domingo, 5 de dezembro de 2010

Chuva

lama abaixo
água que mistura
esse lixo, esses galhos
pessoas e ruas
cartas de baralho
destinos requentados
a poeira que antes se mantinha
sem nos sujar tanto

essa chuva é mesmo de fim de dia
de fim de semana, domingo
o que resta da folga
surgindo uma segunda cheia de quê?

água abaixo
dilui o que temos
semeia o que plantamos
e dispensa comentário
ela diz tudo por nós
meros humanos

terça-feira, 30 de novembro de 2010

A escrita

Fico lembrando dos seus gestos
suas mãos de zelo

elo

Tento repetir alguns deles

Eles naturalmente chegam em mim
como uma mensagem na pele

Queria
poder
te eternizar com minhas palavras

Quiçá, qui sais...

segunda-feira, 29 de novembro de 2010

maternal

Estou vendo a casa vazia
que criança aqui corria.

A abelha que seu dedo esporou
deixou a marca, o inchaço
frio, calor.

É assim está esta sala
com um jarro de flores
murchando no canto

a morte não vem em um relâmpago

eu também estou morrendo
não é só você...

  - Sou eu quem trago
as flores pra te dar
um sorriso, um conforto, um colo.

 - Passamos tanto tempo ligadas
quando desligar?



*

A casa está vazia
mas só a vejo, porque estou dentro
dela.

sexta-feira, 26 de novembro de 2010

O que passa
como um atraso
se estamos em urgência
sem duração
chega a notícia
do passo
profundo desencontro de pés
olhos esbugalhados pelas ruas
vendo o filme que passa
logo ao lado, no pedaço
um estouro que se confunde
com um som amplificado.

como se nada tivesse acontecido
sinto que sou o som
que só você escuta na planície
um meteoro, talvez...

Eu pasto.
copiar colar
assim, criatura
escrever, esnobar
capturar, roubar
matar

o verbo
tão reducionista
e agora tá na vista
a tal substância ética
tá em baixa

quinta-feira, 25 de novembro de 2010

a noite passa
dentro de um sítio abandonado
o tempo passa
na trilha das formigas desgarradas
deixam marcas nos pés

deixamos os calçados pela estrada

esperando uma volta

aguardando a espera
que acorda com a coceira
um inchaço na espreita
do tempo do campo
ritmo das folhas

levadas por elas

terça-feira, 16 de novembro de 2010

segunda-feira, 15 de novembro de 2010

limpeza

me sinto melhor agora, com a casa arrumada
com o cheiro de roupa passada
o piso sem poeira instalada

com o dia que chega cedo
uma luminância que sinto antes mesmo de abrir os olhos

a saída do túnel pela cidade

há algo de novidade no samba dos vizinhos
na sombra da fresta da porta que projeta o Sol que roda
o altar com sua vela que queima, pára
e queima de novo, com a nossa supervisão
para trocá-la assim que for
preciso

sinto-me bem como o guardião do estábulo
dos cavalos que irão para a guerra

quarta-feira, 10 de novembro de 2010

que sorriso é esse
pulando da boca
um jato
um anúncio

você rindo parece
uma prece de domingo
feita pelas crianças da paróquia

ou a criança é você mesma

Súbito
algum recado na parede
escrita de um quarto

sozinho
o carrasco...

Estamos passando.
vejo você e o teu espaço
vejo a vida que passa
em você eu vejo o que passo
reverbero rindo ainda
nas bordas de um sentimento trágico
vejo um ansejo premeditado
um anseio de ver instaurado
o dia.

cansado de noite
dormindo eu vejo o que é
são imagens como essa
que eu vejo

a folha de papel
a tela.
certeza
só o tempo traz
intuição é um palpipe

no jogo do bicho
isso ainda existe?

eu acho
o fogo come tudo velocidade
que clareia os nossos passos
para fora
pegadas meticulosas

mas a casa chama
e é preciso voltar
recuperar o hálito
dos que passaram por lá:

os retratos na parede
e um porta jóias em cima da cama

por pouco não queimaram

quarta-feira, 3 de novembro de 2010

na praia calma chega a ventania
levando dos guarda-
sóis e alguma alegria de sábado a tarde
subimos a rocha
e para aderir
tiramos sapatos e fazemos dos nossos dedos
garras de carne

e o vento dificulta
da medo olhar lá embaixo
no pé do elefante tem
muitas árvores de pelúcia

o tamanho depende da distância
e o som da água chega de longe
adentrando cada poro da pedra

domingo, 31 de outubro de 2010

tem festa lá fora
tem grito de futebol
e gargalhadas subindo
pelo cerol das pipas

no céu
do Sol
lá fora

e eu fico por aqui mesmo
fechando os olhos
e vendo a paisagem
passar em mim

sexta-feira, 29 de outubro de 2010

loop

doce de espécie
de que
doce
de espécie

*

lembro de Alcântara
uma coisa marinha passando
um batuque lá longe
em um quilombo onde nunca
poderemos
chegar

