segunda-feira, 13 de abril de 2015

falar com borboletas

quero também falar com borboletas
sê-las
sons
ar

broto abrir iridescência
quero sê-las
larva casulo crescente
broto flor iridescência

o que me ensinas
mais do que imaginas

falar com borboletas
contar segredos
escutar silêncios elementais

broto
sempre em movimento
a imagem do ser


terça-feira, 31 de março de 2015

suculenta

como fruta madura 
que se desprende do pé
não adianta forçar
e vale a pena esperar por ela

observar o momento da entrega

doce é o seu néctar
suavemente se desconecta
do galho da espera

suculenta

quarta-feira, 4 de março de 2015

O monge

rastro  luz, 2014, Cusco


na beira da montanha
o monge molhou-se
com a água do jardim

e saiu correndo
extravasando a energia que havia nele
e mesmo em mim

sua roupa roxa
pintando o caminho
dizia que nada está parado
e que o mistério nodal
dos escritos perdidos no tempo
é o repouso e o movimento

sábado, 3 de janeiro de 2015

sobre mapas e flores

o mapa de planos
o mapa em planos
sem tempo pra estratégia
a tática

em honra da presença
a ausência dramática
do decalque amarelo
da flor esquecida no caderno
tão potente como os vestígios
dos loucos dessacralizados

no meu mapa
ao centro
o esquecimento

o acaso ornando os sopros
em todas as direções
dos anjos de cabelos encaracolados

quinta-feira, 18 de dezembro de 2014

ser imperceptível

desenvolva poderes normais
de ficar invisível
sentado no banco da praça pública

desenvolvo poderes supranormais
de ser o invisível

ser visto é um perigo
desenvolto o poder anormal
de querer não ser visto
nem lembrado nem ouvido nem compreendido

o poder do apagamento dos sentidos
do ser
do sonido
imperceptível


terça-feira, 9 de dezembro de 2014

foice silêncio

a dificuldade em calar-se
jaz um atraso para si próprio

o dia se foi na voz que se foi
foice empenada
nada amolada
para cortar o não dito

o silêncio merece ser escrito
e o corte cego dói bem mais



sexta-feira, 28 de novembro de 2014

concentra

paradinha
vendo o tempo passar

gotas de orvalho da madruga
cisco de areia de ampulheta
parado empenho no olho a coçar
incômodo sucede indiferença

nesse verso retomo o gesto de versar

rir da chama do candeeiro

os homens proativos resmungam
a chama bruxuleia risadas
o tempo serpanteia
teu sorriso me conforta


acerto erro

para quem não gosta de rasuras
errar o dia
escrever sobre outro
é uma catástrofe

corretivo por cima
página adulterada
é preciso dormir
para estar acordada

acordo com o destino
jamais nos vemos



intercílio

flores ascendentes ao por do Sol
rumo a uma estrada curta ao longo da noite
anum voa na luz amarela
rumo ao pé de algodão

poderia ter queimado
o fogo foi muito alto e rápido
fogo de palha

anum branco, alma de gato
voa vendo as palmeirinhas
trêmulo frescor

criamos e vivemos bolhas
de ser

volto para casa
com as mãos vazias

a luz do dia
à luz do dia



terça-feira, 4 de novembro de 2014

sábado, 30 de agosto de 2014

Acariciando um cacto

desliso as pontas dos dedos
e com pequenas garras se prende a mim
com um desejo sem apego

não há aspereza
cacto tempo nos conforta com sua beleza
com sua franqueza
mesmo com a fraqueza dos nossos dedos
ávidos por rápidas soluções

segunda-feira, 18 de agosto de 2014

acúmulo

limpando caixas de entrada
caixas de saída
malas repletas de acúmulos da vida
e a renovação rompendo o mofo

não é fácil
apagar o que acumulamos
deletar o que nós mesmos buscamos
realocar vestígios

mas é preciso
como um corte que degola em sacrifício

segunda-feira, 19 de maio de 2014

azul pedra mar

lápis-lazúli
azul índigo
azul pedra mar

banho de mar
banho de sal grosso

rachadura azul
geometria do caos
movimento das marés



domingo, 18 de maio de 2014

pier

severa nuvem afogada na água turva da baía
sincera água da baía afogada na dimensão mais íngreme

mergulho

poderia eu ter caído na água turva
pra mergulhar na nuvem refletida
se assim fizesse estaria perdida
não haveria pescador nem turista para me salvar

a vizinha dizia que colheria flores para mim
que ficaria bonito na composição do quadro
mas agradeci cordialmente
disse não às flores amarelas do jardim

