segunda-feira, 3 de dezembro de 2012

vista de Paquetá

vejo o rio lá de longe
o pão de açúcar
a localização do cristo

mas não ele

vejo o que o rio não vê
no meio da baía
navios insavores
com sua água da lastro
na nossa água
os rastros de todos nós
e de quem nem vive

anos de derrota
vejo o bico do papagaio
a merda branca das gaivotas
a nossa merda preta
flutuando no pet
depositada nas praias
com o desenho sincrônico da maré

nem na ponte
muito menos na vista mar
veriam o útero da baía

que sempre expele
a contento
sua placenta

aguardem
vejam



Chácara dos Coqueiros

corredor da Chácara dos Coqueiros
de um lado aquela mulher querendo passar
a cachorra do outro
atenta

ela tinha o rosto deformado
e a voz também não sabia bem da sua boca

ela queria sair só pela ilha
andar de tênis e bolsa a tiracolo

só ilha
a volta na Chácara dos Coqueiros
na revolta
armada
a volta até a praia das donzelas

a praia tá cheia de cachorro, dizia

a praia tá bem vazia, pensava

baixa a maré
escassa mulher
atenta cachorra
ao canto da garça
ao canto da Chácara

quinta-feira, 29 de novembro de 2012

violência

gole seco
galho seco
punho serrado
dedo apontado
voz alterada
não é resposta a nada

só é
violência

eles podem me agredir

eles podem surtar a qualquer momento
podemos nos quebrar a qualquer instante
como louça que despedaça em três pedaços

eu posso surtar a qualquer instante

onde eu achava ser mais calmo
é um poço da violência
chega ao centro da terra

lava
seca
petrifica

quinta-feira, 15 de novembro de 2012

Barca



Barca de Paquetá. Dois andares. Embaixo, na parte de trás, ficam os coroas jogando baralho; na parte da frente, a velha guarda paquetaense mais comportada. Em cima, lá fora, fumantes de todo tipo despistando o controle; na parte de trás é a bagunça, pessoas falando alto, tomando cerveja e comendo salgadinho; na parte da frente, os jovens mais comportados, alguns lendo, outros com notebook ou celular, alguns poucos estudam pra concurso.
Alguns dormem os 70 minutos do trajeto. Outros nunca deixam de olhar a baía de Guanabara.

*

martim afonso [poesia de bruno barata]

uns conversam
muitos de cabeça baixa, cochilam
caça-palavras
proa e convés
crianças correm,
velhos e compras.
o distinto senhor
fuma um cigarro
como disfarce de seu peido
aparatos e tecnologias
comunicando e distraindo

**

martim afonso
itapuca
ipanema
lagoa
vital brazil
expresso macaé


itaipu



brinquedos


palavrasletras de bruno barata

porta

uma criança chora na minha porta
querendo entrar
na casa que não é minha

o que eu faço com quem procura
com quem grita a inocência de menino?

um menino é um menino
é daquele que passar

passar é a tristeza do menino

a corda que arrebenta
pro lado mais fraco
é a própria tristeza do menino

gosto da sua letra bem contornada
de forma, em forma
mas a vida chora aos soluços do menino
indiferença da costa que se vira

quarta-feira, 14 de novembro de 2012

agora que te vi na minha frente
consigo reconhecer tua voz nas tuas palavras

agora que reconheci o ancestral
consigo ver a sua voz nas palavras

é agora
tudo está acontencendo


terça-feira, 23 de outubro de 2012

Deixa o índio vivo

Carta da comunidade Guarani-Kaiowá de Pyelito Kue/Mbarakay-Iguatemi-MS para o Governo e Justiça do Brasil

Nós (50 homens, 50 mulheres e 70 crianças) comunidades Guarani-Kaiowá originárias de tekoha Pyelito kue/Mbrakay, viemos através desta carta apresentar a nossa situação histórica e decisão definitiva diante de da ordem de despacho expressado pela Justiça Federal de Navirai-MS, conforme o processo nº 0000032-87.2012.4.03.6006, do dia 29 de setembro de 2012. Recebemos a informação de que nossa comunidade logo será atacada, violentada e expulsa da margem do rio pela própria Justiça Federal, de Navirai-MS.