*

a luz amarela que fica
pelas ruas
os candeeiros lá estão
mesmo quando chega a luz elétrica
uma camada de cidade
cobrindo esse espaço

a lua sideral
ciclope visceral

o que mais dizer
do que não se precisa

dizer o nome da rainha
ou do calango passeando a noite

precisa

a tranquilidade da noite
com seus braços minguantes
refletindo o homem
refletindo o Homem

terça-feira, 26 de outubro de 2010

não quero marcar
um ponto de referência
um ponto de chegada
nem mostrar a entrada do atalho
nem a saída da emboscada
eu até queria sim
marcar os passos na estrada
como medida da memória
vejo
um seio que cai
bem à frente do outro
foi sugado pelo pai
o filho do outro

em ouro
é a estátua
mas vai apodrecer

porque é assim
o caminho das larvas
trazem o adubo

14 nós
na corda do poço

sábado, 23 de outubro de 2010

tem um estralo no meio da minha costa
outro no meio do meu peito
no meu cabelo o cheio do chaturo
e nas minhas mãos a lembrança de um novelo

que nunca teci
era da minha mãe

sentada no sofá, mas tecendo o mundo inteiro
e eu ali a esperar
um erro que me faz puxar a linha

que sensação gostosa e imprudente
temerosa é a força da mente

onde anda as mãos para massagear
a alma que somatiza a incerteza a nossa frente

sexta-feira, 22 de outubro de 2010

Fogo-apagou

não adianta estar na sombra
o fogo nos atinge
nos deixa em coma
cama escura
reino de lama
sem se ver

a morte por ali passou
numa corda pendurada
e deixou apenas um baú
no quarto desabitado

habitat do pica-pau
que resmunga e nos faz sorrir

sem os dois dedões
dos pés longe pisaram
ele espera o ciclo do santo
cercado de passarinhos
do sertão alado
em duas gerações
que fosso dado

uma distância secular
do dado jogado
fortuito legado
que levamos

boas combinações
mesmo tendo seca
pé rachado
migração forçada

e eu, uma falsa peregrina
segurando suas mãos
como se fossem raios

essa fé me atinge
e eu, uma pedra abalada
me extingo
daquilo que queimou
sem chama lançada

folhas secas
cintilância do calor
árvores que parecem mortas
mas disfarçam

quarta-feira, 29 de setembro de 2010

arquivos

vocês que me salvam

e eu não vos salvo

de vez em quando, eu escapo
do meu querer
eu perco
o que queria tanto para mim
meu espaço, minha memória

perco o mais importante
agora
o que é descaso
e o que é apego

na hora
que atentamos
para o apagamento
que já existia

e faz pouco tempo
nem tínhamos fotografia

segunda-feira, 27 de setembro de 2010

domingo, 26 de setembro de 2010

a sensação magna
da mãe embalando
no seu colo
seu filho amado

que sensação é essa
que parece reunir
o mundo amado
num só colo

que Deus é esse
nosso pai e
nossa mãe
que nos trouxe ao mundo
para ser pai e mãe
Deus

sexta-feira, 24 de setembro de 2010

Estante de São Benedito


Estante de São Benedito. Cururupu-MA, 2009.
o chá inglês, indiano
substrato, iguaria
num embrulho
pra família
o vento esfumaçado
de foligem extrema
revestindo o interior
da garrafa, da bílis
da origem, do compasso

eu passo
por todos vocês, que não vão
caminhar por onde andarei
que não vão

levo vocês na mala
um dia
retribuindo o que vocês viram
e depositaram
nos meus sonhos

quarta-feira, 22 de setembro de 2010

a opulência
das flores abrindo
na Lua Cheia

colo da mãe
que nos afaga

sempre partindo
porque sós

veremos

terça-feira, 21 de setembro de 2010

banzo de São Luís

Ponta do Bonfim, 2010



quem sabe, o tempo
é esse de fim de tarde
dos verdes lá longe,
na ponta
Bonfim
o local onde o Sol desvanece

e aquele clima parado
da maré,
dos paralelepípedos,
dos azulejos,
tudo caindo
mais uma vez

lepra do Bonfim

quem disse que o mal acabou?