disse não porque me interessava o azul
que nunca foi nem será
pois não é

terça-feira, 13 de maio de 2014

não sou eu

não sou eu que decido
a minha barquinha
que no mar me guia

eu seguro o leme
mas a barca me leva
leve a música anacrônica
a memória


∞

diante do céu me dizendo acordada
a luz penetrando a montanha mudando
a cada segundo
o imutável

fiz até uma tentativa
mas não era mais possível alimentar a mentira

pelo nosso bem
pelo bem




terça-feira, 6 de maio de 2014

praça xv

os skatistas ocupam o largo
antes de derrubarem de vez a perimetral
antes da vinda da família real
antes da barca chegar
ao som da banda de rock com mil delays
malha que ocupa a atmosfera noturna
antes das máquinas da destruição derrubarem de dia
dizendo limpar a paisagem vista
tá quase chegando em frente as barcas
o recado da intransigência
com a boa aceitação eleitoral

quinta-feira, 1 de maio de 2014

um tempo que se foi no poderia ser

engorgitado a escolha
tão orgânica é a resposta
que diz: és tola

∞

mas uma vez optei pelo morto
embrulha as tripas
e corta o sopro

∞

me senti sozinha
procurando o que fazer
no intervalo da esquina



viagens

fiz minha mala e ainda sonho
tô sonhando agora mesmo com o que eu sou deveria havia seria sou sido
um sonho levando malas
malas são sonhos com roupas limpas e sujas
guardadas dentro de sacos para não contaminar
mas também a música que inspira a poesia que chega
lembrando

é possível é possível impossível possível não importa

leões e atmosferas noturnas
daqui e de lá e daí e de onde você está
onde eu estou também tanto faz para a conversa que temos agora

levo espelhos na bagagem
e penas no coração
fazendo cócegas e colorindo a alma

cores e a atmosfera noturna
o céu azul mais limpo
estampando bandeiras e comendo as cartas
com o fogo atmosférico do instante arrebatador

quero você mas mais ainda me quero aqui agora mesmo comigo mesmo eu mesmo

eu suporto estar só nessa viagem
pode vir marchas fúnebres ou vermes na tigela
tenho um lenço branco na mala
que tudo limpa com amor de um bordado de mãe no canto esquerdo
toda cidade pequena lembra a cidade onde tua mãe nasceu

sou eu um monólogo dessa estrada
sou a cordilheira que vejo da janela do meio de transporte mais interno
a fonte do mistério vem do alto das cordilheiras





terça-feira, 29 de abril de 2014

cuidado

tigres, leões, leopardos
mesmo que sem dentes
possuem grandes patas
grandes garras que fazem
um bom estrago

não confie neles completamente
são animais de grande porte

não confie neles completamente
são humanos mãos de morte

pobres animais indefesos
dopados para serem fotografados

pobres humanos sem sossego
a tudo querem dominar

mas não controlam seus próprios sonhos

sábado, 12 de abril de 2014

re-pensar

sou míope
não preciso de próteses
para ver as estrelas

com o tempo se toca
o próprio olho

quarta-feira, 9 de abril de 2014

vestidos

escolheu a fazenda
no vai e vem
na rua grande

o tamanho do meu corpo
sabe de cor

flores, pássaros
meu corte
gravado na cabeça

seu corpo, sua prova
de destreza e vitória

quando fores
ou eu não caber mais
os vestidos relíquias
contarão sua história

quando flores e pássaros
botões e rendas e cores
retalhos
eu ficarei

domingo, 6 de abril de 2014

vida assegurada

a morbidez do seguro de vida
a vida assegurada
por um banco

vida corrida
bancos com tapumes
o petróleo é nosso
gari eu te amo
crise em fukushima
do eike
fogo na lata de lixo
lixo no aterro
presos políticos em bangu
tropas de guerra
ditos pacificadores
tsunami chegando
evangélicos histéricos
céticos iludidos

a morbidez da vida assegurada
pelos homens
ditos pacificadores

dominical

as notas do piano do vizinho
acenderam em mim notas de uma nostalgia antecipada

sei que vou embora daqui
e que tudo é um tanto apego
e que o sol intenso neste domingo
dificulta abrir os olhos
e nos permite sombras profundas

ao mesmo tempo
lembro dela com o toque suave de sua pele
para sempre infantil
eu a amo e apesar de tanto sol
tudo me vem um tanto triste
mesmo sem doer


quinta-feira, 6 de março de 2014

banhistas verão paquetá

no lixo lavado na Baía de Guanabara
copos de guaravita
recipientes de limpeza
de detergente e de sabão

os banhistas chegaram cedo
agora fedem na estação

algarismos do tempo

o último algarismo do ano último
que por força do hábito insiste
em aparecer
resiste
o passado novo

