quarta-feira, 20 de junho de 2012

lameirão


tempo morto
maré baixa
lameirão

uma mureta que segue o muro desta casa

e dá onde?

praia que segue o mesmo muro
monolitos que observam as mesmas montanhas
tempo morto
sambaqui
objeto
cacho de banana podre

pegadas
volta

era só um quarteirão
mas dentro dela se via
escondido pelo portão
a porta desse tempo

morto

conservado no limo
que cobre a calçada

versos da coreira


PELA GRAÇA DE SÃO BENEDITO
 PROTEGIDO PELO ROSÁRIO DE MARIA
 SACRAMENTO DE SANTO ANTÔNIO
 BERÇÃO DE SÃO JOÃO
 PELOS GRITOS DO CAGERÊ DE SÃO PEDRO
E SOL RAIANDO
PARA TOMAR UM CALDO DE PEIXE PEDRA
REFORÇO DAS ENERGIAS PARA SÃO MARÇAL
COM OS OLHOS DOIDO DAS NOITE DE BRINCAR BUMBA BOI
NÃO É DE PRIMEIRO E NEM DE SEGUNDA
E CANTAR E BRINCAR BOI COMO ELE É....
 PELOS VOTOS DA GRAÇA PROFANO NO SAGRADA DA ALEGRIA DE SER
DE ALMA E CARNE LUDOVICENTE

BJS SEJA BEM VINDA.

___
*Versos de Rosenilde Rodrigues Ferreira, mais conhecida como Rose Coreira, que traz a essência do momento junino na ilha de São Luís do Maranhão.

sábado, 9 de junho de 2012

O+ + A+  = +

sonho com meu irmão

cadê você, hermano?
com seu carro pequenino
de três partes azuis
compartimentos igualdade
cada degrau de uma respiração sufocada

sabe, hermano, eu tô morando onde o pouco está
e nem é o que a palavra parece indicar
pacas, como as do avô
muitas, a andar
a nadar, a baía não é mais a mesma
de quatro séculos atrás

hermano, blues, queria te abraçar
mas acordei um tanto sufocada
com o pescoço no braço enrrolado

cordão

acho que preciso vomitar

sabe-se lá


uma alternativa no campo dos sentidos
lama é poeira molhada após a chuva
tipo o instantâneo no seu continuum
lavando o sensor, poeira no negativo
papel, metal, folha fotossensível
uma mangueira com folhas que serão mangas

quem vem
pra estes solos
quando chove?

quem procura
um abrigo
debaixo da amendoeira?

uma mulher que chega
segurando seu vestido
um choro engasgado
seu abrigo

segunda-feira, 4 de junho de 2012

segure do jeito que for
a mão amiga

encoste apenas
a mão aberta
logo obriga

uma resposta rápida
uma fuga tardia

quem vai estar
do lado de lá
quando a mão formiga

uma nuvem de muriçocas
na cabeça do inocente
e dentro dela apenas
uma única alternativa

só há um modo de escapar de si mesmo

―

domingo, 3 de junho de 2012

arte$



similares entre si
fechadas em lares
abertas na rede
clausura das células
cédulas em série
com muito valor
embutido

*


arte sensorial
no pedestal da galeria
com um corcunda atrás
falando o que é
arte sensorial


da terapia ao center

dos pacientes aos clientes
do gesto aos objetos vazios

de gente ao plástico

domingo, 20 de maio de 2012

o sino de domingo

o sino bate extra aos domingos
às 9h30
na semana ao meio-dia
15h
18h

eu bato
batuco
berimbau
coração
ponto

bato e espero o sino
que vem vem vem vem vem...

às vezes atrasa 1 ou 2 minutos
vejo o pároco correr

mentira, é um programa elementar
de computador

o sino bate aos domingos
extra bate meu peito
pescoço e pulso

segunda-feira, 14 de maio de 2012

identidade

perdi minha identidade
quem estará agora
com meu número
celular
foto 3X4
assinatura
chave de casa
batom
flagrante
anotações numa caderneta
nos bolsos do meu casaco
estava em partículas
onde eu estarei agora
nesse exato momento
onde estarei nos planos
que não fiz
mas anotei

arte contemporânea


quinta-feira, 10 de maio de 2012

ritornelos

coisas de lá pra cá
coisas daqui pra lá
coisas que vão e chegam

até nós
enchendo nossos armários
que nem temos
nossas malas
livros
roupas
quadros
instrumentos
máquinas

nós em espelhos desatentos

uma memória está aqui
por enquanto
neste domus que será desabitado
reabitado por outros
como era antes
com a mesma luz às 14h15

foi só um aluguel

quinta-feira, 3 de maio de 2012

Força e Luz


Minos

encruzilhada
vá pelo lado da praia
me deixa no lado dos cocais
quando chega o velho com seu boi

