Estou na deriva do acaso
com o vento que chega
frio, inverno
levando lágrimas também frias
dessa cara lavada
nenhuma motivação
para projetos sem propósito
intervenções desnecessárias
penso que o silêncio também é de palavras
e ainda assim não calo
agora o vento vem, pela nuca
faz um burburinho
e alguém grita:
não, isso não é sopro, é furacão
a vizinha empunhando uma faca
ao som dos gritos dos outros
quando saímos dos planos
para o plano realizável, compositivo
vem aquele banzo do inverno
de novo, ele mesmo
sem colheita, nem plantio
mas tem que se fazer sem parar
para não esquecer
a mensagem que atrasada
delay
***
sou sustentado por agricultores
e por algum ministério
mas o que eu faço não se pega
só peca
só me peça, por favor, o que eu posso dar
pois não sou transgressor, sou presa
mil olhos me espreitando
por dentro deste mato seco, surpresa
é noite
e eu não sou daqui
{o expoente que uma dada base deve ter para produzir certa potência}
terça-feira, 31 de maio de 2011
surf
"Todos os novos esportes - surfe, windsurfe, asa delta - são do tipo: inserção numa onda preexistente. Já não é uma origem enquanto ponto de partida, mas uma maneira de colocação em órbita. O fundamental é "chegar entre" em vez de ser origem de um esforço" (Gilles Deleuze, Os intercessores)
Qual grande onda
ainda não descoberta?
[para que pontos de interrogação?
em poesias, pra que pontos?]
se olhamos com tédio
imagens radicais, bocejos
acabou o choque
pior que dormir, suportar o sono
suplantar o sonho
só helicópteros alcançam
nosso olho nascente
de vidro, zoom
Qual grande onda
ainda não descoberta?
[para que pontos de interrogação?
em poesias, pra que pontos?]
se olhamos com tédio
imagens radicais, bocejos
acabou o choque
pior que dormir, suportar o sono
suplantar o sonho
só helicópteros alcançam
nosso olho nascente
de vidro, zoom
sábado, 28 de maio de 2011
merda urbana
o cego com sua vareta
desvia de um poste
mas não da sua borda fétida
quem limpará os dejetos
de outros humanos?
para cachorros existem donos simpáticos
coleiras, passeio e sacos plásticos
em extremos casos
até carrinho de bebê
para os donos um tanto de medo
nojo ou desembaraço
em extremos casos
uma intervenção
desvia de um poste
mas não da sua borda fétida
quem limpará os dejetos
de outros humanos?
para cachorros existem donos simpáticos
coleiras, passeio e sacos plásticos
em extremos casos
até carrinho de bebê
para os donos um tanto de medo
nojo ou desembaraço
em extremos casos
uma intervenção
sambaqui
eu te achava uma referência
mas referência é só mais um
lugar pra ver, uma experiência
todos têm, alguns falam dela
outros calam num silêncio argamassa
cimento que espedaça com o tempo
vira entulho para outra construção
sei não, eu só tô começando
mas referência é só mais um
lugar pra ver, uma experiência
todos têm, alguns falam dela
outros calam num silêncio argamassa
cimento que espedaça com o tempo
vira entulho para outra construção
sei não, eu só tô começando
domingo, 22 de maio de 2011
volta
você passa o dia fora
sai antes mesmo deu acordar
deixa um beijo na testa
e some pela fresta da manhã
raio escapulido contra vontade
a favor da obrigação
espera pacientemente tua volta
que eu te dou como recompensa
todas as declarações de amor
comprimidas no Sol que cai
sai antes mesmo deu acordar
deixa um beijo na testa
e some pela fresta da manhã
raio escapulido contra vontade
a favor da obrigação
espera pacientemente tua volta
que eu te dou como recompensa
todas as declarações de amor