∞

guarda na pele
a memória da doença
que só saberá depois 
de passadas algumas décadas

mortes provocadas 
por itens de beleza
por remédios
pelos sorrisos não dados

saberemos quando velhos
ou antes disso
no tarde demais

era cedo demais
ela era tão linda
com seu vestido e batom vermelhos


banzo

é possível estar lá e cá
não, alguns dizem
apenas um espaço é possível
de uma só vez

outros dizem, sim
por que não?
se o espaço sou eu
eu carrego o espaço comigo

e isso eu digo, é o banzo
é estar lá e cá
sem nenhum conflito ou
ser o próprio conflito

no aqui a lembrança é insular
e no lá também é
por uma fina passagem
estreito dos mosquitos
passagem entre praias
entre gritos entre mitos
rastros coloniais
do que sonhamos ter sido
franceses ou tamoios
vivido não vivido
o vento equatorial
assanhando em seu zumbido
o sol paralelo à testa
meus miolos franzidos
o raio do som do vizinho
do carro mala aberta
da rua grande alerta
perfurando os ouvidos

banzo é lembrar de tudo isso
sabendo que ainda é
carregando tudo isso

banzo é ser território
longe dele recriá-lo
é ser lembrança
com o tempero que for
a cor que for
quente ou fria

é tentar ser aqui
o que talvez nunca tenhamos sido lá
banzo é um repertencimento
uma reavaliação uma retaliação
que só a distância incita
apenas ela complica
nossos pontos cardeais
que só existem
porque só existe mudança

∞

presente ausente
presente 
lembrança

∞







Azulejos em Paquetá

2012

quarta-feira, 5 de março de 2014

escrita corpórea

tá tudo escrito no meu corpo
minha história e meus erros
minhas quedas no joelho, na canela, no braço, na boca

cai de boca no chão
chorei e perguntei
por que eu?

criança, eu

marcas da borracha do tempo
sem perspectivas
com alternativas
uma história cicatrizada
que insiste em lembrar
quando o esquecimento é limpeza

borrada com marcas celulares me pergunto
quem eu?

células se renovam
nosso corpo que é muitos durante a vida
e talvez apenas em sobrevida
me veja
sem história
com vida

cri ar

é um grito
mas mais que isso
é um sopro
é ar
que ressoa
e chega a quem escuta
ou vê
a obra invisível
nunca escrita
jamais lida


resposta

eu esperei a resposta
vir de Deus
vir do mundo

eu esperei
e a resposta veio

muda
velada
adulterada
criptografada
hackeada

pelo desejo de saber

"pobre coitado"

"pobre coitado"
assim dizemos com pena
mesmo sendo ele
quem mais suporta

sua força
aguenta
deforma
fede
zomba

resiste
nu
preso no porte

antes que o dito forte
consiga retirar de vez sua vida


o toque

a intuição vem dizer
o que deveria fazer

a doença vem dizer
o que não deveria ter feito

ambas dão o toque
com sutileza ou efeito

lembrando que
quando achamos que controlamos
o imprevisível nos detém
mordisca nossas entranhas

necrotério do turismo

pelo necrotério do turismo
a paisagem vira cifra
a beleza lixo
os pobres mortos
os mortos esquecidos
nos monumentos estilizados


sim, mucunã

mato perguntas negativas
com um sim

sim
sim
sim

mucunã
abre em mim
triângulo pandeiro violão

semente amuleto
da serra do sertão

borboletear

muitas coisas voando na cabeça
ziguezagueando feito borboleta
escrevendo em desenho uma interrogação

duas ou mais

nos ares do presente
metamorfose

concluir e não cumprir

para que pouse outros amigos alados

imago


um poço

uma cidade pode mudar de lugar
mas não se pode mudar um poço

o poço é a sua água
o coaxar dos seus sapos
o furo negro que alcança profundezas

abismo, redondo, estreito, escuro, fértil

o poço tem água viva
e os homens vem beber dizendo
- estou no meu lugar

∞

abissal
incolor inodora insípida
a solidão

nuvens

há uma curva na paisagem
tão bela, por que não?

medo de errar
de ser inoportuno
rasga o tempo do agora
com suas possibilidades remotas
ou vistas pelo desejo alerta

é uma bela curva na passagem

só temos agora para escrever
para fazer essa foto
de uma luz com sua sombra
projetando cintilância