- ele está me olhando de uma forma estranha

desvio o olhar pra não atiçar seu...
vou saindo despistando
e ele me segue obsecado
uma mulher insuportável grita
penso em desacordá-la
mas agora é preciso correr

chamem o feiticeiro!
chamem o dono desse boi!

corro pra cabana e entendo enfim
suas reentrâncias, labirintos, minos
me encolho num canto
e espero escapar





"touro cavalo bravo não se amansa
touro cavalo bravo não se amansa
eu não tenho medo, eu não tenho medo
eu sai da mata de manhã bem cedo"

quarta-feira, 25 de abril de 2012

ingênua

me dê tempo pra fazer uma música ingênua
e por isso mesmo sincera
antes que a caneta acabe

terça-feira, 24 de abril de 2012

Hermético

não importa se
o senhor esqueceu
ou não sabe escrever
meu nome

o que há de mais essencial
está ali, no senhor
no que diz
mensagem sincera
muito bem escrita
no segredo profundo

quinta-feira, 19 de abril de 2012

no meio do mato estou de cócoras
sinto um pássaro no galho de uma árvore
e um vento que toca as folhas e minha pele
umidade, e todos os nossos
um som uniforme de grilos
as cores mudando
o céu imutável
chuviscando
sinto-me próximo
ali
fora também
sinto-me um
deles
com eles
nós




quarta-feira, 18 de abril de 2012

outono

outono chega como uma praia vinda do outro lado
por trás das dunas

outono é primeiro só um vento frio
e uma certa luz que entra pela janela
ou tonus, estado de espírito
sons sintetizados
ecos
e estilos

outono, esta incerteza me leva a tua praia
e posso te dizer:
não espero nada de ti

o sino vai tocar

agora

terça-feira, 10 de abril de 2012

tudo se aprende

quem é você correndo atrás de mim
que eu corro pensando se vou ter fôlego
você que é uma menina que me dá medo
que eu corro procurando uma multidão

pra me esconder

vejo que peguei distância
de você, menina que grita
coisas sobre mim em plena rua
dessa pequena comunidade

quem é você, menina que me dá medo,
quem é você?

quinta-feira, 29 de março de 2012

Autopoiesis

esta noite andei por essa cidade
vendo cenas que já havia visto

em sonho
a cobrança por um caso
quem está só sabe muito bem do que falo
deve até sonhar os mesmos sonhos que eu
com aqueles que já se foram entre nós

aqueles que um dia fazia sentido
tanto tempo foi dedicado
numa vigília sem precisão
um vigia sem um tostão

quantas gramas de noz moscada
raspadas sobre a ferida
secreção

é preciso fugir do sonho
enquanto há tempo para correr
antes que respingue tudo pelo corte
corra antes que o sonho chegue reivindicando
outros sonhos autogerativos, tenha medo deles, logo

não espere pra respirar
corra respirando


terça-feira, 27 de março de 2012

terça-feira, 20 de março de 2012

vergonha

lembro daquela situação vergonhosa


paraliso


até lembrar de novo
de várias outras assim
jogo a cinza no chão
pra lembrar de varrer a casa
amanhã, ponho o pé no chão
pra lembrar como é andar
antes que eu paralise de novo
vergonha é foda, né?
emperra meu pensamento
em 5 segundos de um ano
inteiro mesmo um meio
um planeta, uma pantera
sua unha arisca risca a cara
do tempo e ri só de mal





domingo, 18 de março de 2012

blá blá

tantas palavras
para repetirmos
palavras à vontade
para comermos depois do almoço

chegamais, meu amigo,
chegajunto


mosquetões

uma fileira de montanhas brancas
uma fileira de velhas
de jovens escalando até que um escorrega
repica e vai se segurando onde pode
derrubando os demais feito dominó
enrolando todos num cordão só
que surpreendentemente
joga pra cima da velha cordilheira
a trupe toda de alpinistas com seus mosquetões
e uma breve vontade de morrer
surpreendentemente

terça-feira, 13 de março de 2012

escuto escuro escudo

eu queria me ausentar da possibilidade de buscar nessa ferramenta
esperar a resposta que chega sedenta da nossa espera
ela chega alegre
ou triste mesmo
 às vezes peçonhenta
uma cobrinha mansa que engole algum animal pequeno

eu queria escrever aquelas poesias da espera
que saíram das suas caixas de sapatos - sozinhas
escutar aquele som de sapo no terreno do vizinho

não mais vou buscar nada
por enquanto escuro
portanto escuta
eu não queria nada em troca pela resposta
que vai chegar bem antes do sapo sair de lá

em breve

terça-feira, 6 de março de 2012

diferindo
diferindo assim
uma lança à toa
transpassando uma lança
um lance assim, ferindo

envergonho-me
baixo a cabeça
instantaneamente


sexta-feira, 24 de fevereiro de 2012

cotidiano

*

eu ocupei essa casa
o lugar para onde se volta
eu ocupei, sozinha, por vezes
ainda com outros
a todos recebi
por vezes de mim fugi