comprimidas no Sol que cai
anfitriã
você que um dia
era só
uma menininha redonda
hoje que mulher
de placidez imensa
elegância plena
frutas adornam perto de onde tu sentas
e nós as comemos te olhando
mastigando de mansinho
no deleite que é ver o teu vestido
uma mãe não deixa seus filhos
com fome
ela nos alimenta
com seu sorriso
e eu, sem te conhecer
saí de onde eu estava
para te encontrar
para compreender
como se recebe
um filho em casa
era só
uma menininha redonda
hoje que mulher
de placidez imensa
elegância plena
frutas adornam perto de onde tu sentas
e nós as comemos te olhando
mastigando de mansinho
no deleite que é ver o teu vestido
uma mãe não deixa seus filhos
com fome
ela nos alimenta
com seu sorriso
e eu, sem te conhecer
saí de onde eu estava
para te encontrar
para compreender
como se recebe
um filho em casa
segunda-feira, 16 de maio de 2011
é assim na história do tempo
o áspero sentimento presente
intensa pílula descrente de contra-indicações
alguma percepção futura, talvez
de cortes, mais ou menos homeopáticos
de tudo o quanto
desejávamos, sentíamos, esperávamos
alguns dos nossos amigos
envelheceram mais que nós
ou já são assim por natureza
cabelos que crescem post mortem
outros não temem, ainda
mas vejo na cara deles
a nostalgia de quando eram só garotos
e uma certeza adulta que tudo passa
por pior ou melhor que seja
tudo passa,
amigo
intensa pílula descrente de contra-indicações
alguma percepção futura, talvez
de cortes, mais ou menos homeopáticos
de tudo o quanto
desejávamos, sentíamos, esperávamos
alguns dos nossos amigos
envelheceram mais que nós
ou já são assim por natureza
cabelos que crescem post mortem
outros não temem, ainda
mas vejo na cara deles
a nostalgia de quando eram só garotos
e uma certeza adulta que tudo passa
por pior ou melhor que seja
tudo passa,
amigo
terça-feira, 3 de maio de 2011
o fracasso surreal
do século passado
ainda nos futuca
com tridentes e raios
mas agora
mais que antes
lâminas erram o alvo
pois olhamos de outro modo
o que não quer dizer muita coisa
mas já nos acostumamos com a ideia
de que somos homens
queria ser amigo de cachorros solitários
que observam pelas grades a noite vazia
antes do dia virar
melancolia
de vez
queria ser amigo de todos os cachorros solitários
não dos humanos
que os trouxeram para cá
do século passado
ainda nos futuca
com tridentes e raios
mas agora
mais que antes
lâminas erram o alvo
pois olhamos de outro modo
o que não quer dizer muita coisa
mas já nos acostumamos com a ideia
de que somos homens
queria ser amigo de cachorros solitários
que observam pelas grades a noite vazia
antes do dia virar
melancolia
de vez
queria ser amigo de todos os cachorros solitários
não dos humanos
que os trouxeram para cá
segunda-feira, 2 de maio de 2011
Visual dream
Tive um sonho visual. Como em uma máquina, avião talvez, subíamos acima das torres gêmeas, víamos em um plongé a profundidade do mergulho e a terrível pretensão humana de Babel. No sonho, lembrava do Philippe Petit, equilibrista, que havia bolado um plano meticuloso (e realizado) de atravessar e desfrutar daquela altura na corda bamba. Era noite no sonho e as luzes da cidade eram como de um outro planeta. Acordei e só lembrei disso pois soube logo cedo que o tal Osama está agora morto, já que há muito tempo sua imagem perseguida escondia-se abaixo do solo.
Contam que Saint-Pol-Roux colocava um aviso em sua porta quando se recolhia para dormir: "Le poète travaille". Li isso ontem antes de dormir.