Assim, fica evidente para nós, que a própria ação da Justiça Federal gera e aumenta as violências contra as nossas vidas, ignorando os nossos direitos de sobreviver à margem do rio Hovy e próximo de nosso território tradicional Pyelito Kue/Mbarakay. Entendemos claramente que esta decisão da Justiça Federal de Navirai-MS é parte da ação de genocídio e extermínio histórico ao povo indígena, nativo e autóctone do Mato Grosso do Sul, isto é, a própria ação da Justiça Federal está violentando e exterminado e as nossas vidas. Queremos deixar evidente ao Governo e Justiça Federal que por fim, já perdemos a esperança de sobreviver dignamente e sem violência em nosso território antigo, não acreditamos mais na Justiça brasileira. A quem vamos denunciar as violências praticadas contra nossas vidas? Para qual Justiça do Brasil? Se a própria Justiça Federal está gerando e alimentando violências contra nós.  Nós já avaliamos a nossa situação atual e concluímos que vamos morrer todos mesmo em pouco tempo, não temos e nem teremos perspectiva de vida digna e justa tanto aqui na margem do rio quanto longe daqui. Estamos aqui acampados a 50 metros do rio Hovy onde já ocorreram quatro mortes, sendo duas por meio de suicídio e duas em decorrência de espancamento e tortura de pistoleiros das fazendas.

Moramos na margem do rio Hovy há mais de um ano e estamos sem nenhuma assistência, isolados, cercado de pistoleiros e resistimos até hoje. Comemos comida uma vez por dia. Passamos tudo isso para recuperar o nosso território antigo Pyleito Kue/Mbarakay. De fato, sabemos muito bem que no centro desse nosso território antigo estão enterrados vários os nossos avôs, avós, bisavôs e bisavós, ali estão os cemitérios de todos nossos antepassados.

Cientes desse fato histórico, nós já vamos e queremos ser mortos e enterrados junto aos nossos antepassados aqui mesmo onde estamos hoje, por isso, pedimos ao Governo e Justiça Federal para não decretar a ordem de despejo/expulsão, mas solicitamos para decretar a nossa morte coletiva e para enterrar nós todos aqui.

Pedimos, de uma vez por todas, para decretar a nossa dizimação e extinção total, além de enviar vários tratores para cavar um grande buraco para  jogar e enterrar os nossos corpos. Esse é nosso pedido aos juízes federais. Já aguardamos esta decisão da Justiça Federal. Decretem a nossa morte coletiva Guarani e Kaiowá de Pyelito Kue/Mbarakay e enterrem-nos aqui. Visto que decidimos integralmente a não sairmos daqui com vida e nem mortos.

Sabemos que não temos mais chance em sobreviver dignamente aqui em nosso território antigo, já sofremos muito e estamos todos massacrados e morrendo em ritmo acelerado. Sabemos que seremos expulsos daqui da margem do rio pela Justiça, porém não vamos sair da margem do rio. Como um povo nativo e indígena histórico, decidimos meramente em sermos mortos coletivamente aqui. Não temos outra opção esta é a nossa última decisão unânime diante do despacho da Justiça Federal de Navirai-MS. 

