar minhas bordas
pra experimentar
total vulnerabilidade
cair o chão
e assombrar minhas sombras
precisava mesmo
transbordar minhas bordas
sexta-feira, 20 de setembro de 2013
Inhotim
como
o som da terra
pode ser
arte contemporânea
*
popular
arte contemporânea
*
o som da terra é o som do espaço
intervalo tantos metros abaixo
microfones
*
slogan
Brasil
Um país de todos
País rico é país em pobreza
Em Inhotim
*
o som da terra
pode ser
arte contemporânea
*
popular
arte contemporânea
*
o som da terra é o som do espaço
intervalo tantos metros abaixo
microfones
*
slogan
Brasil
Um país de todos
País rico é país em pobreza
Em Inhotim
*
os cavalos de Paquetá
dizem que vão acabar com as charretes da ilha
os cavalos estão magros e doentes
nem são cavalos
já pegamos a ferradura
que caiu na praia da moreninha
denúncia de vizinho
problema na medula
eutanásia
senhores sentados nas charretes
para onde vão
os cavalos
os cavalos estão magros e doentes
nem são cavalos
já pegamos a ferradura
que caiu na praia da moreninha
denúncia de vizinho
problema na medula
eutanásia
senhores sentados nas charretes
para onde vão
os cavalos
bebê
um bebezinho dura tão pouco
três ou seis meses, talvez
aquele que a mãe enrola num paninho
aquele que some rápido
aquele que é só lembrança
ou uma foto, depois
um bebê dura tão pouco
resta a criança que se comunica
o adulto que fecha os olhos
os olhos de súplica do bebê
some diante do mundo
só em certas ocasiões retoma
nessas não há mais a mãe
três ou seis meses, talvez
aquele que a mãe enrola num paninho
aquele que some rápido
aquele que é só lembrança
ou uma foto, depois
um bebê dura tão pouco
resta a criança que se comunica
o adulto que fecha os olhos
os olhos de súplica do bebê
some diante do mundo
só em certas ocasiões retoma
nessas não há mais a mãe
terça-feira, 17 de setembro de 2013
à saber
o que eu sei é bem pouquinho
o que eu sei é pequenino
o que eu sei vai morrer
daqui à pouco
com o que eu sou
o que eu sei
esqueci
pois tô morrendo agora mesmo
o que eu sei é pequenino
o que eu sei vai morrer
daqui à pouco
com o que eu sou
o que eu sei
esqueci
pois tô morrendo agora mesmo
mangueira
das flores da mangueira
brotam pequenas esmeraldas
venho vendo
e ouvi
o primeiro canto de pássaro na madrugada
uma única e isolada nota
enquanto as manguinhas cresciam
diante dos homens incrédulos
*
teus olhos de presa capturada
pelo meu olhar
que jamais se ausenta
mesmo ferido ou lacrado
brotam pequenas esmeraldas
venho vendo
e ouvi
o primeiro canto de pássaro na madrugada
uma única e isolada nota
enquanto as manguinhas cresciam
diante dos homens incrédulos
*
teus olhos de presa capturada
pelo meu olhar
que jamais se ausenta
mesmo ferido ou lacrado
domingo, 8 de setembro de 2013
passeio São Luís
Bueiro
a água merda do bueiro
da praia grande
sai pela boca
do grito da cracolância
vizinha do convento das mercês
sem pudor
alguém se banha
lava sua roupa ali
de onde avista
o sol se por
ponta do bom fim
eu quero é olhar pro lado
ver o que está
movimento rua vazia
a cruz da casa da festa
luz úmida âmbar
os caixões e os cultos
aquela rua das casas dos militares
com seus enfeites de natal
com o guardinha na porta
antes de virar
pro São Marçal
com seu olhar penoso
uma mão pedindo
outra segurando o cajado
assim é
o meio fio todo quebrado
a água merda do bueiro
da praia grande
sai pela boca
do grito da cracolância
vizinha do convento das mercês
sem pudor
alguém se banha