Contam que Saint-Pol-Roux colocava um aviso em sua porta quando se recolhia para dormir: "Le poète travaille". Li isso ontem antes de dormir.
sábado, 30 de abril de 2011
O canal do mangue
o canal do mangue
com suas flores amarelas
adornam seu esgoto
sem nenhuma pretensão de serem vistas
quem passeia a sua borda
e admira suas cores
quem as observa de longe
em uma rápida mira
no movimento do ônibus
só
a parada pichação
em um prédio secular abandonado
hospital de chagas
o canal do mangue
tem suas memórias
nas palmeiras derrubadas
na sua água sujinha
que corre quase parada
só um pobre anda a sua borda
e ele é motivo de desconfiança
seu descuido o condena
quem aceitará seu presente
com a mente aberta?
o canal do mangue
definitivamente
é muito sujo
para ser imagem do Rio
com suas flores amarelas
adornam seu esgoto
sem nenhuma pretensão de serem vistas
quem passeia a sua borda
e admira suas cores
quem as observa de longe
em uma rápida mira
no movimento do ônibus
só
a parada pichação
em um prédio secular abandonado
hospital de chagas
o canal do mangue
tem suas memórias
nas palmeiras derrubadas
na sua água sujinha
que corre quase parada
só um pobre anda a sua borda
e ele é motivo de desconfiança
seu descuido o condena
quem aceitará seu presente
com a mente aberta?
o canal do mangue
definitivamente
é muito sujo
para ser imagem do Rio
Canal do Mangue- Marc Ferrez- 1905
segunda-feira, 25 de abril de 2011
Figueira
vocês, homens e mulheres
que sabem mil músicas decoradas
há anos armazenadas
das memórias de fins de semana
cervejas, cigarros
algumas estradas
cantadas e requentadas
vocês cantam bem se bronzeando
enquanto o mar passa gélido
vindo da corrente sul
Antártida e seu azul
coexistem com o som dos trópicos
ano após ano
vocês falam com experiência
para nós, meninos urbanos
vocês viveram outro tempo
que nós apenas estudamos
que sabem mil músicas decoradas
há anos armazenadas
das memórias de fins de semana
cervejas, cigarros
algumas estradas
cantadas e requentadas
vocês cantam bem se bronzeando
enquanto o mar passa gélido
vindo da corrente sul
Antártida e seu azul
coexistem com o som dos trópicos
ano após ano
vocês falam com experiência
para nós, meninos urbanos
vocês viveram outro tempo
que nós apenas estudamos
terça-feira, 19 de abril de 2011
blues da terça
fazia muitos dias, babe
que não ouvia as tuas cordas vibrarem
tua música surgir do quarto
e o violão libertar a casa
até o besouro assombrado
parou pra ver
da parede
uma ternura perdurou
e derrubou algumas traças
dos nossos cantos
eu já fiz algumas canções de amor, babe
que você nunca musicou
que não ouvia as tuas cordas vibrarem
tua música surgir do quarto
e o violão libertar a casa
até o besouro assombrado
parou pra ver
da parede
uma ternura perdurou
e derrubou algumas traças
dos nossos cantos
eu já fiz algumas canções de amor, babe
que você nunca musicou
segunda-feira, 18 de abril de 2011
Rei
faz muito pouco tempo
que a paisagem estava vazia
pouco, muito
é o que conseguimos ver
como um rei resignado
que abandona seu trono
lendo uma revista de astronomia
e outra de botânica
saiu em comitiva
para outros assumiram o poder
que nunca foi seu
quem está preocupado com o quê
que a paisagem estava vazia
pouco, muito
é o que conseguimos ver
como um rei resignado
que abandona seu trono
lendo uma revista de astronomia
e outra de botânica
saiu em comitiva
para outros assumiram o poder
que nunca foi seu
quem está preocupado com o quê
quinta-feira, 14 de abril de 2011
e lá vem
lá de longe
chegando feito furacões
com seu rabinhos
fazendo cócegas na terra
apavorando alguns distraídos
traindo algumas previsões
independe de meteorologia
dos mapas das nações
de radares ou satélites
lá vem acariciando
crianças e anões
seu golpe é um continuum
quem escapa
não sabe o que está perdendo
quem se esconde
é detento
quem o enfrenta
vai voar
lá de longe
chegando feito furacões
