as notas do piano do vizinho
acenderam em mim notas de uma nostalgia antecipada
sei que vou embora daqui
e que tudo é um tanto apego
e que o sol intenso neste domingo
dificulta abrir os olhos
e nos permite sombras profundas
ao mesmo tempo
lembro dela com o toque suave de sua pele
para sempre infantil
eu a amo e apesar de tanto sol
tudo me vem um tanto triste
mesmo sem doer
domingo, 6 de abril de 2014
quinta-feira, 6 de março de 2014
banhistas verão paquetá
no lixo lavado na Baía de Guanabara
copos de guaravita
recipientes de limpeza
de detergente e de sabão
os banhistas chegaram cedo
agora fedem na estação
copos de guaravita
recipientes de limpeza
de detergente e de sabão
os banhistas chegaram cedo
agora fedem na estação
algarismos do tempo
o último algarismo do ano último
que por força do hábito insiste
em aparecer
resiste
o passado novo
que por força do hábito insiste
em aparecer
resiste
o passado novo
∞
guarda na pele
a memória da doença
que só saberá depois
de passadas algumas décadas
mortes provocadas
por itens de beleza
por remédios
pelos sorrisos não dados
saberemos quando velhos
ou antes disso
no tarde demais
era cedo demais
ela era tão linda
com seu vestido e batom vermelhos
banzo
é possível estar lá e cá
não, alguns dizem
apenas um espaço é possível
de uma só vez
outros dizem, sim
por que não?
se o espaço sou eu
eu carrego o espaço comigo
e isso eu digo, é o banzo
é estar lá e cá
sem nenhum conflito ou
ser o próprio conflito
no aqui a lembrança é insular
e no lá também é
por uma fina passagem
estreito dos mosquitos
passagem entre praias
entre gritos entre mitos
rastros coloniais
do que sonhamos ter sido
franceses ou tamoios
vivido não vivido
o vento equatorial
assanhando em seu zumbido
o sol paralelo à testa
meus miolos franzidos
o raio do som do vizinho
do carro mala aberta
da rua grande alerta
perfurando os ouvidos
banzo é lembrar de tudo isso
sabendo que ainda é
carregando tudo isso
banzo é ser território
longe dele recriá-lo
é ser lembrança
com o tempero que for
a cor que for
quente ou fria
é tentar ser aqui
o que talvez nunca tenhamos sido lá
banzo é um repertencimento
uma reavaliação uma retaliação
que só a distância incita
apenas ela complica
nossos pontos cardeais
que só existem
porque só existe mudança
não, alguns dizem
apenas um espaço é possível
de uma só vez
outros dizem, sim
por que não?
se o espaço sou eu
eu carrego o espaço comigo
e isso eu digo, é o banzo
é estar lá e cá
sem nenhum conflito ou
ser o próprio conflito
no aqui a lembrança é insular
e no lá também é
por uma fina passagem
estreito dos mosquitos
passagem entre praias
entre gritos entre mitos
rastros coloniais
do que sonhamos ter sido
franceses ou tamoios
vivido não vivido
o vento equatorial
assanhando em seu zumbido
o sol paralelo à testa
meus miolos franzidos
o raio do som do vizinho
do carro mala aberta
da rua grande alerta
perfurando os ouvidos
banzo é lembrar de tudo isso
sabendo que ainda é
carregando tudo isso
banzo é ser território
longe dele recriá-lo
é ser lembrança
com o tempero que for
a cor que for
quente ou fria
é tentar ser aqui
o que talvez nunca tenhamos sido lá
banzo é um repertencimento
uma reavaliação uma retaliação
que só a distância incita
apenas ela complica
nossos pontos cardeais
que só existem
porque só existe mudança
∞
presente ausente
presente
Azulejos em Paquetá
2012
quarta-feira, 5 de março de 2014
escrita corpórea
tá tudo escrito no meu corpo
minha história e meus erros
minhas quedas no joelho, na canela, no braço, na boca
cai de boca no chão
chorei e perguntei
por que eu?