**

louco espaço
minhas anotações por todo lado
minha cabeça do outro lado

***

me passa cada coisa na cabeça
e na sua também
eu penso cada coisa
você me diz: é viagem
você  pensa cada coisa
eu digo o mesmo
você é com quem convivo



domingo, 19 de fevereiro de 2012

carna,vale,ah pena

euforia
olhos baixos


bottom up
cabisbaixo

alforria
satisfaço

com o teu riso
embaraço


lama grudada no sapato
aderindo ao solo
uma breve descarga
uma coisa guardada
apareceu em esculacho
diga que você é besta
pra se safar é muito fácil
dia que você é isso
pra se livrar é muito rápido
de si mesmo
contanto que alguém veja
já dá pro gasto

quinta-feira, 9 de fevereiro de 2012

quero uma comunicação com o espaço

Mudou alguma coisa.


Acho que haviam homens e mulheres nas calçadas
estava seguindo feito o fluxo
de cima pra baixo, água
de baixo pra cima, no vento
e de repente telefonemas
ao acordar e
ao anoitecer visitas e
mais toda essa parafernália
com um sopro assim, talvez
eu sinta algo do que eu já escrevi
tem uma memória assim
eu sei que você não me deve
tem uns aqui e outros mais ali
mas tem uma febre que passa
e tá todo mundo junto nessa calçada
é o calor do rio só pode ser o calor eu rio eu rio eu eu rio.

segunda-feira, 30 de janeiro de 2012

anjo

sua pele quase transparente
vejo veias verdes
cantos roxos
brilho dos cabelos ruivos
anjo, coitado
parece um defunto
se for anjo
o que será de ti?

não posso mostrar tua face
que eu vi de relance e fugi
para agora falar com essas palavras
o que você nunca foi

ó como eu vejo teu rosto em três segundos!

aparece ruivo e
vá embora
pela janela fechada

posso passar horas a falar...
as palavras são maiores

eis o mito

domingo, 29 de janeiro de 2012

cigarras a noite
desesperadas
perderam as dezoito horas
dos sinos na igreja
ave maria
enternecimento

para não ser em vão
vão, voem
logo aqui no salão


conviver viver viver
labaredas e bandeirolas



quinta-feira, 26 de janeiro de 2012

o que é isso
no seu da sua boca?
um osso
minha estrutura
óssea
epifania

o que é isso que eu não percebo
até eu perceber


a chuva que chega
na dor do joelho

domingo, 22 de janeiro de 2012

quando me sinto fora do espaço
quando passo pela lapa
olhando de longe a arrumação
uma ou outra confusão
me sinto olhando de cima da árvore
jogando gravetos e granadas
me sinto de fora
portando dinamites
presentes para pessoas
figurinos e figurinhas
carnes expostas
carnecartaz
leio o valor de longe
de dentro de uma câmera escura

estou portando dinamites!

Paquetá

na passagem, a chuva
bicicleta voltas
curvas turvas
casas escuras
de cem anos ou mais
habitadas ou co-habitadas ou re-habitadas
tralhas no jardim de veraneio
primeira chuva do ano lava tudo
virando lama respingada
podendo escorregar ou mesmo cair

a baía de guanabara
no seu interior saturado
uma água marrom
uma areia preta
uma espuma safa
plataformas de petróleo
na vista deslumbrada
como seria há tantos anos

lá é o cemitério de pássaros

 Ilha de Paquetá
 2012

segunda-feira, 2 de janeiro de 2012

desobediência

tenho que comer
vendo o produto
me dizer
o que é o melhor
pra mim

saio de casa rindo

sábado, 24 de dezembro de 2011

moça de laço de fita
voz da criança
que é menino, que é menina
a mesma voz da alegria de viver
moça de olhos com fitas
pendurada entre os postes
fios ferozes de cerol
vindos das periferias
ainda como lâmina dali
vai cortar e fará ver
erros e acertos

sexta-feira, 23 de dezembro de 2011

os planos são mapas de tesouros
procuramos, piratas, confusos e obcecados
queremos o baú, queremos o mapa, queremos
e o que queremos já está nos nossos braços
mãos, dedos, bolsos, pescoços
queremos realizar, mas realizar dá trabalho
queremos uma outra coisa