com seu rabinhos
fazendo cócegas na terra
apavorando alguns distraídos
traindo algumas previsões
independe de meteorologia
dos mapas das nações
de radares ou satélites
lá vem acariciando
crianças e anões
seu golpe é um continuum
quem escapa
não sabe o que está perdendo
quem se esconde
é detento
quem o enfrenta
vai voar
terça-feira, 5 de abril de 2011
uma luz verde
dança no prédio vizinho
naquela madrugada
quadros camuflados
surgem na parede do quarto
em um atitude sínica
como se sempre estivessem ali
não precisamos de óculos
para tirar nossas dúvidas
muito menos de sapatos ou asfalto
para andar pela estrada
e muitas são as vezes
que não dá em nada
luzes que travam nosso sono
desses tempos lacrados
em material plástico
espetam nossas pálpebras
como a angústia de um gordo mórbido
que ao entrar no ônibus
não consegue sentar
angústia que precede
peso dos nossos corpos caindo por toda parte
articulações pagando penitências
e nossos olhos ainda travados
é preciso dar uma lembrança
pra quem precisa dela
pra quem não tem nada
pra quem consumiu o passado
um estojo aveludado
comprado nas mãos de um charlatão
dança no prédio vizinho
naquela madrugada
quadros camuflados
surgem na parede do quarto
em um atitude sínica
como se sempre estivessem ali
não precisamos de óculos
para tirar nossas dúvidas
muito menos de sapatos ou asfalto
para andar pela estrada
e muitas são as vezes
que não dá em nada
luzes que travam nosso sono
desses tempos lacrados
em material plástico
espetam nossas pálpebras
como a angústia de um gordo mórbido
que ao entrar no ônibus
não consegue sentar
angústia que precede
peso dos nossos corpos caindo por toda parte
articulações pagando penitências
e nossos olhos ainda travados
é preciso dar uma lembrança
pra quem precisa dela
pra quem não tem nada
pra quem consumiu o passado
um estojo aveludado
comprado nas mãos de um charlatão
quarta-feira, 30 de março de 2011
a cúpula dos loucos
um incêndio destruiu a praia vermelha
seus cristais de areia
viraram brasas para eles soprarem
nos olhos de bombeiros
e de alunos distraídos com o passado
seus descendentes com certeza
sentiram mesmo trancafiados
o calor dos seus ancestrais insanos
sentados no topo
juntos com as estátuas
no teto da capela
onde seus corpos nunca rezaram
eles espreitavam a movimentação
o caos da segunda-feira
seus cristais de areia
viraram brasas para eles soprarem
nos olhos de bombeiros
e de alunos distraídos com o passado
seus descendentes com certeza
sentiram mesmo trancafiados
o calor dos seus ancestrais insanos
sentados no topo
juntos com as estátuas
no teto da capela
onde seus corpos nunca rezaram
eles espreitavam a movimentação
o caos da segunda-feira
domingo, 27 de março de 2011
Favoritos
um filho
muda os passos do homem
pois com suas pequeninas pernas
impõe o ritmo das quimeras
um filho
prematuro
tão miúdo
mas que segurou o dedo do pai
reconhecendo sua voz desafinada
que ele escutava em sua órbita aquática
filhos crescem
com o pai longe ou perto
filhos são do mundo
e no fundo, no fundo
o pai aprende a lição
muda os passos do homem
pois com suas pequeninas pernas
impõe o ritmo das quimeras
um filho
prematuro
tão miúdo
mas que segurou o dedo do pai
reconhecendo sua voz desafinada
que ele escutava em sua órbita aquática
filhos crescem
com o pai longe ou perto
filhos são do mundo
e no fundo, no fundo
o pai aprende a lição
sábado, 19 de março de 2011
supermoon
quero ver as grávidas
dançando hoje
com seus fetos flutuando
na água da lua
elas pisarão no solo
eles baterão no couro
de animais mortos
que ressuscitarão na lança
de São Jorge
logradas as pupilas dilatadas
dos cegos
que sem dúvida
hoje verão
enquanto muitos estarão dormindo
festas vem esgarçar a noite
e amanhã é domingo
para cair em camas
e descansar
dançando hoje
com seus fetos flutuando
na água da lua
elas pisarão no solo
eles baterão no couro
de animais mortos