criança, eu
marcas da borracha do tempo
sem perspectivas
com alternativas
uma história cicatrizada
que insiste em lembrar
quando o esquecimento é limpeza
borrada com marcas celulares me pergunto
quem eu?
células se renovam
nosso corpo que é muitos durante a vida
e talvez apenas em sobrevida
me veja
sem história
com vida
minha história e meus erros
minhas quedas no joelho, na canela, no braço, na boca
cai de boca no chão
chorei e perguntei
por que eu?
criança, eu
marcas da borracha do tempo
sem perspectivas
com alternativas
uma história cicatrizada
que insiste em lembrar
quando o esquecimento é limpeza
borrada com marcas celulares me pergunto
quem eu?
células se renovam
nosso corpo que é muitos durante a vida
e talvez apenas em sobrevida
me veja
sem história
com vida
cri ar
é um grito
mas mais que isso
é um sopro
é ar
que ressoa
e chega a quem escuta
ou vê
a obra invisível
nunca escrita
jamais lida
mas mais que isso
é um sopro
é ar
que ressoa
e chega a quem escuta
ou vê
a obra invisível
nunca escrita
jamais lida
resposta
eu esperei a resposta
vir de Deus
vir do mundo
eu esperei
e a resposta veio
muda
velada
adulterada
criptografada
hackeada
pelo desejo de saber
vir de Deus
vir do mundo
eu esperei
e a resposta veio
muda
velada
adulterada
criptografada
hackeada
pelo desejo de saber
"pobre coitado"
"pobre coitado"
assim dizemos com pena
mesmo sendo ele
quem mais suporta
sua força
aguenta
deforma
fede
zomba
resiste
nu
preso no porte
antes que o dito forte
consiga retirar de vez sua vida
assim dizemos com pena
mesmo sendo ele
quem mais suporta
sua força
aguenta
deforma
fede
zomba
resiste
nu
preso no porte
antes que o dito forte
consiga retirar de vez sua vida
o toque
a intuição vem dizer
o que deveria fazer
a doença vem dizer
o que não deveria ter feito
ambas dão o toque
com sutileza ou efeito
lembrando que
quando achamos que controlamos
o imprevisível nos detém
mordisca nossas entranhas
o que deveria fazer
a doença vem dizer
o que não deveria ter feito
ambas dão o toque
com sutileza ou efeito
lembrando que
quando achamos que controlamos
o imprevisível nos detém
mordisca nossas entranhas
necrotério do turismo
pelo necrotério do turismo
a paisagem vira cifra
a beleza lixo
os pobres mortos
os mortos esquecidos
nos monumentos estilizados
a paisagem vira cifra
a beleza lixo
os pobres mortos
os mortos esquecidos
nos monumentos estilizados
sim, mucunã
mato perguntas negativas
com um sim
sim
sim
sim
mucunã
abre em mim
triângulo pandeiro violão
semente amuleto
da serra do sertão
com um sim
sim
sim
sim
mucunã
abre em mim
triângulo pandeiro violão
semente amuleto
da serra do sertão
borboletear
muitas coisas voando na cabeça
ziguezagueando feito borboleta
escrevendo em desenho uma interrogação
duas ou mais
nos ares do presente
metamorfose
concluir e não cumprir
para que pouse outros amigos alados
imago
ziguezagueando feito borboleta
escrevendo em desenho uma interrogação
duas ou mais
nos ares do presente
metamorfose
concluir e não cumprir
para que pouse outros amigos alados
imago
um poço
uma cidade pode mudar de lugar
mas não se pode mudar um poço
o poço é a sua água
o coaxar dos seus sapos
o furo negro que alcança profundezas
abismo, redondo, estreito, escuro, fértil
o poço tem água viva
e os homens vem beber dizendo
- estou no meu lugar
abissal
incolor inodora insípida
a solidão
mas não se pode mudar um poço
o poço é a sua água
o coaxar dos seus sapos
o furo negro que alcança profundezas
abismo, redondo, estreito, escuro, fértil
o poço tem água viva
e os homens vem beber dizendo
- estou no meu lugar
∞
abissal
incolor inodora insípida
a solidão
nuvens
há uma curva na paisagem
tão bela, por que não?
