quarta-feira, 5 de março de 2014

novo ciclo

novo ciclo
insisto em circular
nos escritos

∞

uma ideia leva a outra
vemos aqui a superfície de inscrição

é favorável ter onde ir

uma ideia lava a outra

terça-feira, 11 de fevereiro de 2014

quinta-feira, 6 de fevereiro de 2014

Janaína

sem eu te esperar
veio até mim
como uma onda interna
traz uma flor pequena

eu mesma te segurei
te aparei para não despencares
fruto maduro
com a cabeça para baixo

eu estava sentada
você veio
com tamanha naturalidade
para minha surpresa

teu corpo pequenino
na superfície de minha pele
buscou o seio

aquele sangue que manchara a roupa
não era lua minguante
era cheia

e apesar de não haver compreendido
a fluidez com que veio
mostrara-me a força das águas

Janaína

Janaína

sonhei que dançava para ti
cantava músicas e chamadas
numa casa de praia
via o dia nascer
procurei onde dormir
mas estava desgarrada

Janaína
sonho com teu mistério
e acordo na praia daqui
a onda revirando resíduos
do que somos
do que está por vir
de nós
pobres ingratos


lição

queria pegar uma flor
para fazê-la secar
e assim guardá-la

a criança sugeriu

― tia, deixa a florzinha cair

∞

a mulher queria
guardar borboletas em livros

a tia sugeriu-lhe

― ô dona, deixa a borboleta morrer

o bicho

o bicho da goiaba é a goiaba
o bicho da mente é a mente
o bicho da gente é a gente

o bicho não mente
é o que é

sua parte
que mexe
enoja

às vezes nos faz
jogar a fruta fora

a fruta que a planta nos deu
porque a aguamos
mas não reconhecemos agora


sábado, 25 de janeiro de 2014

rolezinhos etc e tal

"vai procurar emprego!",
"eu ganho bem pra caralho",
"shopping não é lugar de manifestação não, é perigoso pra todo mundo, isso pode de repente virar uma bagunça generalizada",
"só quer bagunça, só quer aparecer",
“existe um plano, sim! Pode botar aí. Existe um plano de ocupação comunista, totalitarista no país! Será que ninguém quer ver isso?”



terça-feira, 21 de janeiro de 2014

eu atrabalho

você não tem tempo para mim
apenas pro trabalho

eu não dou trabalho
não trabalho
não sou trabalho

eu atrabalho

eu sou o tempo desviado da flecha
que atinge tua testa qualquer hora dessas

na hora que você vê que eu não existo
na hora que eu desisto
de mostrar algum eu
desnecessário

eu atrabalho

domingo, 19 de janeiro de 2014

devir

um passarinho cantou no galho
pertinho de onde construiremos nossa casa
que já está conosco aqui
neste chão

próximos a portais
nos quais adentramos
para conhecer nossa morada



segunda-feira, 6 de janeiro de 2014

ataques

- novamente pra cima deles, é ônibus, é polícia, é bombeiro, é tudinho, tá ligado?

- mãe, não vai pegar ônibus nem hoje nem amanhã.
vai rolar uma chacina em São Luís hoje.

- o Maranhão está melhor e bem estruturado.

domingo, 5 de janeiro de 2014

viagem ao Acre

o que eu pensava ser a lua
era o sol se pondo no céu já escuro
na beira da praia de rio um acreano

sábado, 4 de janeiro de 2014

espaço velho ex passo novo

numa duna de areia molhada
choveu e ninguém viu nada
nela, uma cabana de teto de palha
nela, um urubu adianta o olhar sobre nós

vimos o lixo no mar do ano novo
ele viu nossa carne morta viva
água escura no mar que era claro
só vimos porque desejamos mergulhar
se não, o contrário, rosto virado

e é claro
o mar é o mesmo daquele que é turvo
do mangue do norte ou das correntes frias
do putrefato condomínio zona sul
de um lugar dito civilizado

ontem a noite
pedalando entre cidades do mundo velho
constatei e vi

por lá tudo já desmoronou
cidades memórias por onde nos perdemos
por onde já perdemos
e se queremos ser como elas
digo que já já conseguiremos
no tempo mal medido da ultrapassagem
o caminhão do agora atropela o que seremos

calor escorre pela nossa virilha
sabemos que fodemos o espaço
estamos rindo de desespero
comprando décimos presentes terceiros
quentes ofertas parceladas no frescor do ar condicionado
e é quente o sangue que escorre do preso decapitado
vira fogo vira bala
vira nosso medo da barbárie
que não queremos acreditar
que já vivemos
já que vivemos
é quente e pega fogo