lava sua roupa ali
de onde avista
o sol se por
ponta do bom fim
∞
Tombo
a ponta da ponta d'areia
virou península
golpe de marketing
quebra mar
merda de rico na baía
Olhar cidade
ver o que está
movimento rua vazia
a cruz da casa da festa
luz úmida âmbar
os caixões e os cultos
aquela rua das casas dos militares
com seus enfeites de natal
com o guardinha na porta
antes de virar
pro São Marçal
com seu olhar penoso
uma mão pedindo
outra segurando o cajado
assim é
o meio fio todo quebrado
pintado de branco cal
minhas palavras nesse meio fio
a rua com um poste de luz de um lado
e um poste de câmera de outro
minhas palavras quebradas
minha amiga que vigia as câmeras
cada dia mais longe do perto
por um fio
minhas palavras nesse meio fio
a rua com um poste de luz de um lado
e um poste de câmera de outro
minhas palavras quebradas
minha amiga que vigia as câmeras
cada dia mais longe do perto
por um fio
∞
Canto cagado
canto cagado da ágora do Odylo
canto cagado da vida
canto cagado da festa
canto cagado da festa
canto cagado da rua
canto mijado
canto pichado
canto liberdade
canto anarquia
canto despacho
canto
terça-feira, 3 de setembro de 2013
sexta-feira, 30 de agosto de 2013
terça-feira, 27 de agosto de 2013
não sei nadar
eu estava em alto mar
mas não sei nadar
sou filha de Iemanjá
e não sei nadar
rainha da pedra-mar
eu não sei nadar
só boiar
para salvar
tão profunda e pesada
eu tento e não consigo
eu não sei nadar
rainha dos meus sonhos
tão leve e densa
não sei
nada r
mas não sei nadar
sou filha de Iemanjá
e não sei nadar
rainha da pedra-mar
eu não sei nadar
só boiar
para salvar
eu tento e não consigo
eu não sei nadar
rainha dos meus sonhos
tão leve e densa
não sei
nada r
sexta-feira, 23 de agosto de 2013
anotações
meu caderno acabou
acabaram as folhas brancas
encheu
lotou
folhas amarelas talvez
seu computador apagou
morreu
sobrou
a caneta tá falhando
a memória se perdendo
a morte de agora
resistir no contrafluxo
acabaram as folhas brancas
encheu
lotou
folhas amarelas talvez
seu computador apagou
morreu
sobrou
a caneta tá falhando
a memória se perdendo
a morte de agora
resistir no contrafluxo
domingo, 18 de agosto de 2013
pergunta
o que queremos com as imagens
o que queremos delas
o que queremos nelas
o que sabemos delas
o que somos nelas
o que somos delas
o quê?
o que queremos delas
o que queremos nelas
o que sabemos delas
o que somos nelas
o que somos delas
o quê?
sexta-feira, 26 de julho de 2013
Reserva da Ilha
a reserva da ilha
é um shopping
um espaço privado para shows
um condomínio de luxo
na ilha de São Luís
a reserva aterra
o que sobra do mangue
é um shopping
um espaço privado para shows
um condomínio de luxo
na ilha de São Luís
a reserva aterra
o que sobra do mangue
e ventos do céu
não subestime o que vem
do céu
chuva cai em Guaratiba
e a luz de Deus em Copa
é o strobo
não subestime o que vem
da terra
a lama
no campo da fé
do aterro aberto sobre o mangue
não subestime
a luz de Deus na mata fechada
um estrondo interior
quarta-feira, 3 de julho de 2013
turbilhão
no meio do turbilhão
fiquei até vesgo
no olho do furacão
tudo está acontecendo
estando ou sendo
assim será
meu grito surdo
ou estridente
um grito sobrepondo outros
fiquei até vesgo
no olho do furacão
tudo está acontecendo
estando ou sendo
assim será
meu grito surdo
ou estridente
um grito sobrepondo outros
quinta-feira, 20 de junho de 2013
selvageria das imagens
carcomendo nosso calcanhar