que ressuscitarão na lança
de São Jorge
logradas as pupilas dilatadas
dos cegos
que sem dúvida
hoje verão
enquanto muitos estarão dormindo
festas vem esgarçar a noite
e amanhã é domingo
para cair em camas
e descansar
quinta-feira, 17 de março de 2011
terça-feira, 15 de março de 2011
suspense
viemos
não aparecemos
nem ficaremos
parados
arados
já moveram a terra
hoje ordens indiretas
por nós emanadas
existimos na carne
e na nossa imagem
carne essa apodrecerá
na química dos micróbios
seremos ativos
seguindo o silêncio
minerais, suspense
quarta-feira, 9 de março de 2011
segunda-feira, 7 de março de 2011
carnaval
essa festa sempre teve a pretensão
de fazer sumir
de suspender
tanta pressão
de séculos
em alguns dias
mas os batuques daqui
ressuscitam velhos e velhas
que aparecem na forma de pretinhos
nos arcos da Lapa
uma me ofertou uma lantejoula
baculejando com um olhar
qualquer coisa na sua altura
à altura dos bolsos
de fazer sumir
de suspender
tanta pressão
de séculos
em alguns dias
mas os batuques daqui
ressuscitam velhos e velhas
que aparecem na forma de pretinhos
nos arcos da Lapa
uma me ofertou uma lantejoula
baculejando com um olhar
qualquer coisa na sua altura
à altura dos bolsos
terça-feira, 1 de março de 2011
Em/sobre/com Sampa
1.
A poesia
é o refúgio
para pensamentos vãos
não se sentirem
tão banais assim
esperando
pelo o que aguardamos de nós, enfim
a meta-
existência
2.
rua
reta
laterais
certas
invenções arquitetônicas
o que elas quebram?
homens andam com os olhos no que queriam
e se assustam com qualquer abordagem
é o bom dia
é a polida passagem
esse povo que nem sabe mais
bater palmas
muito menos
fugir
do seu setor
não se misturam
concreta
sua estrutura
nunca vi o caminho ser uma linha reta
A poesia
é o refúgio
para pensamentos vãos
não se sentirem
tão banais assim
esperando
pelo o que aguardamos de nós, enfim
a meta-
existência
2.
rua
reta
laterais
certas
invenções arquitetônicas
o que elas quebram?
homens andam com os olhos no que queriam
e se assustam com qualquer abordagem
é o bom dia
é a polida passagem
esse povo que nem sabe mais
bater palmas
muito menos
fugir
do seu setor
não se misturam
concreta
sua estrutura
nunca vi o caminho ser uma linha reta
quarta-feira, 23 de fevereiro de 2011
lição
Aquele cara me mandou descer
a rua
ou subir o mais breve relevo
situações aberrantes
berros sufocantes
internos e extenuantes
Assim ordenou
com uma piscada de olho
pra eu ficar perto de gente
para descobrir no defeito do outro
o quanto sou errado
saber do branco
e lembrar do encarnado
Ele me mandou
bem enxergar e
errar bastante
pra ver se um dia aprendo
o que eu acho bonito
a rua
ou subir o mais breve relevo
situações aberrantes
berros sufocantes
internos e extenuantes
Assim ordenou
com uma piscada de olho
pra eu ficar perto de gente
para descobrir no defeito do outro
o quanto sou errado
saber do branco
e lembrar do encarnado
Ele me mandou
bem enxergar e
errar bastante
pra ver se um dia aprendo
o que eu acho bonito
quinta-feira, 17 de fevereiro de 2011
estamos circulando
para cima e para baixo
arrastando está
a canção do serpentário
às vezes nem se olha
nem pra cima nem pra baixo
só segue
arrastar acelerado
e quando não se aguenta mais
se segura mais um pouco
no corrimão
quantas mãos passam por ali
deslizando as linhas dos seus destinos
somos mais temerosos que os meninos
travessos, escorregam brincando
naqueles que os apóiam
*
caimos em casa a noite
contemplando só o teto
poucos segundos antes do último açoite
não fizemos nada
quarta-feira, 16 de fevereiro de 2011
quarta-feira, 9 de fevereiro de 2011
minha mãe sempre dizia
alento, sopro caindo
na cordilheira
correndo as pedras
nenhuma vegetação
ou fronteira para atravessar
um pulo para ir
outro para se afogar
um grande lago
nenhum bicho aparente
só eu escabreado
sôfrego cuidado
esporão saindo do cóccix
e atingindo minha cabeça
cuidado!