∞
poderia ter sido outro, mas é esse o poema ano novo



sábado, 21 de dezembro de 2013

prece

senhor, livrai-me do fundamentalismo
senhora, livrai-me da modulação
senhores e senhoras, afirmo
livre

domingo, 8 de dezembro de 2013

torpor





cabisbaixo

abismo do ser que afunda em si e respira da água de si próprio
linfa que enche pulmões, caixões, vivos e mortos
fantasmas  ets  etc
disfarçados em brinquedos da China
lacrados que chegam na maré na praia
embutidos que chegam ao estômago
nossa incapacidade de ser capaz de ser

as mangas grandes, verdes
são arremessadas violentamente contra o chão
pela tempestade

o cheiro azedo chegou na memória
com sal e pimenta do reino







domingo, 24 de novembro de 2013

passo nublado

hoje o dia está nublado
e por isso mesmo vou dançar
no cinza da sua frustração
da minha comoção ou revolta
reviravolta sempre aqui num passo só

que cai e levanta e que sai pelas portas

tá tudo aí
fogo do sol e fogo da usina
uma desnecessária placa de localização
nesse jamais localizável

vou dançar porque só me resta
fazer uma música de corpo
da decepção de cada um
do que consegui avistar


terça-feira, 12 de novembro de 2013

quarta-feira, 6 de novembro de 2013

imagem

comportada como uma imagem
cai e quebrei
vaso chinês
manchei minha roupa
com água sanitária
pra nunca mais ser a mesma

domingo, 27 de outubro de 2013

lambendo ferida

é preciso lamber a própria ferida
curar o apego da vida

num só golpe compassado
e compassivo

lamber como lambe o cachorro

não apenas a sua ferida

mas a do outro que sangra

manguinhas

o vendaval da noite
derrubou as manguinhas
antes de tornarem-se frutas
grandes e comestíveis
as folhas secas também caíram
outras equilibraram-se entre as folhas verdes

acordei muitas vezes de um sono exaltado
ao som do vento e das mangas arremessadas
por ele escolhidas para tocar o chão

o amor de quem está ao lado
mais valioso que qualquer ilusão

o vento desprende e arremessa
o que não se atém com firmeza
digo, pois, que o vendaval
traz consigo a mensagem
da beleza
da solidão
da tormenta
da louvação
da tristeza
da gratidão

a tudo que cai
assim recebe o chão

e do chão
não passa



raio

estrondou
e eu estava dormindo
acordei correndo
com a perna bamba
com o coração palpitando
com o impacto alojado no umbigo

acordei com o raio que caiu
na casa do vizinho
e que locomoveu minhas placas sísmicas

segunda-feira, 14 de outubro de 2013

escuto a mor

escuto nossa história
do que já foi já é
nossa estória a se criar
acordes no dicionário
e os que escapam quando pode
nosso amanhecer e nosso norte
a se pôr
nossa morte


a mor
te
surge
nu
princípio
cru
da sorte

terça-feira, 24 de setembro de 2013

vulnerável

precisava mesmo dessa situação
pra experimentar
total vulnerabilidade

cair o chão
e assombrar minhas sombras

precisava mesmo
transbordar minhas bordas




sexta-feira, 20 de setembro de 2013

Inhotim

como
o som da terra
pode ser
arte contemporânea

*

popular
arte contemporânea

*

o som da terra é o som do espaço
intervalo tantos metros abaixo
microfones

*

slogan

Brasil
Um país de todos
País rico é país em pobreza

Em Inhotim

*


os cavalos de Paquetá

dizem que vão acabar com as charretes da ilha
os cavalos estão magros e doentes
nem são cavalos