medo de errar
de ser inoportuno
rasga o tempo do agora
com suas possibilidades remotas
ou vistas pelo desejo alerta
é uma bela curva na passagem
só temos agora para escrever
para fazer essa foto
de uma luz com sua sombra
projetando cintilância
tão bela, por que não?
medo de errar
de ser inoportuno
rasga o tempo do agora
com suas possibilidades remotas
ou vistas pelo desejo alerta
é uma bela curva na passagem
só temos agora para escrever
para fazer essa foto
de uma luz com sua sombra
projetando cintilância
∞
é a serra que faz cócegas na nuvem
dedinho tic tic tic
uma criança nuvem
na lembrança da criança
seu dedo brincalhão
fazendo cócegas nas vontades
sinceras ou não
vistas em vão
escalar nuvens cada vez mais altas
astrais
onde paira a lua cheia
novo ciclo
novo ciclo
insisto em circular
nos escritos
insisto em circular
nos escritos
∞
uma ideia leva a outra
vemos aqui a superfície de inscrição
é favorável ter onde ir
uma ideia lava a outra
terça-feira, 11 de fevereiro de 2014
quinta-feira, 6 de fevereiro de 2014
Janaína
sem eu te esperar
veio até mim
como uma onda interna
traz uma flor pequena
eu mesma te segurei
te aparei para não despencares
fruto maduro
com a cabeça para baixo
eu estava sentada
você veio
com tamanha naturalidade
para minha surpresa
teu corpo pequenino
na superfície de minha pele
buscou o seio
aquele sangue que manchara a roupa
não era lua minguante
era cheia
e apesar de não haver compreendido
a fluidez com que veio
mostrara-me a força das águas
Janaína
veio até mim
como uma onda interna
traz uma flor pequena
eu mesma te segurei
te aparei para não despencares
fruto maduro
com a cabeça para baixo
eu estava sentada
você veio
com tamanha naturalidade
para minha surpresa
teu corpo pequenino
na superfície de minha pele
buscou o seio
aquele sangue que manchara a roupa
não era lua minguante
era cheia
e apesar de não haver compreendido
a fluidez com que veio
mostrara-me a força das águas
Janaína
Janaína
sonhei que dançava para ti
cantava músicas e chamadas
numa casa de praia
via o dia nascer
procurei onde dormir
mas estava desgarrada
Janaína
sonho com teu mistério
e acordo na praia daqui
a onda revirando resíduos
do que somos
do que está por vir
de nós
pobres ingratos
cantava músicas e chamadas
numa casa de praia
via o dia nascer
procurei onde dormir
mas estava desgarrada
Janaína
sonho com teu mistério
e acordo na praia daqui
a onda revirando resíduos
do que somos
do que está por vir
de nós
pobres ingratos
lição
queria pegar uma flor
para fazê-la secar
e assim guardá-la
a criança sugeriu
― tia, deixa a florzinha cair
para fazê-la secar
e assim guardá-la
a criança sugeriu
― tia, deixa a florzinha cair
∞
a mulher queria
a mulher queria
guardar borboletas em livros
a tia sugeriu-lhe
― ô dona, deixa a borboleta morrer
o bicho
o bicho da goiaba é a goiaba
o bicho da mente é a mente
o bicho da gente é a gente
o bicho não mente
é o que é
sua parte
que mexe
enoja
às vezes nos faz
jogar a fruta fora
a fruta que a planta nos deu
porque a aguamos
mas não reconhecemos agora
o bicho da mente é a mente
o bicho da gente é a gente
o bicho não mente
é o que é
sua parte
que mexe
enoja
às vezes nos faz
jogar a fruta fora
a fruta que a planta nos deu
porque a aguamos
mas não reconhecemos agora
quinta-feira, 30 de janeiro de 2014
sábado, 25 de janeiro de 2014
rolezinhos etc e tal
"vai procurar emprego!",
"eu ganho bem pra caralho",
"shopping não é lugar de manifestação não, é perigoso pra todo mundo, isso pode de repente virar uma bagunça generalizada",
"só quer bagunça, só quer aparecer",
“existe um plano, sim! Pode botar aí. Existe um plano de ocupação comunista, totalitarista no país! Será que ninguém quer ver isso?”