fina lâmina de papel
corte fino que arde
bem pequeno corte fino
as insensatas passam na nossa cara
sobrevoando pensamentos
na direção dos nossos olhos
nos ensinam do possível e do improvável
carcomendo nosso calcanhar
selvageria das imagens
fina lâmina de papel
corte fino que arde
bem pequeno corte fino
as insensatas passam na nossa cara
sobrevoando pensamentos
na direção dos nossos olhos
nos ensinam do possível e do improvável
carcomendo nosso calcanhar
selvageria das imagens
sábado, 15 de junho de 2013
espuma branca
estou vendo
é do meu tempo
o mar, o ar, a baía
com sedimentos
cisco no olho
olho
confisco
memória
devir
a criança parada em frente ao mar
fala dos peixes que nunca viu por ali
oxalá
espuma branca
banho de mar
banho de sal grosso
é cheiro de maresia
o tempo tá virando
o tempo é de agora
da lembrança que nunca vimos
do desgosto
oxalá
chegue logo
espuma branca
é do meu tempo
o mar, o ar, a baía
com sedimentos
cisco no olho
olho
confisco
memória
devir
a criança parada em frente ao mar
fala dos peixes que nunca viu por ali
oxalá
espuma branca
banho de mar
banho de sal grosso
é cheiro de maresia
o tempo tá virando
o tempo é de agora
da lembrança que nunca vimos
do desgosto
oxalá
chegue logo
espuma branca
sábado, 25 de maio de 2013
planta da casa
me esforço para lembrar do meu sonho
minha casa
frente de taipa bem refinada
piso vermelho, barato, encerado
cuidadosamente por minha amada
um corredor com uma mesa bagunçada
nosso quarto, minha rede
a cozinha, a melhor parte
o quarto dos meninos sempre bagunçado
o banheiro a direita
a porta pro quintal
o abacateiro, o galinheiro
uma escada encostada na parede
não quero fotografias
que apareçam os defuntos que somos
não quero que ninguém guarde minha poesia
nada me tratá de volta suas mãos
você não sabe sentir minha dor de perto
incapaz de vivê-la
em vão desperto na frente da casa
com jardins de plantas roubadas
pequenos galhos que pegaram
sua ladra de plantas!
minha casa
frente de taipa bem refinada
piso vermelho, barato, encerado
cuidadosamente por minha amada
um corredor com uma mesa bagunçada
nosso quarto, minha rede
a cozinha, a melhor parte
o quarto dos meninos sempre bagunçado
o banheiro a direita
a porta pro quintal
o abacateiro, o galinheiro
uma escada encostada na parede
não quero fotografias
que apareçam os defuntos que somos
não quero que ninguém guarde minha poesia
nada me tratá de volta suas mãos
você não sabe sentir minha dor de perto
incapaz de vivê-la
em vão desperto na frente da casa
com jardins de plantas roubadas
pequenos galhos que pegaram
sua ladra de plantas!
Carniça
A carniça chega na praia
veio numa ondinha despretensiosa
reúne pombos, garças e urubus
preta com cheiro de peixe
chegam cachorros correndo ao seu encontro
e fazem todos voar
a carniça deliciosa
chega
na ondina
.
A carniça chegou por um telefonema
a dor dos ombros meus
a dor dos ombros do meu pai
a desesperança da minha mãe
a apreensão da minha irmã
o vazio nos meus irmãos
o consolo do pobre cão inocente
cheira e come carniça
se esfrega nela com tamanha paixão
prazer de fugir para ir ao seu encontro
A carniça se decompõe
é consumida
fede e nos incomoda
nos dá nojo
é assombrosa
A carniça é deliciosa
chega
na ondina
veio numa ondinha despretensiosa
reúne pombos, garças e urubus
preta com cheiro de peixe
chegam cachorros correndo ao seu encontro
e fazem todos voar
a carniça deliciosa
chega
na ondina
.