o perigo mora aqui dentro
lembrança que chega
mas não toma forma
não ganha corpo
ganha meu corpo
e me atola
não consigo ver mais nada
nem o que toma minha mente
o que foi é o que será
somente
na cordilheira
correndo as pedras
nenhuma vegetação
ou fronteira para atravessar
um pulo para ir
outro para se afogar
um grande lago
nenhum bicho aparente
só eu escabreado
sôfrego cuidado
esporão saindo do cóccix
e atingindo minha cabeça
cuidado!
o perigo mora aqui dentro
lembrança que chega
mas não toma forma
não ganha corpo
ganha meu corpo
e me atola
não consigo ver mais nada
nem o que toma minha mente
o que foi é o que será
somente
quinta-feira, 3 de fevereiro de 2011
Upaon-açu
saio pela cidade
rememorando o que perdemos no caminho
mais que migalhas
para sair e para voltar
sujamos nossos pés na lama
no esgoto
céu aberto, ferida, sôfrego
o que ali estava
resta apenas mil ruínas de um corpo
estilhaçado, esquartejado, liquidado
que karma para você
que era tão bonita
que é tão bonita
e mal consigo reconhecer teus traços
e teu sorriso
e mal quero assumir nosso parentesco
pergunto-me se tenho vergonha
raiva ou só um descontento
crônicas cotidianas de lamento
nas ruas apagadas
cheiro de mijo e bosta
vultos de zumbis
ou sujas abordagens
pedindo vinte e cinco centavos
ao mesmo tempo que espreita nossa bolsa
poluição de tudo
do mangue, do mar, do trânsito, do som
uma zuada suja intermitente
da falta de opção
no público cujo sinônimo é decrépito
nos homens de atos medíocres
no horto que subimos de costa
olhando para trás
procurando algum vestígio do que fomos
e esperando a volta do pêndulo
rememorando o que perdemos no caminho
mais que migalhas
para sair e para voltar
sujamos nossos pés na lama
no esgoto
céu aberto, ferida, sôfrego
o que ali estava
resta apenas mil ruínas de um corpo
estilhaçado, esquartejado, liquidado
que karma para você
que era tão bonita
que é tão bonita
e mal consigo reconhecer teus traços
e teu sorriso
e mal quero assumir nosso parentesco
pergunto-me se tenho vergonha
raiva ou só um descontento
crônicas cotidianas de lamento
nas ruas apagadas
cheiro de mijo e bosta
vultos de zumbis
ou sujas abordagens
pedindo vinte e cinco centavos
ao mesmo tempo que espreita nossa bolsa
poluição de tudo
do mangue, do mar, do trânsito, do som
uma zuada suja intermitente
da falta de opção
no público cujo sinônimo é decrépito
nos homens de atos medíocres
no horto que subimos de costa
olhando para trás
procurando algum vestígio do que fomos
e esperando a volta do pêndulo
quinta-feira, 27 de janeiro de 2011
as corujas agora moram
ao lado do meu quarto
um canto arranha céu
e trincheiras de sonhos exatos
não as vejo
mas aqui elas estão
não como a lembrança de uma maldição
mas um grito de proteção
pegando rato
matando na unha
*
penso pela ingenuidade que passamos
e aquela que ainda move nossos lábios
infantis
perguntas de primeira ordem
e respostas silenciosas
seu alcance é uma chama
que esfria na ponta
fiquemos juntos, porém calados
ao lado do meu quarto
um canto arranha céu
e trincheiras de sonhos exatos
não as vejo
mas aqui elas estão
não como a lembrança de uma maldição
mas um grito de proteção
pegando rato
matando na unha
*
penso pela ingenuidade que passamos
e aquela que ainda move nossos lábios
infantis
perguntas de primeira ordem
e respostas silenciosas
seu alcance é uma chama
que esfria na ponta
fiquemos juntos, porém calados
segunda-feira, 24 de janeiro de 2011
cheguei
não sei mais onde guardam