"eu ganho bem pra caralho",
"shopping não é lugar de manifestação não, é perigoso pra todo mundo, isso pode de repente virar uma bagunça generalizada",
"só quer bagunça, só quer aparecer",
“existe um plano, sim! Pode botar aí. Existe um plano de ocupação comunista, totalitarista no país! Será que ninguém quer ver isso?”
terça-feira, 21 de janeiro de 2014
eu atrabalho
você não tem tempo para mim
apenas pro trabalho
eu não dou trabalho
não trabalho
não sou trabalho
eu atrabalho
eu sou o tempo desviado da flecha
que atinge tua testa qualquer hora dessas
na hora que você vê que eu não existo
na hora que eu desisto
de mostrar algum eu
desnecessário
eu atrabalho
apenas pro trabalho
eu não dou trabalho
não trabalho
não sou trabalho
eu atrabalho
eu sou o tempo desviado da flecha
que atinge tua testa qualquer hora dessas
na hora que você vê que eu não existo
na hora que eu desisto
de mostrar algum eu
desnecessário
eu atrabalho
domingo, 19 de janeiro de 2014
devir
um passarinho cantou no galho
pertinho de onde construiremos nossa casa
que já está conosco aqui
neste chão
próximos a portais
nos quais adentramos
para conhecer nossa morada
pertinho de onde construiremos nossa casa
que já está conosco aqui
neste chão
próximos a portais
nos quais adentramos
para conhecer nossa morada
segunda-feira, 6 de janeiro de 2014
ataques
- novamente pra cima deles, é ônibus, é polícia, é bombeiro, é tudinho, tá ligado?
- mãe, não vai pegar ônibus nem hoje nem amanhã.
vai rolar uma chacina em São Luís hoje.
- o Maranhão está melhor e bem estruturado.
- mãe, não vai pegar ônibus nem hoje nem amanhã.
vai rolar uma chacina em São Luís hoje.
- o Maranhão está melhor e bem estruturado.
domingo, 5 de janeiro de 2014
viagem ao Acre
o que eu pensava ser a lua
era o sol se pondo no céu já escuro
na beira da praia de rio um acreano
era o sol se pondo no céu já escuro
na beira da praia de rio um acreano
sábado, 4 de janeiro de 2014
espaço velho ex passo novo
numa duna de areia molhada
choveu e ninguém viu nada
nela, uma cabana de teto de palha
nela, um urubu adianta o olhar sobre nós
vimos o lixo no mar do ano novo
ele viu nossa carne morta viva
água escura no mar que era claro
só vimos porque desejamos mergulhar
se não, o contrário, rosto virado
e é claro
o mar é o mesmo daquele que é turvo
do mangue do norte ou das correntes frias
do putrefato condomínio zona sul
de um lugar dito civilizado
ontem a noite
pedalando entre cidades do mundo velho
constatei e vi
por lá tudo já desmoronou
cidades memórias por onde nos perdemos
por onde já perdemos
e se queremos ser como elas
digo que já já conseguiremos
no tempo mal medido da ultrapassagem
o caminhão do agora atropela o que seremos
calor escorre pela nossa virilha
sabemos que fodemos o espaço
estamos rindo de desespero
comprando décimos presentes terceiros
quentes ofertas parceladas no frescor do ar condicionado
e é quente o sangue que escorre do preso decapitado
vira fogo vira bala
vira nosso medo da barbárie
que não queremos acreditar
que já vivemos
já que vivemos
é quente e pega fogo
choveu e ninguém viu nada
nela, uma cabana de teto de palha
nela, um urubu adianta o olhar sobre nós
vimos o lixo no mar do ano novo
ele viu nossa carne morta viva
água escura no mar que era claro
só vimos porque desejamos mergulhar
se não, o contrário, rosto virado
e é claro
o mar é o mesmo daquele que é turvo
do mangue do norte ou das correntes frias
do putrefato condomínio zona sul
de um lugar dito civilizado