Atenciosamente, Guarani-Kaiowá de Pyelito Kue/Mbarakay







Borzeguim, deixa as fraldas ao vento
E vem dançar
E vem dançar
Hoje é sexta-feira de manhã
Hoje é sexta-feira
Deixa o mato crescer em paz
Deixa o mato crescer
Deixa o mato
Não quero fogo, quero água
(deixa o mato crescer em paz)
Não quero fogo, quero água
(deixa o mato crescer)
Hoje é sexta-feira da paixão sexta-feira santa
Todo dia é dia de perdão
Todo dia é dia santo
Todo santo dia
Ah, e vem João e vem Maria
Todo dia é dia de folia
Ah, e vem João e vem Maria
Todo dia é dia
O chão no chão
O pé na pedra
O pé no céu
Deixa o tatu-bola no lugar
Deixa a capivara atravessar
Deixa a anta cruzar o ribeirão
Deixa o índio vivo no sertão
Deixa o índio vivo nu
Deixa o índio vivo
Deixa o índio
Deixa, deixa
Escuta o mato crescendo em paz
Escuta o mato crescendo
Escuta o mato
Escuta
Escuta o vento cantando no arvoredo
Passarim passarão no passaredo
Deixa a índia criar seu curumim
Vá embora daqui coisa ruim
Some logo
Vá embora
Em nome de Deus é fruta do mato
Borzeguim deixa as fraldas ao vento
E vem dançar
E vem dançar
O jacu já tá velho na fruteira
O lagarto teiú tá na soleira
Uirassu foi rever a cordilheira
Gavião grande é bicho sem fronteira
Cutucurim
Gavião-zão
Gavião-ão
Caapora do mato é capitão
Ele é dono da mata e do sertão
Caapora do mato é guardião
É vigia da mata e do sertão
(Yauaretê, Jaguaretê)
Deixa a onça viva na floresta
Deixa o peixe n'água que é uma festa
Deixa o índio vivo
Deixa o índio
Deixa
Deixa
Dizem que o sertão vai virar mar
Diz que o mar vai virar sertão
Deixa o índio
Dizem que o mar vai virar sertão
Diz que o sertão vai virar mar
Deixa o índio
Deixa
Deixa

(Borzeguim, Tom Jobim)

facebook

queria atualizar meu status e colocar: poeta

Aqui

banho de sol vento de chuva
aqui tem um perfume delicioso de flor de laranjeira
de dama da noite, de jasmim

aqui tem vento de chuva na cara
quando andamos de bicicleta


aqui tem poeira ou lama

aqui tem pitomba, siriguela
aqui não tem mais as frutas daqui
aqui não tem mais água límpida
aqui a violência chegou na baía
aqui

segunda-feira, 22 de outubro de 2012

quem?

Ninguém mais quer vir pra Paquetá.

*

- Você não pode entrar na água, está suja!
- Ô mãe, então a gente veio pra Paquetá pra quê? Pra tirar foto?


quinta-feira, 18 de outubro de 2012

fim do ano

o ano não pode parar
tenho muito o que fazer
o mundo pode parar
o ano pode parar
tenho ainda o que fazer
tenho muito pouco o que fazer
tenho o mundo o ano tá acabando
hoje é quinta-feira
fim de outubro
bê erre ó bró
calor insuportável em Teresina
o mundo pode parar
o ano pode parar

lembranças

foi muito bom esse tempo que passamos
juntos

tiramos várias fotos de nós
futuros defuntos

o futuro que aos seus pertence
pertences

tá sendo bom esse tempo
que passamos

sábado, 13 de outubro de 2012

gritos

três gatos sentados na mesa de tampo de vidro
de madeira
pintados
com folhas de pavão, até, no peito

gritos
um dia foi assim:
estava na fila pra pagar quando aconteceu
agora gritos

pássaros, ah, os pássaros são relógios

as folhas de manga que eram meninas
claro verde esperto
cresceram tão rápido

foi essa cor de musgo que vi no ano novo
esse mesmo cinza de lombraslembranças

pequenas manguinhas penduradas
novas moças de peitos durinhos

gritos

sexta-feira, 28 de setembro de 2012

vou te dar só o que te faz sorrir

tu que não precisas saber de lamento
pois já viveste de tudo


vou te dar só o que te faz sorrir

tu que não precisas saber de lamento
pois já viveste de tudo

pouco vivi

pouco sei


como tu sabes

quinta-feira, 20 de setembro de 2012

Morro de fogo
um vulcão eclodindo como um ovo
lavas de luzes formam
um elefante medonho.

Quem tem medo daquele lugar?

Eu vi faces apavoradas
e espelho refletindo minha tensão.

Vimos a cidade de lá

como um outro universo
também eclodindo
fogos de ano novo
sinais de fogo
de um povo que precisa ver

enquanto lá, no seu topo
somente o vento frio reveste
os dois irmãos

separados

por zonas
nada mais categórico.