∞


é a serra que faz cócegas na nuvem  
dedinho tic tic tic
uma criança nuvem
na lembrança da criança
seu dedo brincalhão
fazendo cócegas nas vontades
sinceras ou não
vistas em vão

escalar nuvens cada vez mais altas
astrais
onde paira a lua cheia



Lua Cheia 
 Fevereiro de 2014

novo ciclo

novo ciclo
insisto em circular
nos escritos

∞

uma ideia leva a outra
vemos aqui a superfície de inscrição

é favorável ter onde ir

uma ideia lava a outra

terça-feira, 11 de fevereiro de 2014

quinta-feira, 6 de fevereiro de 2014

Janaína

sem eu te esperar
veio até mim
como uma onda interna
traz uma flor pequena

eu mesma te segurei
te aparei para não despencares
fruto maduro
com a cabeça para baixo

eu estava sentada
você veio
com tamanha naturalidade
para minha surpresa

teu corpo pequenino
na superfície de minha pele
buscou o seio

aquele sangue que manchara a roupa
não era lua minguante
era cheia

e apesar de não haver compreendido
a fluidez com que veio
mostrara-me a força das águas

Janaína

Janaína

sonhei que dançava para ti
cantava músicas e chamadas
numa casa de praia
via o dia nascer
procurei onde dormir
mas estava desgarrada

Janaína
sonho com teu mistério
e acordo na praia daqui
a onda revirando resíduos
do que somos
do que está por vir
de nós
pobres ingratos


lição

queria pegar uma flor
para fazê-la secar
e assim guardá-la

a criança sugeriu

― tia, deixa a florzinha cair

∞

a mulher queria
guardar borboletas em livros

a tia sugeriu-lhe

― ô dona, deixa a borboleta morrer

o bicho

o bicho da goiaba é a goiaba
o bicho da mente é a mente
o bicho da gente é a gente

o bicho não mente
é o que é

sua parte
que mexe
enoja

às vezes nos faz
jogar a fruta fora

a fruta que a planta nos deu
porque a aguamos
mas não reconhecemos agora


sábado, 25 de janeiro de 2014

rolezinhos etc e tal

"vai procurar emprego!",
"eu ganho bem pra caralho",
"shopping não é lugar de manifestação não, é perigoso pra todo mundo, isso pode de repente virar uma bagunça generalizada",
"só quer bagunça, só quer aparecer",
“existe um plano, sim! Pode botar aí. Existe um plano de ocupação comunista, totalitarista no país! Será que ninguém quer ver isso?”



terça-feira, 21 de janeiro de 2014

eu atrabalho

você não tem tempo para mim
apenas pro trabalho

eu não dou trabalho
não trabalho
não sou trabalho

eu atrabalho

eu sou o tempo desviado da flecha
que atinge tua testa qualquer hora dessas

na hora que você vê que eu não existo
na hora que eu desisto
de mostrar algum eu
desnecessário

eu atrabalho

domingo, 19 de janeiro de 2014

devir

um passarinho cantou no galho
pertinho de onde construiremos nossa casa
que já está conosco aqui
neste chão

próximos a portais
nos quais adentramos
para conhecer nossa morada



segunda-feira, 6 de janeiro de 2014

ataques

- novamente pra cima deles, é ônibus, é polícia, é bombeiro, é tudinho, tá ligado?

- mãe, não vai pegar ônibus nem hoje nem amanhã.
vai rolar uma chacina em São Luís hoje.

- o Maranhão está melhor e bem estruturado.

domingo, 5 de janeiro de 2014

viagem ao Acre

o que eu pensava ser a lua
era o sol se pondo no céu já escuro
na beira da praia de rio um acreano

sábado, 4 de janeiro de 2014

espaço velho ex passo novo

numa duna de areia molhada
choveu e ninguém viu nada
nela, uma cabana de teto de palha
nela, um urubu adianta o olhar sobre nós

vimos o lixo no mar do ano novo
ele viu nossa carne morta viva
água escura no mar que era claro
só vimos porque desejamos mergulhar
se não, o contrário, rosto virado

e é claro
o mar é o mesmo daquele que é turvo
do mangue do norte ou das correntes frias
do putrefato condomínio zona sul
de um lugar dito civilizado

ontem a noite
pedalando entre cidades do mundo velho
constatei e vi

por lá tudo já desmoronou
cidades memórias por onde nos perdemos
por onde já perdemos
e se queremos ser como elas
digo que já já conseguiremos
no tempo mal medido da ultrapassagem
o caminhão do agora atropela o que seremos

calor escorre pela nossa virilha
sabemos que fodemos o espaço
estamos rindo de desespero
comprando décimos presentes terceiros
quentes ofertas parceladas no frescor do ar condicionado
e é quente o sangue que escorre do preso decapitado
vira fogo vira bala
vira nosso medo da barbárie
que não queremos acreditar
que já vivemos
já que vivemos
é quente e pega fogo


∞
poderia ter sido outro, mas é esse o poema ano novo