ontem a noite
pedalando entre cidades do mundo velho
constatei e vi
por lá tudo já desmoronou
cidades memórias por onde nos perdemos
por onde já perdemos
e se queremos ser como elas
digo que já já conseguiremos
no tempo mal medido da ultrapassagem
o caminhão do agora atropela o que seremos
calor escorre pela nossa virilha
sabemos que fodemos o espaço
estamos rindo de desespero
comprando décimos presentes terceiros
quentes ofertas parceladas no frescor do ar condicionado
e é quente o sangue que escorre do preso decapitado
vira fogo vira bala
vira nosso medo da barbárie
que não queremos acreditar
que já vivemos
já que vivemos
é quente e pega fogo
∞
poderia ter sido outro, mas é esse o poema ano novo
sábado, 21 de dezembro de 2013
prece
senhor, livrai-me do fundamentalismo
senhora, livrai-me da modulação
senhores e senhoras, afirmo
livre
senhora, livrai-me da modulação
senhores e senhoras, afirmo
livre
domingo, 8 de dezembro de 2013
cabisbaixo
abismo do ser que afunda em si e respira da água de si próprio
linfa que enche pulmões, caixões, vivos e mortos
fantasmas ets etc
disfarçados em brinquedos da China
lacrados que chegam na maré na praia
embutidos que chegam ao estômago
nossa incapacidade de ser capaz de ser
as mangas grandes, verdes
são arremessadas violentamente contra o chão
pela tempestade
o cheiro azedo chegou na memória
com sal e pimenta do reino
nossa incapacidade de ser capaz de ser
as mangas grandes, verdes
são arremessadas violentamente contra o chão
pela tempestade
o cheiro azedo chegou na memória
com sal e pimenta do reino
domingo, 24 de novembro de 2013
passo nublado
hoje o dia está nublado
e por isso mesmo vou dançar
no cinza da sua frustração
da minha comoção ou revolta
reviravolta sempre aqui num passo só
que cai e levanta e que sai pelas portas
tá tudo aí
fogo do sol e fogo da usina
uma desnecessária placa de localização
nesse jamais localizável
vou dançar porque só me resta
fazer uma música de corpo
da decepção de cada um
do que consegui avistar
e por isso mesmo vou dançar
no cinza da sua frustração
da minha comoção ou revolta
reviravolta sempre aqui num passo só
que cai e levanta e que sai pelas portas
tá tudo aí
fogo do sol e fogo da usina
uma desnecessária placa de localização
nesse jamais localizável
vou dançar porque só me resta
fazer uma música de corpo
da decepção de cada um
do que consegui avistar
terça-feira, 12 de novembro de 2013
quarta-feira, 6 de novembro de 2013
imagem
comportada como uma imagem
cai e quebrei
vaso chinês
manchei minha roupa
com água sanitária
pra nunca mais ser a mesma
cai e quebrei
vaso chinês
manchei minha roupa
com água sanitária
pra nunca mais ser a mesma
domingo, 27 de outubro de 2013
lambendo ferida
é preciso lamber a própria ferida
curar o apego da vida
num só golpe compassado
e compassivo
lamber como lambe o cachorro
não apenas a sua ferida
mas a do outro que sangra
curar o apego da vida
num só golpe compassado
e compassivo
lamber como lambe o cachorro
não apenas a sua ferida
mas a do outro que sangra
manguinhas
o vendaval da noite
derrubou as manguinhas
antes de tornarem-se frutas
grandes e comestíveis
as folhas secas também caíram
outras equilibraram-se entre as folhas verdes
acordei muitas vezes de um sono exaltado
ao som do vento e das mangas arremessadas
por ele escolhidas para tocar o chão
o amor de quem está ao lado
mais valioso que qualquer ilusão
o vento desprende e arremessa
o que não se atém com firmeza
digo, pois, que o vendaval
traz consigo a mensagem