os garfos e facas
que vou perfurar o que se deve
sem piedade
o tempo da estabilidade traz
inevitavelmente
o assombro da saudade
e da desordem
abraço vocês como ontem
e o cachorro ainda me reconhece com seu faro
isso é que é memória
a casa da vizinha mudou
a vizinha mudou-se
eu não vou mais lá
além dos sonhos
um olhar de brecha
não sei mais onde guardam
os garfos e facas
que vou perfurar o que se deve
sem piedade
o tempo da estabilidade traz
inevitavelmente
o assombro da saudade
e da desordem
abraço vocês como ontem
e o cachorro ainda me reconhece com seu faro
isso é que é memória
a casa da vizinha mudou
a vizinha mudou-se
eu não vou mais lá
além dos sonhos
um olhar de brecha
terça-feira, 11 de janeiro de 2011
milhares de pessoas
formando um todo orgânico
bicho mecânico com imagens nas mãos
nos olhos e na cabeça
e nenhuma memória
parece, que seu tempo se foi
num acréscimo ressentido
pelo aquilo não gravado
imensos quadrados na arena
entretenimento disciplinado
danças amorfas
pouca interação
só uma hiper sensação queimando os olhos
tremendo o tímpano
lá, até as palmas são amplificadas
mas não ampliadas
em sentimento
cadê a síncopa??
a bateria é uma câmera fotográfica
ninguém viu isso
??
- é, eu não fotografei.
formando um todo orgânico
bicho mecânico com imagens nas mãos
nos olhos e na cabeça
e nenhuma memória
parece, que seu tempo se foi
num acréscimo ressentido
pelo aquilo não gravado
imensos quadrados na arena
entretenimento disciplinado
danças amorfas
pouca interação
só uma hiper sensação queimando os olhos
tremendo o tímpano
lá, até as palmas são amplificadas
mas não ampliadas
em sentimento
cadê a síncopa??
a bateria é uma câmera fotográfica
ninguém viu isso
??
- é, eu não fotografei.
domingo, 9 de janeiro de 2011
com detalhes é difícil saber
como esse samba acelerou
como teu sorriso se perdeu
no meio da multidão um alô
aceno e chamada recusada
tem gente que saiu para rua
e não mais voltou para casa
morreu por aí e viajou além
e pode esperar quanto pode
pois a espera é a promessa
dependurada no caule verde
que sobe na brecha de terra
no telhado do seu cemitério
tenho pena daquele homem
briga em vão com o seu cão
pura, simples, triste solidão
como esse samba acelerou
como teu sorriso se perdeu
no meio da multidão um alô
aceno e chamada recusada
tem gente que saiu para rua
e não mais voltou para casa
morreu por aí e viajou além
e pode esperar quanto pode
pois a espera é a promessa
dependurada no caule verde
que sobe na brecha de terra
no telhado do seu cemitério
tenho pena daquele homem
briga em vão com o seu cão
pura, simples, triste solidão
sexta-feira, 7 de janeiro de 2011
quinta-feira, 30 de dezembro de 2010
as crianças estão de férias
escuto suas vozes como se fossem fantasmas
dentro deste apartamento tudo desaba
em centímetros
quais preocupações metafísicas caem
poeiras reais e com elas alergias
adultos também estão de férias
seus gritos inescrupulosos atravessam
os muros e camadas atmosféricas
todos com alguma espectativa
e um único medo
o fracasso
(ainda bem
tudo voltará ao normal
segunda-feira)
escuto suas vozes como se fossem fantasmas
dentro deste apartamento tudo desaba
em centímetros
quais preocupações metafísicas caem
poeiras reais e com elas alergias
adultos também estão de férias
seus gritos inescrupulosos atravessam
os muros e camadas atmosféricas
todos com alguma espectativa
e um único medo
o fracasso
(ainda bem
tudo voltará ao normal
segunda-feira)