Lembro do meu corpo contraindo
como se estivesse com a febre da peste
o frio do pensamento
em movimentos involuntários

e ainda assim
descemos até o mar
para verificar sinais de ambundância para todos.

Os peixes que pulam do cardume
não tem dono algum
nem as gaivotas que espreitam
nem os olhos dos homens.

O coletivo mantém o uno
quando não é multidão.

Subimos o Apoador
uma pedra lunar
só
pra ver
até onde somos capazes de subir
e não montar em outros homens.

quarta-feira, 19 de setembro de 2012

para além das suas promessas
o que existe?
um prato triste de comida
que nem foste tu que preparaste
arrasta-te
e quem a abre a porta
para tua entrada
é tão ingênuo quanto tu
teus olhos ainda não abriram
colados por secreções preguiçosas
acredito naquele
que confessa não ter certeza
e que assume não saber

terça-feira, 18 de setembro de 2012

ciclos fechando
deixo o resto pra amanhã

se quebrar tudo hoje
amanhã nada quebra

ciclos se abrindo

música para domingo

"Minha ideologia é o nascer de cada dia
E minha religião é a luz na escuridão"
(Gilberto Gil)
a escolha
se colhe
na árvore

automutilação

a cada palavra que escrevo
cada imagem pensamento
olhar para o vento
parada para comer os cantos
dos dedos


automutilação


sangrandoa memória
não hesita

culpa
pena
impossibilita

qualquer conversa
consigo

é esperar a hora
e não ser chamado
precipita


zelo

cada canto da casa tem zelo
um pouco dessa pessoa
que se deposita em toda casa

*

sexta-feira, 14 de setembro de 2012

pontuações

em pouco tempo mudaram as pontuações
uma defasagem
uma aceleração
um caminhão sem mensagem na traseira


uma porta entreaberta
uma cachorra, uma ovelha
uma luz ligada

será que um velho morreu
e ninguém deu conta disso?

as contas continuam a chegar
como marcas de uma máquina impiedosa

uma velha, eu sou
com grafias e acentos antigos
marcados nas coisas

sábado, 8 de setembro de 2012


uma dança que cai
antes de avistar serenamente
a palma da mão
que cobre o rosto
que tomba no chão

quem são estas velhas
quem vem me segurar
e dizer quem eu sou?

um sino que toca
os rios que correm
o espelho é minha mão
que cobre o rosto

o espelho
elas dizem
é minha mãe

a chuva tá caindo mas o samba não pode parar

∞

ouvimos o pássaro sirene
por volta das 4
você se levanta
se afasta de mim


quando poderei me afastar de mim
antes de acordar
o quando do acordar do pássaro sirene


minhas forças da cama se unem às do pássaro sirene
todos os dias desde que notei sua existência
com você a marca da nossa cama
que se levanta antes de nós
a marca de nossa noite resoluta
o pássaro que vê o sol romper antes da aurora


nossas forças estão se unindo às da aurora


dos pássaros que não conhecemos o nome
mas reconhecemos o canto

sexta-feira, 7 de setembro de 2012

segunda a segunda

chegou o carro do gás
ele está na sua porta
não deixa o gás acabar

*

pooooooooooooooooooonnnnnnnnnn
uma pessoa corre pra pegar a barca
o portão se fecha
a mesma pessoa volta
andando lentamente

**

crianças banham na espuma preta
algumas catam siris e peixinhos
nas partes mais claras, igualmente sujas
crianças inventam suas brincadeiras




sexta-feira, 31 de agosto de 2012

não mexe no que tá quieto
que logo vai isalar
vai derramar
vai acasalar
não olhe pro lado
não tente limpar
que vai isalar
por todo lado
vão acasalar
os vermes da casa
vão procriar e derramar
pelos poros da preguiça
eles dormem, comem e gargalham
no meio do lixo que há
com pobres cães fétidos
companheiros fiés inocentes
compartilham vermes
gritos, bactérias e poeira
não mexe que a poeira sobe
e cega o olho
mediocridade
imundice

segunda-feira, 27 de agosto de 2012

carta

dias que não escrevo
pensei que pudesse haver
alguma coisa que justificasse
algum luto por vir
um pássaro que vôa baixo