ainda assim sinto saudades
da despretensão
de todo mundo
que se abraça e dança
nos seus conformes

até sinto alguma raiva
que passa
conforme
uma piedade
benévola

domingo, 19 de setembro de 2010

para Robson Diniz

quando batem as seis horas
tarde
domingo
não se sabe
se começa ou se finda
se apetece ou trinca
quaisquer lembranças
daquele que se foi

por seu querer
um espaço foi largado

no seu velório, consigo ver
uns abraçando aos outros
passando a força
para continuar

o que ele deixou
não foi um lugar

foi uma vida
um vaso trincado
na sua caída

(continuemos
por ele e por tantos)

***

Hoje, por rastros de discursos, pesâmes perdidos, a partida de alguém querido. Robson era maranhense, ator da companhia Tapete Criações Cênicas. A última vez que eu o vi foi no espetáculo Hotel Medea, apresentado no Rio de Janeiro em maio desse ano. Peço paz para a sua alma que agora flutua nos ares do universo.

quinta-feira, 16 de setembro de 2010

carne crua
comida
eu, apavorada, correndo
pela casa escura
descendo escada
caracol
enrrolada no pânico
expresso em uma feição
pura

que diabos está nesse couro
que me persegue feito um cão
faminto
canibal

...

No outro dia

quero sair ainda
pegando o que resta da luz
nas ruas

terça-feira, 14 de setembro de 2010

os aniversários

a idade
uma receita aberta
de miríades de órgãos
cansados e entrecobertos
pelo o que passa ou chega
alaga nossas lembranças
que amamos ou queremos nos livrar

servimos água para o beija-flor
dentro de uma falsa natureza
e ainda assim
ele chega
e nos alarga
com um canto
um clamor
que nem sabíamos que existia

domingo, 5 de setembro de 2010

um jarro que cai na cabeça
do transeunte
um desenho animado
que passa na tela
da janela
do ônibus
num segundo
se perde o enredo
do vendaval de setembro
o samba que chora
fatalidade

a morte sempre vem
indomável

sábado, 4 de setembro de 2010

quinta-feira, 2 de setembro de 2010

a postura e a imagem
correta
a mostrar

pena, nós não nos permitimos mais
fazer uma careta contra o sol
ver o tempo passar
por aí
flanar, aqui dentro
parar e observar

o sinal luminoso na rua
um boulevard
e dois fluxos
na mesma direção

sexta-feira, 27 de agosto de 2010

todos os meninos
viraram homens
se lapidando
cortaram-se
angústia é bobabem
que tempo é esse
da mariposa no quintal

quinta-feira, 26 de agosto de 2010

reações

quando é melhor calar
os olhos
ouvidos
e boca

quando é

simplesmente

cala-se


segundo ato

após pensar

calar
e após
pensar

sexta-feira, 20 de agosto de 2010

ontem
perdi a rua
dei a maior volta
incrédula pela falta
ou mesmo nenhuma de habilidade
pergunto como esse filho
está aqui dentro
se eu nada fiz
incrédula
prenhe
nada quis
mas aqui está
solitário mi menor

quarta-feira, 11 de agosto de 2010

uma coisa é
diante da possibilidade
das mãos estendidas
dar o passo pra trás
ou um chute no traidor

cansados de atenção
contínua
vida
"Poesia é o nome elegante que se dá a sentenças originas que se protejam do nada. Aparecem onde não havia nada. A descoberta de que todo pensamento tem origem poética e de que os poetas são os criadores do pensamento ex – nihilo é uma descoberta do nada fudante. Os poetas que sabem disto, e entre nós são bem representados pelos poetas concretos, aplicam metodicamente essa descoberta. A poesia é o nitrato de prata do pensamento. O espelho está virado."  (Flusser)

presentes

podemos até ganhar
contudo
qual certeza alguém nos dará
dessa posse momentânea?
nenhuma garantia.
sabia, as crianças sempre preferem as caixas aos presentes!

quarta-feira, 28 de julho de 2010

terça-feira, 20 de julho de 2010

um ano depois
o que sucedeu

as mesmas linhas
alguns nós
desenrrolaram
outros pois
reconduziram
a outros novelos
de nós

só
o pensamento cresce
na direção das águas

sábado, 17 de julho de 2010

O Ritornelo, uma poética musical

Há mais ou menos dois meses, eu e Bruno Barata decidimos fazer o curso de arte sonora na EAV Parque Lage, com os professores Saulo Laudares e Franz Manata. Decisão no feeling, nem sabíamos direito o que era delimitado por Arte Sonora na verdade, mas desde a primeira aula fomos indagados para pensar um trabalho para um happening.