já pegamos a ferradura
que caiu na praia da moreninha

denúncia de vizinho
problema na medula
eutanásia

senhores sentados nas charretes
para onde vão
os cavalos


fato

de fato
onde está o seu tesouro
aí estará o seu coração

bebê

um bebezinho dura tão pouco
três ou seis meses, talvez

aquele que a mãe enrola num paninho
aquele que some rápido
aquele que é só lembrança
ou uma foto, depois

um bebê dura tão pouco
resta a criança que se comunica
o adulto que fecha os olhos

os olhos de súplica do bebê
some diante do mundo

só em certas ocasiões retoma
nessas não há mais a mãe

terça-feira, 17 de setembro de 2013

à saber

o que eu sei é bem pouquinho
o que eu sei é pequenino
o que eu sei vai morrer

daqui à pouco
com o que eu sou

o que eu sei
esqueci
pois tô morrendo agora mesmo

mangueira

das flores da mangueira
brotam pequenas esmeraldas
venho vendo
e ouvi
o primeiro canto de pássaro na madrugada

uma única e isolada nota
enquanto as manguinhas cresciam
diante dos homens incrédulos

*

teus olhos de presa capturada
pelo meu olhar
que jamais se ausenta
mesmo ferido ou lacrado

domingo, 8 de setembro de 2013

passeio São Luís

Bueiro

a água merda do bueiro
da praia grande
sai pela boca
do grito da cracolância
vizinha do convento das mercês

sem pudor
alguém se banha
lava sua roupa ali
de onde avista
o sol se por

ponta do bom fim





∞

Tombo


a ponta da ponta d'areia
virou península

golpe de marketing
quebra mar

merda de rico na baía


∞

Olhar cidade

eu quero é olhar pro lado
ver o que está
movimento rua vazia
a cruz da casa da festa
luz úmida âmbar

os caixões e os cultos
aquela rua das casas dos militares
com seus enfeites de natal
com o guardinha na porta
antes de virar
pro São Marçal

com seu olhar penoso
uma mão pedindo
outra segurando o cajado

assim é
o meio fio todo quebrado
pintado de branco cal
minhas palavras nesse meio fio

a rua com um poste de luz de um lado
e um poste de câmera de outro
minhas palavras quebradas
minha amiga que vigia as câmeras

cada dia mais longe do perto
por um fio

∞

Canto cagado

canto cagado da ágora do Odylo
canto cagado da vida
canto cagado da festa
canto cagado da rua
canto mijado
canto pichado
canto liberdade
canto anarquia
canto despacho
canto




terça-feira, 3 de setembro de 2013

terça-feira, 27 de agosto de 2013

não sei nadar

eu estava em alto mar
mas não sei nadar
sou filha de Iemanjá
e não sei nadar

rainha da pedra-mar
eu não sei nadar

só boiar
para salvar

tão profunda e pesada
eu tento e não consigo
eu não sei nadar
rainha dos meus sonhos
tão leve e densa

não sei
nada r

sexta-feira, 23 de agosto de 2013

anotações

meu caderno acabou
acabaram as folhas brancas
encheu
lotou
folhas amarelas talvez
seu computador apagou
morreu
sobrou
a caneta tá falhando
a memória se perdendo
a morte de agora
resistir no contrafluxo

domingo, 18 de agosto de 2013

pergunta

o que queremos com as imagens
o que queremos delas
o que queremos nelas
o que sabemos delas
o que somos nelas
o que somos delas
o quê?

sexta-feira, 26 de julho de 2013

Reserva da Ilha

a reserva da ilha
é um shopping
um espaço privado para shows
um condomínio de luxo

na ilha de São Luís
a reserva aterra
o que sobra do mangue











e ventos do céu

não subestime o que vem
do céu
chuva cai em Guaratiba
e a luz de Deus em Copa
é o strobo

não subestime o que vem 
da terra
a lama
no campo da fé
do aterro aberto sobre o mangue