da beleza
da solidão
da tormenta
da louvação
da tristeza
da gratidão
a tudo que cai
assim recebe o chão
e do chão
não passa
raio
estrondou
e eu estava dormindo
acordei correndo
com a perna bamba
com o coração palpitando
com o impacto alojado no umbigo
acordei com o raio que caiu
na casa do vizinho
e que locomoveu minhas placas sísmicas
e eu estava dormindo
acordei correndo
com a perna bamba
com o coração palpitando
com o impacto alojado no umbigo
acordei com o raio que caiu
na casa do vizinho
e que locomoveu minhas placas sísmicas
segunda-feira, 14 de outubro de 2013
escuto a mor
escuto nossa história
do que já foi já é
nossa estória a se criar
acordes no dicionário
e os que escapam quando pode
nosso amanhecer e nosso norte
a se pôr
nossa morte
a mor
te
surge
nu
princípio
cru
da sorte
do que já foi já é
nossa estória a se criar
acordes no dicionário
e os que escapam quando pode
nosso amanhecer e nosso norte
a se pôr
nossa morte
a mor
te
surge
nu
princípio
cru
da sorte
terça-feira, 24 de setembro de 2013
vulnerável
precisava mesmo dessa situação
pra experimentar
total vulnerabilidade
cair o chão
precisava mesmo
transbordar minhas bordas
pra experimentar
total vulnerabilidade
cair o chão
e assombrar minhas sombras
precisava mesmo
transbordar minhas bordas
sexta-feira, 20 de setembro de 2013
Inhotim
como
o som da terra
pode ser
arte contemporânea
*
popular
arte contemporânea
*
o som da terra é o som do espaço
intervalo tantos metros abaixo
microfones
*
slogan
Brasil
Um país de todos
País rico é país em pobreza
Em Inhotim
*
o som da terra
pode ser
arte contemporânea
*
popular
arte contemporânea
*
o som da terra é o som do espaço
intervalo tantos metros abaixo
microfones
*
slogan
Brasil
Um país de todos
País rico é país em pobreza
Em Inhotim
*
os cavalos de Paquetá
dizem que vão acabar com as charretes da ilha
os cavalos estão magros e doentes
nem são cavalos
já pegamos a ferradura
que caiu na praia da moreninha
denúncia de vizinho
problema na medula
eutanásia
senhores sentados nas charretes
para onde vão
os cavalos
os cavalos estão magros e doentes
nem são cavalos
já pegamos a ferradura
que caiu na praia da moreninha
denúncia de vizinho
problema na medula
eutanásia
senhores sentados nas charretes
para onde vão
os cavalos
bebê
um bebezinho dura tão pouco
três ou seis meses, talvez
aquele que a mãe enrola num paninho
aquele que some rápido
aquele que é só lembrança
ou uma foto, depois
um bebê dura tão pouco
resta a criança que se comunica
o adulto que fecha os olhos
os olhos de súplica do bebê
some diante do mundo
só em certas ocasiões retoma
nessas não há mais a mãe
três ou seis meses, talvez
aquele que a mãe enrola num paninho
aquele que some rápido
aquele que é só lembrança
ou uma foto, depois
um bebê dura tão pouco
resta a criança que se comunica
o adulto que fecha os olhos
os olhos de súplica do bebê
some diante do mundo
só em certas ocasiões retoma
nessas não há mais a mãe
terça-feira, 17 de setembro de 2013
à saber
o que eu sei é bem pouquinho
o que eu sei é pequenino
o que eu sei vai morrer
daqui à pouco
com o que eu sou
o que eu sei
esqueci
pois tô morrendo agora mesmo
o que eu sei é pequenino
o que eu sei vai morrer
daqui à pouco
com o que eu sou
o que eu sei
esqueci
pois tô morrendo agora mesmo
mangueira
das flores da mangueira
brotam pequenas esmeraldas
venho vendo
e ouvi
o primeiro canto de pássaro na madrugada
uma única e isolada nota
enquanto as manguinhas cresciam
diante dos homens incrédulos