pensei que esse silêncio é sísmico
e lembrei que havia muito tempo
que não limpava meus olhos

via você aparecendo no canto da sala
levantada de seu repouso imóvel
quase uma aleijada

você apareceu sutil
nem precisou entrar onde eu estava
apenas surgiu epifânica

eu sabia o que você queria
porque te conheço desde pequena
sabia que você veio me chamar para morrer
que precisava que eu rolasse no chão dos seus gemidos
um relâmpago vindo de dentro da terra, grunindo
você precisava escutar eu dizendo que poderia ir
não que isso fosse uma permissão
mas um crédito a nossa amizade
um mot de passe

transformada na minha primeira boneca
com o crânio cheio de alfinetes
trançado por finas linhas

tive a certeza que não mais respirava

pensei que sua cabeça poderia estar doendo
você que não suportava mais nem um toque de tamanha dor
aguentou o meu abraço
que dizia que você podia ir


(alguém descobriu essa cena por trás da porta
pegou-me no flagra com aquela boneca na mão
com o crânio perfurado por alfinetes)

sábado, 18 de agosto de 2012

absorção

caminho reto
dos 4 graus do equador
terreno com pequeno relevo
baixo verde claro meio cinza
de vegetação aberta palmeirinha
vibrando nos ventos alísios
no sol branco de todo dia
hora em que não se ofusca a vista
caminhando reto em direção dessa bola branca
com duas estrelas abaixo
mais uma lua nova emborcada por cima
caminhando reto cantando sentindo chegando
na rua que separa o que é do outro lado
montanha mata fechada subida fria
eremita coopta
enlevo

quarta-feira, 8 de agosto de 2012

armário

armário fechado
cheio daquilo que nem mais lembrava

daquela roupa de perfume mofado
da história mofada daquela carta
que dava pena

mas nem reli
foi direto pro lixo
junto com o tempo investido

pra arrumar o armário
precisei de três dias inteiros
e enormes cestos de lixo
pra acomodar o tempo vivido
revirado pelo mendigo da rua
que rasga os sacos em sua triagem
enxotado pelas donas das casas
o preto homem nas portas

dos armários
guardo o cheiro de mofo
a gaveta mais baixa
o compartimento mais alto
reservado para os itens mais nefastos ou prezados

armário aberto



sexta-feira, 3 de agosto de 2012

erê

tu me trouxestes uma boneca
miniatura de mim
vestida de amarelo
alecrim de festejo
cabeça sem cabelo

eu a guardo anos a fio
no passar das rugas
no trepidar
no arrepio
na rouquidão da voz
que só chegava a noite

só chegava a noite
por vezes meio dia

um telefonema
na casa da vizinha

um sem tempo
sem fim
sem linha
uma tarefa inacabável

erê dorme na rede do quarto
feito de plástico carcomido
por outro erê escondido
pensando na vida
como chora, pobrezinho
anos a fio
aguarda

sábado, 7 de julho de 2012

prelúdio



eu já nasci com cara de velha
com olheiras enormes
temerosa lua minguando

cresci conversando só
com espíritos e deuses em cima da lage
por onde cresceria  numa longa tarde
o segundo andar de uma casa

que sobrepõe aquela
dos desenhos que eu fazia
e que todas as crianças rabiscam

laranja barro vermelho
porta e janela
sagrada família no azuleijo
jardim nas laterais
parede de taipa
um buraco na porta
flores cor de rosa
rosa cor de flores

eu posso dizer
que vi meu sonho sobrepor
o sonho que hoje tenho
como se eu ainda tivesse aquela altura

com que atravessava  pântanos
chorando tristemente
sorrindo com vergonha

dando um conselho
certamente
morrerei com cara de criança



quinta-feira, 28 de junho de 2012

corredor matinal

eu acordo escutando você passando no corredor ao lado

você bate na janela e eu acordo
eu acordo, é hora de trabalhar
eu acordo e você não está aqui