não subestime 
a luz de Deus na mata fechada
um estrondo interior

quarta-feira, 3 de julho de 2013

turbilhão

no meio do turbilhão
fiquei até vesgo
no olho do furacão

tudo está acontecendo
estando ou sendo
assim será

meu grito surdo
ou estridente
um grito sobrepondo outros





quinta-feira, 20 de junho de 2013

selvageria das imagens

carcomendo nosso calcanhar
fina lâmina de papel
corte fino que arde
bem pequeno corte fino
as insensatas passam na nossa cara
sobrevoando pensamentos
na direção dos nossos olhos
nos ensinam do possível e do improvável
carcomendo nosso calcanhar
selvageria das imagens

sábado, 15 de junho de 2013

espuma branca

estou vendo
é do meu tempo
o mar, o ar, a baía
com sedimentos
cisco no olho
olho
confisco
memória
devir

a criança parada em frente ao mar
fala dos peixes que nunca viu por ali

oxalá
espuma branca

banho de mar
banho de sal grosso

é cheiro de maresia
o tempo tá virando

o tempo é de agora
da lembrança que nunca vimos
do desgosto

oxalá
chegue logo
espuma branca

sábado, 25 de maio de 2013

planta da casa

me esforço para lembrar do meu sonho
minha casa
frente de taipa bem refinada
piso vermelho, barato, encerado
cuidadosamente por minha amada
um corredor com uma mesa bagunçada
nosso quarto, minha rede
a cozinha, a melhor parte
o quarto dos meninos sempre bagunçado
o banheiro a direita
a porta pro quintal
o abacateiro, o galinheiro
uma escada encostada na parede

não quero fotografias
que apareçam os defuntos que somos
não quero que ninguém guarde minha poesia
nada me tratá de volta suas mãos

você não sabe sentir minha dor de perto
incapaz de vivê-la
em vão desperto na frente da casa
com jardins de plantas roubadas
pequenos galhos que pegaram

sua ladra de plantas!

Carniça

A carniça chega na praia
veio numa ondinha despretensiosa
reúne pombos, garças e urubus
preta com cheiro de peixe

chegam cachorros correndo ao seu encontro
e fazem todos voar

a carniça deliciosa
chega
na ondina

.


A carniça chegou por um telefonema
a dor dos ombros meus
a dor dos ombros do meu pai
a desesperança da minha mãe
a apreensão da minha irmã
o vazio nos meus irmãos
o consolo do pobre cão inocente

cheira e come carniça
se esfrega nela com tamanha paixão
prazer de fugir para ir ao seu encontro

A carniça se decompõe
é consumida
fede e nos incomoda
nos dá nojo
é assombrosa

A carniça é deliciosa
chega
na ondina

quinta-feira, 23 de maio de 2013

solo

por que faço isso agora
o que justifica meu ato
meu inato
atoado
à toa
à-toa
à

quinta-feira, 2 de maio de 2013

prove

prove que você não é uma máquina

agora

quero que você me entenda
com meia palavra
sem eu precisar dizer muito
com silêncio
pelo olhar
pela distância
por telepatia
quero que você entenda

segunda-feira, 15 de abril de 2013

estudos do corpo

eu sei do meu corpo mais do que qualquer médico
eu sei porque é o meu corpo que me encobre
eu sei
não sei
esqueci
como é que faz pra saber
do próprio corpo

*


um frio na costa vem da porta entreaberta
enquanto escuto sua voz de índia
velhinha enrugada me embala
não é um assobio
tem a língua no meio o canto
eu posso mostrar pra vocês
o canto da cobra entre a língua e o dente
cobras sobem pelo braço
cobra te engole

não espere nada que explique

podes crer



motor viril motor

quem tem motor vai querer avançar
seja qual for a potência
o impotente vai querer ultrapassar
vai passar de raspão
vai atropelar
seja ela qual for a máquina
virilidade frouxa
vai mais que você
que todos nós juntos
motor viril motor

sábado, 13 de abril de 2013

intervalo

precisamos de intervalo
pra que ela chegue
prenhe
poesia

*

ainda bem que você chegou
ainda bem
...

sexta-feira, 5 de abril de 2013

paquetá

o som do motor
do barco
lá longe
avião, cachorros e pássaros
bem perto
o som da maré
em resposta ao motor do barco
resposta ao vento
gaivotas descem
do vento ao peixe
alguém passou na bicicleta
uma castanha
da castanheira
da praia dos coqueiros
caiu