quarta-feira, 29 de dezembro de 2010
eremita
o som fogos no deserto
você chegou na manhã
você escutou você mesmo
pela primeira vez
qual o risco que nos traz ao mundo
no deserto ou no mar
somos sozinhos
com nossas mães em algum lugar
que acontece se tombar
no mar destino
você chegou na manhã
você escutou você mesmo
pela primeira vez
qual o risco que nos traz ao mundo
no deserto ou no mar
somos sozinhos
com nossas mães em algum lugar
que acontece se tombar
no mar destino
glassy-eyed
querido, homem, querido
que tenta olhar pela janela e
ver o céu e vê outras janelas
e ver o seu
Sol e os demais astros, querido
homem que vê windows
ao tentar ser seu céu
querido, primo, querido,
irmão, filho
em qual local estamos agora
sem ela, brincos
redondos camafeus
que tenta olhar pela janela e
ver o céu e vê outras janelas
e ver o seu
Sol e os demais astros, querido
homem que vê windows
ao tentar ser seu céu
querido, primo, querido,
irmão, filho
em qual local estamos agora
sem ela, brincos
redondos camafeus
sábado, 25 de dezembro de 2010
sexta-feira, 24 de dezembro de 2010
seus dedos feridos de tanta angústia
a água arde
e o silêncio...
surge um monstro sem cabeça
um deus antropomórfico negado
legado das cidades, aglomerados
quem compreende esse dia
quem um dia compreendeu
quem o corrompe
o silêncio
na velocidade da luz
a mais veloz
propaga
até que surga um choro
do nascimento
a água arde
e o silêncio...
surge um monstro sem cabeça
um deus antropomórfico negado
legado das cidades, aglomerados
quem compreende esse dia
quem um dia compreendeu
quem o corrompe
o silêncio
na velocidade da luz
a mais veloz
propaga
até que surga um choro
do nascimento
quinta-feira, 23 de dezembro de 2010
terça-feira, 21 de dezembro de 2010
com esta poesia
quero me contentar
com pouco
vendo brotar
tubérculos na geladeira
luzes de natal na mente
pássaros, biomas
virtuais
com muito
quero me contentar
hoje treino, amanhã
qual será meu contento
serei-areia-sendento
suprimentos de sons
blues e poeira
sei, quero tentar
com amor,
feliz natal
assinatura.
com pouco
vendo brotar
tubérculos na geladeira
luzes de natal na mente
pássaros, biomas
virtuais
com muito
quero me contentar
hoje treino, amanhã
qual será meu contento
serei-areia-sendento
suprimentos de sons
blues e poeira
sei, quero tentar
com amor,
feliz natal
assinatura.
quinta-feira, 16 de dezembro de 2010
terça-feira, 14 de dezembro de 2010
locação
saimos sem saber da paisagem que vem
sabemos só que nossas imagens mentais
mentem descaradamente
e que nossa lembrança de primeira viagem
é um filme de única exibição
e ainda chove
navi oruali
nas pedreiras
ainda chove
e vamos seguindo
antes que o toró caia
vamos pro galinheiro
se abrigar numa asa
eu que era criança como você
e hoje me calei mais
eram os anos novos se adiantando
antes do seu tempo de virada
sabemos só que nossas imagens mentais
mentem descaradamente
e que nossa lembrança de primeira viagem
é um filme de única exibição
e ainda chove
navi oruali
nas pedreiras
ainda chove
e vamos seguindo
antes que o toró caia
vamos pro galinheiro
se abrigar numa asa
eu que era criança como você
e hoje me calei mais
eram os anos novos se adiantando
antes do seu tempo de virada
velho ano novo chegando
adiantamento de planos
antes do ano começar
o outro termina
o que vamos colocar
naquilo que falta
na síncopa?
antes do ano começar
o outro termina
o que vamos colocar
naquilo que falta
na síncopa?
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