eu preciso passar essa página
pra poder ver
o que há de ver

no outro lado da calçada

um quarto retangular
estreito e comprido
não é mais pra mim







segunda-feira, 25 de junho de 2012

Ressaca

chuva torrencial
e vieram pelas bocas de rio
tudo o que nossas bocas não consomem
e mais o próprio rio com suas plantas e cobras

enrroladas em copos, sacos, baldes, cadeiras
tênis, raquete, televisões, sofás e monitores
e toda sorte de embalagem
que não envolvem mais nada


um sambaqui, agora epitelial, daquilo que somos bem
lixo

que vem pela maré, pelo vento forte e chega aqui
atrapalhando o sábado do turista

lembrando do que sempre esteve ali
do outro lado da baía

lembrando o cão doméstico
que ele gosta é de carniça

chamando os urubus
e os garis
para uma conferência sobre a limpeza
e sujeira humana



***





quarta-feira, 20 de junho de 2012

lameirão


tempo morto
maré baixa
lameirão

uma mureta que segue o muro desta casa

e dá onde?

praia que segue o mesmo muro
monolitos que observam as mesmas montanhas
tempo morto
sambaqui
objeto
cacho de banana podre

pegadas
volta

era só um quarteirão
mas dentro dela se via
escondido pelo portão
a porta desse tempo

morto

conservado no limo
que cobre a calçada

versos da coreira


PELA GRAÇA DE SÃO BENEDITO
 PROTEGIDO PELO ROSÁRIO DE MARIA
 SACRAMENTO DE SANTO ANTÔNIO
 BERÇÃO DE SÃO JOÃO
 PELOS GRITOS DO CAGERÊ DE SÃO PEDRO
E SOL RAIANDO
PARA TOMAR UM CALDO DE PEIXE PEDRA
REFORÇO DAS ENERGIAS PARA SÃO MARÇAL
COM OS OLHOS DOIDO DAS NOITE DE BRINCAR BUMBA BOI
NÃO É DE PRIMEIRO E NEM DE SEGUNDA
E CANTAR E BRINCAR BOI COMO ELE É....
 PELOS VOTOS DA GRAÇA PROFANO NO SAGRADA DA ALEGRIA DE SER
DE ALMA E CARNE LUDOVICENTE

BJS SEJA BEM VINDA.

___
*Versos de Rosenilde Rodrigues Ferreira, mais conhecida como Rose Coreira, que traz a essência do momento junino na ilha de São Luís do Maranhão.

sábado, 9 de junho de 2012

O+ + A+  = +

sonho com meu irmão

cadê você, hermano?
com seu carro pequenino
de três partes azuis
compartimentos igualdade
cada degrau de uma respiração sufocada

sabe, hermano, eu tô morando onde o pouco está
e nem é o que a palavra parece indicar
pacas, como as do avô
muitas, a andar
a nadar, a baía não é mais a mesma
de quatro séculos atrás

hermano, blues, queria te abraçar
mas acordei um tanto sufocada
com o pescoço no braço enrrolado

cordão

acho que preciso vomitar

sabe-se lá


uma alternativa no campo dos sentidos
lama é poeira molhada após a chuva
tipo o instantâneo no seu continuum
lavando o sensor, poeira no negativo
papel, metal, folha fotossensível
uma mangueira com folhas que serão mangas

quem vem
pra estes solos
quando chove?

quem procura
um abrigo
debaixo da amendoeira?

uma mulher que chega
segurando seu vestido
um choro engasgado
seu abrigo

segunda-feira, 4 de junho de 2012

segure do jeito que for
a mão amiga

encoste apenas
a mão aberta
logo obriga

uma resposta rápida
uma fuga tardia

quem vai estar
do lado de lá
quando a mão formiga

uma nuvem de muriçocas
na cabeça do inocente
e dentro dela apenas
uma única alternativa

só há um modo de escapar de si mesmo

―

domingo, 3 de junho de 2012

arte$



similares entre si
fechadas em lares
abertas na rede
clausura das células
cédulas em série
com muito valor
embutido

*


arte sensorial
no pedestal da galeria
com um corcunda atrás
falando o que é
arte sensorial


da terapia ao center

dos pacientes aos clientes
do gesto aos objetos vazios

de gente ao plástico