Foi daí que surgiu a idéia de explorar o conceito do ritornelo, que é pertencente a vários domínios. Trata-se dos movimentos de retorno, seja relacionado à música, como um refrão, ao comportamento dos animais que marcam seu território ou ainda filosoficamente, relacionado à construção da subjetividade humana.

Os movimentos do ritornelo demonstram a lógica cíclica da natureza e foi o que inspirou a construção dessa “performance” realizada ontem pela primeira vez com caráter experimental de uma poética musical. A idéia era explorar os movimentos do ritornelo, “procurar um território”, “partir” e “retornar”, pelos números 6, 9 e 8, três movimentos e três momentos nesse show experimental.

Este tempo cíclico do ritornelo é expresso em um conceito base: o looping, a repetição de uma amostra. Sete músicas foram compostas unindo capoeira com blues, caixa do divino com melodia árabe ou canto de pássaros, entre reverses e explorações dessas loops no live, como uma gaita capoeira ou um tambor de crioula no qual o tambor grande é uma guitarra. Fora as músicas: Orvalho em Desatino, É, Sambaqui, Sem Aviso, Samba dos Barbilhões e Ritornelo. Essas foram escolhidas no livro de composições do Bruno, pensando sempre nos ritornelos da vida.

O Happening em si foi bem legal. O conjunto dos trabalhos davam uma consistência ao todo e a chuva interminável de ontem parecia que estava no lugar certo. Eu, na verdade, pensei que deveríamos estar numa sala menor, algo mais intimista e para manter a idéia de cantar sem microfone, já que fazer isso em uma sala relativamente grande era difícil de comunicar, em especial a letra das músicas. Mas calculamos mesmo que existiria esse vai e vem do público e cada pessoa que falou conosco depois, parecia ter gostado momentos diferentes.

Ontem ao agradecer, disse que era grata aos que ficaram, mas não somente, a todos os que ali passaram, aos professores e colegas do curso de Arte Sonora, à Carolina Libério, Marrytsa Mel, Claudiana Cotrim e a Victa de Carvalho, que muito cooperaram, além de todos os mestres que nos guiaram nesta pesquisa.  Dedico esse trabalho também à Karem, minha sobrinha, que ontem fez 2 anos, e à minha orientadora do mestrado, Fernanda Bruno, que viajou ontem pro PosDoc em Paris, e que foi em uma das suas aulas que estudamos o texto do Guattari de onde veio as primeiras idéias.

Continuamos estudando e esperamos realizar a performance em breve, melhor e até o fim, concluindo os movimentos e transformando o que somos, em um ritornelo que não é apenas sonoro, mas poético, entendendo que o som e a música estão presentes em toda matéria e expressam este movimento de ação contínua, os ciclos, o eterno retorno.







Fotos de Carolina Libério

terça-feira, 13 de julho de 2010


Depois do curso de arte sonora, eu e bruno barata preparamos um trabalho que visa ser um laboratório de um show experimental a partir das nossas pesquisas sobre esse conceito instigante, O Ritornelo.
Sendo mais questionamentos que resultados, essa "performance" procura mais o caminho que a chegada.  Aprender vivendo. Vamos saravar!

quarta-feira, 7 de julho de 2010

o corpo nu
é o corpo da dobra

o que sobra
depois
e antes
de tudo o que cobre

adereços

domingo, 4 de julho de 2010

se andamos desenfreados
paramos com a queda
fervor do meio-dia
dia com o clamor
dos sentidos
enganadores talvez

ingenuidade não é virtude
só os bons dão sem querer
e os bons são poucos
e ser bom é pouco

a comida selecionada
do caldeirão do rei
veio da mesma plantação
do grão que se estragou

quinta-feira, 1 de julho de 2010

a matemática
acaba com o acaso
com a casa
dos grãos e dos pontos
a escala é a escada
que subimos
circulando