A carniça chegou por um telefonema
a dor dos ombros meus
a dor dos ombros do meu pai
a desesperança da minha mãe
a apreensão da minha irmã
o vazio nos meus irmãos
o consolo do pobre cão inocente
cheira e come carniça
se esfrega nela com tamanha paixão
prazer de fugir para ir ao seu encontro
A carniça se decompõe
é consumida
fede e nos incomoda
nos dá nojo
é assombrosa
A carniça é deliciosa
chega
na ondina
quinta-feira, 23 de maio de 2013
quinta-feira, 2 de maio de 2013
segunda-feira, 15 de abril de 2013
estudos do corpo
eu sei do meu corpo mais do que qualquer médico
eu sei porque é o meu corpo que me encobre
eu sei
não sei
esqueci
como é que faz pra saber
do próprio corpo
*
eu sei porque é o meu corpo que me encobre
eu sei
não sei
esqueci
como é que faz pra saber
do próprio corpo
*
um frio na costa vem da porta entreaberta
enquanto escuto sua voz de índia
velhinha enrugada me embala
não é um assobio
tem a língua no meio o canto
eu posso mostrar pra vocês
o canto da cobra entre a língua e o dente
cobras sobem pelo braço
cobra te engole
não espere nada que explique
podes crer
motor viril motor
quem tem motor vai querer avançar
seja qual for a potência
o impotente vai querer ultrapassar
vai passar de raspão
vai atropelar
seja ela qual for a máquina
virilidade frouxa
vai mais que você
que todos nós juntos
motor viril motor
seja qual for a potência
o impotente vai querer ultrapassar
vai passar de raspão
vai atropelar
seja ela qual for a máquina
virilidade frouxa
vai mais que você
que todos nós juntos
motor viril motor
sábado, 13 de abril de 2013
intervalo
precisamos de intervalo
pra que ela chegue
prenhe
poesia
*
ainda bem que você chegou
ainda bem
...
pra que ela chegue
prenhe
poesia
*
ainda bem que você chegou
ainda bem
...
sexta-feira, 5 de abril de 2013
paquetá
o som do motor
do barco
lá longe
avião, cachorros e pássaros
bem perto
o som da maré
em resposta ao motor do barco
resposta ao vento
gaivotas descem
do vento ao peixe
alguém passou na bicicleta
uma castanha
da castanheira
da praia dos coqueiros
caiu
do barco
lá longe
avião, cachorros e pássaros
bem perto
o som da maré
em resposta ao motor do barco
resposta ao vento
gaivotas descem
do vento ao peixe
alguém passou na bicicleta
uma castanha
da castanheira
da praia dos coqueiros
caiu
segunda-feira, 25 de março de 2013
cor da memória
quero querer a cor desbotada
das nossas fronhas
da colcha de cama
tudo foi bem usado por nós
nossa pele, nossa vida
desbotada ou manchada
separada ou unida
a cor desbotada meio embranquecida
cor da memória
quanto antes quero encontrá-la
das nossas fronhas
da colcha de cama
tudo foi bem usado por nós
nossa pele, nossa vida
desbotada ou manchada
separada ou unida
a cor desbotada meio embranquecida
cor da memória
quanto antes quero encontrá-la
quarta-feira, 20 de março de 2013
ser.ter
sempre tive
muito
pouco
algumas coisas
não
tinha
você sabia
o que eu queria
e me entregava
de bandeja
algumas poucas vezes você podia
sempre tive muito pouco
continuo
não tendo
algumas poucas coisas podia ser
você me ensinou o contentamento
muito
pouco
algumas coisas
não
tinha
você sabia
o que eu queria
e me entregava
de bandeja
algumas poucas vezes você podia
sempre tive muito pouco
continuo
não tendo
algumas poucas coisas podia ser
você me ensinou o contentamento
sexta-feira, 15 de março de 2013
quarta-feira, 13 de março de 2013
realidade ficção
a realidade
a maior das ficções
está me comendo viva
fazendo das minhas vísceras
banquete
combustão
a maior das ficções
está me comendo viva
fazendo das minhas vísceras
banquete
combustão
sexta-feira, 8 de março de 2013
Cemitério de Pássaros
Cemitério dos pássaros
Paquetá
2013
Onde tudo silencia, o tempo que escorre recobre cada recanto esquecido. O canto dos pássaros restabelece naqueles que os escutam atenciosamente uma nova ordem para os acontecimentos cotidianos.