*
teus olhos de presa capturada
pelo meu olhar
que jamais se ausenta
mesmo ferido ou lacrado
brotam pequenas esmeraldas
venho vendo
e ouvi
o primeiro canto de pássaro na madrugada
uma única e isolada nota
enquanto as manguinhas cresciam
diante dos homens incrédulos
*
teus olhos de presa capturada
pelo meu olhar
que jamais se ausenta
mesmo ferido ou lacrado
domingo, 8 de setembro de 2013
passeio São Luís
Bueiro
a água merda do bueiro
da praia grande
sai pela boca
do grito da cracolância
vizinha do convento das mercês
sem pudor
alguém se banha
lava sua roupa ali
de onde avista
o sol se por
ponta do bom fim
eu quero é olhar pro lado
ver o que está
movimento rua vazia
a cruz da casa da festa
luz úmida âmbar
os caixões e os cultos
aquela rua das casas dos militares
com seus enfeites de natal
com o guardinha na porta
antes de virar
pro São Marçal
com seu olhar penoso
uma mão pedindo
outra segurando o cajado
assim é
o meio fio todo quebrado
a água merda do bueiro
da praia grande
sai pela boca
do grito da cracolância
vizinha do convento das mercês
sem pudor
alguém se banha
lava sua roupa ali
de onde avista
o sol se por
ponta do bom fim
∞
Tombo
a ponta da ponta d'areia
virou península
golpe de marketing
quebra mar
merda de rico na baía
Olhar cidade
ver o que está
movimento rua vazia
a cruz da casa da festa
luz úmida âmbar
os caixões e os cultos
aquela rua das casas dos militares
com seus enfeites de natal
com o guardinha na porta
antes de virar
pro São Marçal
com seu olhar penoso
uma mão pedindo
outra segurando o cajado
assim é
o meio fio todo quebrado
pintado de branco cal
minhas palavras nesse meio fio
a rua com um poste de luz de um lado
e um poste de câmera de outro
minhas palavras quebradas
minha amiga que vigia as câmeras
cada dia mais longe do perto
por um fio
minhas palavras nesse meio fio
a rua com um poste de luz de um lado
e um poste de câmera de outro
minhas palavras quebradas
minha amiga que vigia as câmeras
cada dia mais longe do perto
por um fio
∞
Canto cagado
canto cagado da ágora do Odylo
canto cagado da vida
canto cagado da festa
canto cagado da festa
canto cagado da rua
canto mijado
canto pichado
canto liberdade
canto anarquia
canto despacho
canto
terça-feira, 3 de setembro de 2013
sexta-feira, 30 de agosto de 2013
terça-feira, 27 de agosto de 2013
não sei nadar
eu estava em alto mar
mas não sei nadar
sou filha de Iemanjá
e não sei nadar
rainha da pedra-mar
eu não sei nadar
só boiar
para salvar
tão profunda e pesada
eu tento e não consigo
eu não sei nadar
rainha dos meus sonhos
tão leve e densa
não sei
nada r
mas não sei nadar
sou filha de Iemanjá
e não sei nadar
rainha da pedra-mar
eu não sei nadar
só boiar
para salvar
eu tento e não consigo
eu não sei nadar
rainha dos meus sonhos
tão leve e densa
não sei
nada r
sexta-feira, 23 de agosto de 2013
anotações
meu caderno acabou
acabaram as folhas brancas
encheu
lotou
folhas amarelas talvez
seu computador apagou
morreu
sobrou
a caneta tá falhando
a memória se perdendo
a morte de agora
resistir no contrafluxo
acabaram as folhas brancas
encheu
lotou
folhas amarelas talvez
seu computador apagou
morreu
sobrou
a caneta tá falhando
a memória se perdendo
a morte de agora
resistir no contrafluxo
domingo, 18 de agosto de 2013
pergunta
o que queremos com as imagens
o que queremos delas
o que queremos nelas
o que sabemos delas
o que somos nelas
o que somos delas
o quê?
o que queremos delas
o que queremos nelas
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