domingo, 18 de dezembro de 2011

não é meu não é meu não é meu não é meu não é meu não é meu não é meu não é meu não é meu não é meu não é meu não é meu não é meu não é meu não é meu não é meu não é meu não é meu não é meu não é meu não é meu não é meu não é meu não é meu não é meu não é meu não é meu não é meu não é meu não é meu não é meu não é meu não é meu não é meu não é meu não é meu não é meu não é meu não é meu não é meu não é meu não é meu não é meu não é meu não é meu não é meu não é meu não é meu não é meu não é meu não é meu não é meu não é meu não é meu não é meu não é meu não é meu não é meu não é meu não é meu não é meu não é meu não é meu não é meu não é meu não é meu não é meu

notas de dezembro

orientamo-nos aos arquivos
tristes pelo o que não fomos
este ano está acabando
e não deu tempo de usar
nosso próprio arquivo
infinito, bons e maus vizinhos
abacaxi mel, banho de cheiro
reza pra garganta e pro pescoço
frouxos pelo que achamos
que deveríamos ser
neste ano não temos mais dias
suficientes para realizar nada
só confraternizações
perdemos sete dias
e nove noites
com seus intervalos de memória
ativados em lapsos melancólicos
que dá vontade de rir
dá vontade de fugir
mas não há quilombo
nem exílio, nem deserto, nem mar
assim são os dias quando o fogo chega
nos sonhos
incendiando festas
com suas pessoas
no circo foram mortos, feridos e mutilados
no trânsito, um homem ainda se mexe
de sangue rodeado
sobrevive, por quanto tempo
eis a época da natividade
da realidade reduzida à linguagem

quinta-feira, 15 de dezembro de 2011

sinto o cheiro de ferida
venho lamber, venho lamber
sinto cheiro de despedida

domingo, 11 de dezembro de 2011

quem é dos seus
quem é dos meus
quem é dos nossos
quem é
qual é
o pronome
mais adequado para
deixar claro
qual é
o seu lugar
chegando e indo
o mestre morre
ficam os discípulos
indo e chegando
cada um com seu cadinho
ora perdidos, ora atentos
às vezes descontentes
com o caminho
com o destino
nem se lembram mais do mestre
como era a sua face
mas vão seguindo
autodidatas
às vezes de araque
uns transparentes
outros translúcidos
uns pela frente
outros pelo fundo
nada se esgota
mais na frente tem outra
árvore

| não cantamos tudo hoje
deixa o resto pra amanhã
se quebrar tudo hoje

amanhã nada quebra |

sábado, 26 de novembro de 2011

caolho

só o que eu vejo agora
posso ver
tenho olhos
pequenos e grandes ao mesmo tempo
só posso fazer com o que eu tenho
em mãos
olhos esmagando
o futuro
por vir
aqui ou lá acolá oxalá
tenho olhos
e vejo o que eu posso dizer
constatei e vi
verei

rua fria, paço, rua, passo

cidades distantes uma das outras
cidades imaginárias
maestras de vidas
conjunto de obras
e desovas pelas cidades
intempéries e fome
luzes de natal
soberbas do consumo humano
burro, fútil
hidrelétrica para alimentar
ruas célebres de fartura
onde morrem poucos ou muitos mendigos
rugas do rosto tão triste do vendedor
que te esmola
que diz ter vindo de bem longe
longe é o seu lugar
esmolas, vários pedintes
seus moradores e seus proprietários
como fogo
pede água
está tudo aberto
como um assobio que vem do vizinho
uma cidade vai se abrir
debaixo do mar
no topo da montanha

o assobio venta sozinho

sábado, 12 de novembro de 2011

um beija-flor morre
depois de resgatado
morre e vira madeira
na mão da menina
morre e vira souvenir
no meio da praça
na mão da menina
aflição da erva daninha



(o que remete a esta nota de falecimento)

sexta-feira, 4 de novembro de 2011

Faisão, anum branco

pássaros que andam
desfilam em chamas
primos das salamandras
faíscas do Sol
andam e desfilam
fileiras inteiras
nunca desbotam
refletem e seguem
subindo no mato
que não podemos entrar

seria um portal?
uma cúpula secreta?

chega um, chegam dois, chega o grupo
um atrás do outro e eu os sigo
até onde eu não posso mais

não são humanos
certamente não são bichos
talvez espíritos
fagulhas em penas

andar com eles, andar como um deles

cantos que eu não lembro

uns chamando os outros
convocando para uma mágica
fértil e transparente

luz que entra nas penas
incendeia seus órgãos internos
queima as pupilas de quem vê
o segredo deles

andar para quem sabe voar

faisão, anum branco

quarta-feira, 2 de novembro de 2011

executo uma parte
penso em outras tantas
executo com uma espada

sou cortada de vez em quando
e morrerei em algum instante perdido

à sombra da árvore do cemitério
os vivos espreitam as construções dos mortos
e os imaginam por perto
com cheiro de parafina queimada

palimpsestos