Lá, naquela ilha no fundo da baía, esquecida na poluição que é a nossa própria sujeira existencial, existe passarinhos brancos e pretos que ao fim da tarde, abrem e balançam freneticamente suas asas, em grupos, diante do Sol.
Da gaiola já sabemos bem. Esse dispositivo de terror camuflado pela carência humana de companhia e má compreensão da beleza. O passarinho, não sei, faz cara de que tudo entende e que tem pena.
Mas nada mais humano que um Cemitério de Pássaros! Porque com covas se enterram os corpos dos homens que passaram nessa terra, mas os passarinhos caem diretamente sobre ela porque assim são. Como tudo o que vive, umidade da decomposição, e depois, ressecam-se cada vez mais os ossos.
Um cemitério de pássaros. Ao lado do cemitério humano, pequenas tumbas brancas adornam esse recanto, com uma pracinha amistosa, luz amarela a noite, sombra das árvores de dia. Uma instalação que fala de coisas tão pequenas e sutis que passam despercebidas. Silêncio entrecortado pelos risos das crianças. Ausência intermitente de um pequeno passarinho. Um dia sonhei que um bicava minha cabeça com uma delicadeza que me dominou. Acordei chorando.
A fotografia guardou a pequena casa desse sonho de um velhinho. Dizem que ele está vivo. Talvez tenha morrido ontem, ou agora mesmo. Uma reportagem de jornal foi em sua busca tirar fotos e provas da verdade; que realmente existe um velhinho que cuida de um cemitério de pássaros. O lusco-fusco da existência humana transmutada na do passarinho, pois essas forças estão em relação, essa coisa mórbida, pequena, tímida que é a covinha de cada um. Quem poderá abri-la a não ser as crianças que correm sobre elas, sem pudor nenhum, nem da morte, nem desse, nem do cemitério ao lado, dos homens. Crianças que não se intimidam nem com fotos nem com covas.
Paquetá
2013
Onde tudo silencia, o tempo que escorre recobre cada recanto esquecido. O canto dos pássaros restabelece naqueles que os escutam atenciosamente uma nova ordem para os acontecimentos cotidianos.
Lá, naquela ilha no fundo da baía, esquecida na poluição que é a nossa própria sujeira existencial, existe passarinhos brancos e pretos que ao fim da tarde, abrem e balançam freneticamente suas asas, em grupos, diante do Sol.
Da gaiola já sabemos bem. Esse dispositivo de terror camuflado pela carência humana de companhia e má compreensão da beleza. O passarinho, não sei, faz cara de que tudo entende e que tem pena.
Mas nada mais humano que um Cemitério de Pássaros! Porque com covas se enterram os corpos dos homens que passaram nessa terra, mas os passarinhos caem diretamente sobre ela porque assim são. Como tudo o que vive, umidade da decomposição, e depois, ressecam-se cada vez mais os ossos.
Um cemitério de pássaros. Ao lado do cemitério humano, pequenas tumbas brancas adornam esse recanto, com uma pracinha amistosa, luz amarela a noite, sombra das árvores de dia. Uma instalação que fala de coisas tão pequenas e sutis que passam despercebidas. Silêncio entrecortado pelos risos das crianças. Ausência intermitente de um pequeno passarinho. Um dia sonhei que um bicava minha cabeça com uma delicadeza que me dominou. Acordei chorando.
A fotografia guardou a pequena casa desse sonho de um velhinho. Dizem que ele está vivo. Talvez tenha morrido ontem, ou agora mesmo. Uma reportagem de jornal foi em sua busca tirar fotos e provas da verdade; que realmente existe um velhinho que cuida de um cemitério de pássaros. O lusco-fusco da existência humana transmutada na do passarinho, pois essas forças estão em relação, essa coisa mórbida, pequena, tímida que é a covinha de cada um. Quem poderá abri-la a não ser as crianças que correm sobre elas, sem pudor nenhum, nem da morte, nem desse, nem do cemitério ao lado, dos homens. Crianças que não se intimidam nem com fotos nem com covas.
Dedico esse ensaio ao meu pai, Jeová Cruz Maciel, meu passarinho.
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